quarta-feira, janeiro 04, 2006

Miséria, fanatismo e terror: da nova para a “novíssima” ordem mundial

Por prof. Zelão (*)
Os atentados terroristas ocorridos em 11 de setembro nos EUA, pelas suas proporções e pela forma como foi exibido, interferiram no cotidiano dos incautos viventes da aldeia global capitalista. A ousadia dos autores maculando dois dos grandes símbolos desse sistema (o WTC como símbolo do poder econômico, a “babel econômica”; o Pentágono, como símbolo da inteligência militar da maior potência do planeta), e a força das imagens transmitidas consecutivamente nos lares do mundo globalizado, alimentando nossa iconofilia, levaram o mundo a refletir sobre questões antes inimaginadas numa roda de bar, no playground de um condomínio, em noticiários de qualidade duvidosa e até mesmo, numa sala de aula: o que aconteceu com a casa da maior potência do planeta? Quem teria cometido essa insanidade? Foram terroristas islâmicos, japoneses ou mesmo, norte americanos? Como foi possível driblar o (até então) “indriblável” sistema de vigilância dos EUA? Quando as investigações apontaram para bin Laden, para o fundamentalismo islâmico, o desconhecimento do Ocidente fez emergir curiosidades sobre o Oriente Médio, o mundo árabe, a cultura islâmica. Todos os árabes são terroristas? Taliban, hezbolah, xiitas, muçulmanos, islâmicos, quem são esses? Palestina, Israel, judeus, hebreus, como entender a complexa história desses povos? E o que tudo isso tem haver com os EUA, propagados como a ”polícia do planeta”, o defensor do bem contra o mal? Abrimos aqui uma interface nesse universo de questões para analisar alguns aspectos do terrorismo como fruto da miséria e do fanatismo nesse contexto da atual fase do capitalismo. A Nova Ordem Mundial nos revela a cada instante questões intestinas da ordem capitalista que perpetuam mazelas sociais existentes desde o surgimento da sociedade de classes. Mais que isso, o atual momento do capitalismo agrava diferenças de todas as ordens. A grande matriz das inúmeras formas de segregação é a profundeza abissal existente entre a riqueza e a pobreza. Na Nova Ordem Mundial esse é o critério de classificação dos países, suplantando a bipolarização ideológica que definia a Guerra Fria de 45 a 89. A decantada Globalização definida como “caminho e estágio natural do capitalismo”, apregoada pelos otimistas como integradora de povos, culturas e economias,” demonstra suas facetas desintegradoras, apesar da teia envolvente da aldeia global. A globalização como característica essencial da Nova Ordem, ao contrário de superar as diferenças entra riqueza e pobreza, perpetua a concentração de poder e riqueza – é claro que com um mapa modificado –, mostrando-se cada vez mais fragmentada e fragmentária. Ao analisarmos os atentados contra os norte-americanos (certamente o marco histórico do início do século XXI – seria o início da Novíssima Ordem Mundial?) devemos entendê-los como resultado daquele contexto. Principalmente se atribuirmos sua autoria ao fundamentalismo islâmico como vem apontando as investigações. O que teria motivado pessoas a atingirem esse alto grau de desprendimento dos conceitos básicos de civilização, essa recusa total à condição de civilidade? Além de terem os EUA como o grande satã, representante das forças do mal, aliados de Israel e dos judeus na Palestina, há a péssima condição de vida a que estão submetidos seus seguidores. Essa questão, em especial, nos remete a uma rápida análise do terrorismo nos últimos cinqüenta anos. No passado, o terrorismo buscava plataforma para o discurso da ideologia pretendida. Matar não era necessariamente o fim pretendido. Havia a intenção de atrair simpatizantes para a causa, podendo haver mortes; criava o fato político e fazia questão de assumir a autoria da ação. O terrorismo atual e, em especial o dos fundamentalistas islâmicos, não pretendem atrair adeptos para uma causa, não querem simpatizantes, mas sim, somente a vitória de sua crença. Sem admitir qualquer ideologia contemporânea, pretendem demonstrar o poder e a força do universo teocêntrico, forjado no radicalismo religioso de interpretações próprias do Corão. Tanto o fundamentalismo islâmico, quanto a maioria dos grupos terroristas da atualidade tem seu motor na pobreza material. Apesar do financiamento promovido por fontes abastadas, os terroristas (suicidas ou não) são fruto da “escória”, depauperada em último grau, que sobrevive, incomoda e apavora a ordem global capitalista. São filhos bastardos e renegados do capitalismo e do socialismo da Velha Ordem Mundial. Mantidos por máfias de ricos empresários (Jihad Islâmica) ou por máfias do narcotráfico (PKK, na Turquia, Sendero Luminoso e Tupac Amaru, no Peru), são indivíduos que se mantêm na ausência de condições que garantam o mínimo de dignidade para a vida. Essa condição social manipulada e bem trabalhada por interpretações não oficiais das escrituras sagradas, mobilizam exércitos de despossuídos para a luta contra aquilo que julgam ser o entrave para a mudança de vida, de superação da condição de miséria. Sob promessas e bênçãos divinas para o pós-morte (e no caso da Jihad Islâmica, sob a premiação com dólares e outras condecorações para a família do terrorista suicida) partem rumo ao inimigo, utilizando sua arma mais poderosa e letal: a disposição para morrer. Nessa luta nada têm a perder. O terrorismo moderno portanto, não preserva vidas e pouco se preocupa com a opinião sobre sua forma de ação. A violência extremada e indiscriminada é o recado. De volta ao universo de questões que vêm sendo levantadas sobre os atentados terroristas aos EUA, destaco uma que venho me deparando em diversas turmas com as quais trabalho: a comparação entre a mobilização dos fundamentalistas islâmicos na atualidade à dos movimentos messiânicos ocorridos na República Velha brasileira (1889/1930).Tem sido comum a tentativa de se estabelecer paralelo entre Canudos, no Brasil e os fundamentalistas, no Oriente Médio e em diversas outras regiões do globo. A razão ao que parece, está no fato de terem em comum como protagonistas, comunidades depauperadas lideradas por religiosos. Há que se tomar cuidado quanto a comparações dessa natureza. São casos com especificidades muito diferentes, ocorridos e ocorrentes em contextos históricos profundamente diferentes; as bandeiras levantadas, os “projetos”, expectativas e objetivos são adversos. O que pode parecer semelhante é a mobilização de pessoas despossuídas de condições de sobrevivência, e portanto de cidadania, por lideranças religiosas que desenvolvem interpretações ímpares de suas escrituras. È a miséria utilizada como arregimentadora de párias sem perspectivas, fragilizados e subnutridos de dignidade. A via utilizada é o poderoso misticismo teocêntrico, que os envolve num denso nevoeiro mesclando política e religião, transformando-os em fiéis de coragem espartana para a guerra. Dentre os aspectos que os difere observamos os dogmas do cristianismo para os sertanejos nordestinos de Canudos e os do islamismo para os fundamentalistas de diferentes regiões do mundo. No primeiro conjunto destacamos a pobreza como virtude. No segundo, não. A pobreza é algo a ser superado e evitado. Os canudenses e, mais tarde, os rebeldes do Contestado, no Sul do Brasil, além de se mobilizarem em torno de ideais milenaristas e escatológicos pregados por beatos (rejeitados pelo clero) , lutavam contra a opressão dos latifundiários no início da república que em nada haviam contribuído para a superação da condição de miserabilidade do camponês brasileiro. Os fundamentalistas islâmicos consideram que o mundo de Alá (o Islã) está sendo agredido e aviltado pelas forças do mal através do grande satã, os EUA que representam o Ocidente e apóiam Israel na Palestina. Enquanto Antonio Conselheiro liderava os sertanejos num modelo comunitarista primitivo no arraial de Canudos, sertão da Bahia, aguardando o retorno de D. Sebastião, monarca português que ressuscitado do além os governaria no novo reino, os fundamentalistas atuam para fazer valer a força do Islã em todo o mundo, lutando contra Israel, EUA e Ocidente de maneira geral, ou quem quer que cruze os caminhos de Alá onde quer que seja. O povo de Canudos constituiu-se num grande exército de guerrilheiros para enfrentar os latifundiários donos do Estado republicano que não tinhas vistas ao campesinato. A ação dos fundamentalistas islâmicos, além de guerrilhas, constitui-se de ações terroristas promovidas por suicidas altamente treinados para morrer por Alá. Portanto, há muito mais desemelhanças entre as duas formas de luta do que se imagina numa primeira leitura. Entretanto, as analogias devem ser praticadas no sentido de construção do conhecimento histórico, fazendo emergir as especificidades dos contextos em questão e, assim, o movimento dinâmico e dialético da História. Finalizamos essa análise afirmando que enquanto houver a manutenção da miséria como geradora da riqueza, viveremos sob um constante estado de sítio, calado, sombrio, estado de terror opressivo. Não pensemos que seja “condição da natureza humana” a exploração do outro. Esse determinismo justificador do controle do poder e da riqueza por um seleto grupo ou blocos, vigora para manter a segregação em detrimento de uma população supra-nacional, globalizada (para nos apropiarmos de uma terminologia em conformidade com a Nova Ordem), desprovida de condições mínimas de humanidade.A “Novíssima Ordem” até agora não demonstrou sinais que possam reverter esse quadro, ao que parece, nem mesmo após os atentados de dimensões assustadoras como os de setembro nos EUA. Pensemos e atuemos solidários à construção de perspectivas que, se não transformarem, ao menos amenizem a dicotomia entre a abundância e a penúria, o terrorismo que subjuga a todos.
(*) Prof. Zelão é historiador e psicopedagogo

A Amazônia é deles


Por Said Barbosa Dib*
Este ano haverá mais uma mega-conferência internacional sobre meio ambiente, marcando dez anos da Eco-92. Como sempre, a mídia dará ênfase às queimadas “ciclópicas” na nossa Hiléia, o “besteirol” verbal será aberto e se assistirá à velha cantilena em torno dos mitos e tabus conhecidos. Cientistas dirão que o efeito estufa está derretendo o mundo, as ONGs sacudirão as sacolinhas e destacarão a necessidade de autonomia e preservação da cultura dos nossos autóctones, a CNBB fará campanha para ajudar a preservar o que já ajudou a destruir. Ecologistas, mesmo financiados pelo sistema financeiro mundial, dirão que a humanidade tem que consumir menos, e os pobres reclamarão que precisam consumir mais, ou passar a consumir pelo menos o mínimo. O mundo dirá que a riqueza biológica das florestas tropicais precisa de proteção, e os militares patriotas, isolados, responderão que a Amazônia é nossa. Esta Amazônia das manchetes jornalísticas é um lugar muito longe do Brasil real, mas já começa a ter uma aparência cada vez mais familiar aos nossos gostos de classe média consumista voltados para a imbecilidade hollyoodiana. Cada vez mais vemos louros de olhos azuis, entidades internacionais, missionários evangélicos bondosos, mercenários abusados da CIA e DEA, traficantes medicinais, cientistas preocupados e coisas afins, no pedaço. Um desses locais fica em Roraima, região potencialmente riquíssima, na fronteira com a Venezuela, onde vivem os índios yekuana.Segundo os ecoterroristas de plantão, os yekuana estão se sentindo mais fortalecidos agora, devido a sua maior aproximação da parte venezuelana da tribo, e também com uma ajudinha de alguns amigos europeus (que ninguém nos ouça!). Eles acabam de se tornar os primeiros índios brasileiros a conseguir uma rede de rádios por seus “próprios” meios, junto à Anatel. Trata-se de um povo que mantém o difícil equilíbrio entre sua cultura tradicional e os artifícios da vida moderna. Falando sua própria língua, mas sempre com bons intérpretes, eles levantaram recursos com a ONG internacional “Amigos” da Terra e alimentaram a burocracia de Brasília com a papelada (seria propina?) necessária para a legalização da rede de rádio. Da fiscalização do território ao fortalecimento dos seus laços familiares, a rádio dos yekuana é, aparentemente, um capítulo da verdadeira preservação da Amazônia. Mas, se formos um pouquinho menos ingênuos, veremos que a coisa não é bem assim. A comunicação à distância torna as fronteiras nacionais algo ainda mais abstrato na vida desses índios de Roraima, como foi para os kosovares da fragmentada Iugoslávia. "Os Yekuana descobriram o rádio como instrumento para tratamentos xamânicos à distância", conta o “imparcial” antropólogo Marcelo Piedrafita Iglesias, coordenador do Projeto Rádio Amazônia da Amigos da Terra. A convivência com esses índios, vizinhos quase desconhecidos dos famosos ianomâmi, revelou a Iglesias a essência do seu caráter: “são alegres entre si, mas extremamente sérios e objetivos nos contatos com o resto da sociedade; mostram grande capacidade de articulação política, mas nunca abrem mão da autonomia”. É interessante notar nos comentários do eminente estudioso a insistência na questão da autonomia. Essa índole independente fica clara , sim!, num dado curioso: os yekuana sempre resistiram às investidas das ONGs da Amazônia. Mas, atualmente, esta resistência vem sendo minada através de uma atuação milionária mais ostensiva por parte das forças internacionais.Os yekuana firmaram-se na região como bons produtores de canoas, seu trunfo principal nas operações de escambo. Mais recentemente, influenciados pela insistência de grupos missionários e entidades estrangeiras “humanitárias”, farejaram as maravilhas da tecnologia, desenvolvendo grande intimidade com o uso de placas solares e baterias (obtidas na Venezuela por contrabando. É claro!), conjunto utilizado sobretudo para iluminação de caçadas e deslocamentos noturnos. Com a eletricidade, entraram na era da TV e antena parabólica, voltadas, curiosa e principalmente para canais estrangeiros. Nunca assistem a “Casa dos Artistas”, mas são familiarizadíssimos com a CNN.Com toda essa atualização, esse pequeno povo (400 indivíduos do lado brasileiro, 4,8 mil no venezuelano) mantém praticamente intocados os valores e alicerces da sua cultura, dizem os representantes da Amigos da Terra. Mas, obviamente, apenas no que interessa aos seus “bem feitores”, pessoas sob uma forte presença dos pressupostos dos valores anglo-americanos e suas “preocupações humanitárias”. Além da fidelidade total à língua (mas já se arriscando nos rudimentos na língua anglo-saxã), conservam, por exemplo, a sua ritualização da morte. O rádio era o que faltava nessa alquimia. Um instrumento tecnológico que, para os yekuana, funciona, por um lado, principalmente como fator de união das famílias, guardiães da tradição. Por outro, um elemento óbvio de coesão entre tribos dos dois lados da fronteira, forjando-se uma certa identidade nacional (ou tribal) que, por enquanto, não existe. Tribos que nunca ou quase nunca se encontravam, que teriam apenas traços lingüísticos e tradições gerais em comum - só vistas nas mentes dos estudiosos de universidades dos países desenvolvidos ou suas filiais daqui – começam a se achar apenas diferentes do que os cerca. Porém, como a coisa vai, se depender dos estrangeiros que ali estão, com seu senso cristão “altruísta”, logo o MacDonald´s se estabelecerá na região, talvez com uma nova iguaria “politicamente correta”, com o sugestivo nome de MacYekuana´s, pois se a economia de subsistência dos índios permite consumir antenas parabólicas, porque não poderiam consumir hamburges? Aliás, na aldeia de Auaris, em dezembro, assistiu-se a uma cena linda: famílias caçando a tempo de defumar a carne e preparar o rancho para a chegada de parentes venezuelanos no Natal. Com Papai Noel, Coca-Cola e tudo mais, o encontro fora marcado pelo rádio. Da mesma forma circulam as informações sobre festas, casamentos e mortes, além de campanhas contra tudo que lembre os não-yekuanos, como os pobres caboclos brasileiros, por exemplo. Exceção, é lógico, para os guardiões das ONGs amigas. Há ainda celebrações ancestrais, como o ritual da moça nova (entrada na puberdade), mas em dezembro passado o rádio estava servindo para a montagem de um grandioso ritual de outra espécie: um campeonato de futebol, reunindo yekuanos do Brasil e da Venezuela. Seria este um torneio nacional ou internacional? Fora da Amazônia das manchetes de jornais e dos diplomatas, esta seria não uma bela confraternização internacional sob os olhares emocionados dos bondosos filantropos estrangeiros, mas o início da montagem de um projeto geopolítico safado que irá forjar, em breve, um Estado nacional sob o controle das ditas ONGs.No Brasil dos imbecis de plantão e dos desavisados, o campeonato não seria uma confraternização nem internacional nem brasileira, seria apenas única e exclusivamente a Copa Yekuana – única modalidade (esportiva, geográfica ou cultural) em que a Amazônia tem futuro. Para quem tem um pouquinho de tutano, no entanto, seria o primeiro passo para a transformação daquela região brasileira num quintal das potências estrangeiras, como um grande “zoológico” humano internacional, um jardim para a juventude ecologista de gringos ou, talvez, escancarando logo, uma dispensa de reservas estratégicas para a cozinha do capitalismo internacional. Mas, brincadeiras aparte, sejamos realistas. Esse interesse pela Amazônia ficou evidente e ampliou as ameaças à soberania brasileira, principalmente depois do serviço aerofotogramétrico realizado pelo Projeto Radam e de certa forma agressivo, com o advento dos satélites, que constataram, através de fotos, as potencialidades da região, considerada, hoje, a última e mais rica fronteira econômica do planeta. Isso foi o suficiente. Logo a Amazônia virou assunto na imprensa internacional. E, com tal assiduidade, que nos últimos anos ocupa, obrigatoriamente, o noticiário dos jornais e televisões do mundo inteiro. Haja vista o tema que foi o elemento de desempate na recente campanha presidencial da maior potência do Mundo, quando sabemos que os votos potenciais do candidato do Partido Verde roubaram eleitores do democrata Al Gore, o que permitiu a vitória de Bush por uma mínima e duvidosa diferença. Uma diferença tão pequena que fez Al Gore e Bush se comprometerem cada vez mais nas campanhas com um discurso voltado para as ONGs, envolvidas até as entranhas com a questão amazônica.Há muito este tipo de noticiário, falso e mal intencionado, vem projetando no mundo uma imagem distorcida e irreal da região, onde viveriam homens que destroem a natureza, matam índios e ofendem o ecossistema da maior reserva biótica do Mundo. A essa campanha externa de desinformação juntam-se entidades brasileiras, inocentes úteis, hipporongas “bem intencionados”, “alternativos”, “idealistas”, missionários aculturalizantes ou mercenários de movimentos ecológicos, quase sempre formados com isenção fiscal dada pelo Governo e financiados pelas transnacionais, para falarem mal do nosso País. Uma campanha espúria cujo objetivo principal é claramente evitar o povoamento efetivo da Amazônia por brasileiros, deixando a região vazia, sem o incômodo de futuras resistências da sociedade civil brasileira às investidas bélicas estrangeiras. Ou seja, querem ter certeza de que a Amazônia não será um novo Vietnã. Campanha ridícula e tendenciosa que, além de ofensiva à soberania de um país e a dignidade de seu povo, não vem encontrando do governo brasileiro qualquer reação. Essas esfarrapadas manifestações de piedade internacional pelo indígena brasileiro e pelos animaizinhos amazônicos, escondem o desejo de criação de Nações Indígenas na Amazônia a serem administradas por grupos religiosos ou pela ONU, tudo em nome de projetos “humanitários”. Principalmente agora que a arrogância dos membros da OTAN não tem mais freio, ao intervirem no Kósovo sem a sanção do Conselho de Segurança da ONU; principalmente depois que abriu-se um perigoso precedente no Direto Público Internacional com a prisão do general Pinochet há alguns anos, numa afronta absurda à soberania do Chile; ou o atual linchamento de Milosevic em Haia. Fatos estes que fortalecem posições jusnaturalistas que advogam um ignominioso Direito metafronteiriço que transcenderia a soberania das várias Nações-Estado. O discurso atual de “intervenção humanitária”, que pode potencialmente ameaçar a nossa soberania na Amazônia - como no caso do Kósovo e do Iraque -, apesar de seu cunho ideológico “politicamente correto”, toma uma dimensão intervencionista e ameaçadora ao ser utilizado para fins de defesa dos interesses geopolíticos das nações hegemônicas, na medida em que as potências ocidentais se aproveitam da falta de jurisprudência internacional que solucione tal contradição.A despeito de teóricos simplistas ou engajados na causa norte-americana, em pretenderem provar o contrário, os fatos demonstram que a estrutura do Direito Internacional Público está em frangalhos diante da prepotência, arrogância e irresponsabilidade norte-americana ante a geopolítica internacional nos últimos anos, principalmente depois de 11 de Setembro. Ela não vale, a continuar a subserviência da comunidade internacional aos norte-americanos, absolutamente nada.As intervenções em países como a Iugoslávia, o Afeganistão e o Iraque não são uma questão de intervenção humanitária regida pelo Direito Internacional, é uma questão de força bruta, descarada, violenta e ilegal. Deixemos de ingenuidade, por essas e por outras, a Amazônia está por um fio, seremos a bola da vez se não tomarmos providências.O que é pretendido, na verdade crua e nua, é a preservação ecológica da Amazônia, como forma de ´´ congelar`` a região, impedindo assim sua exploração mineral, pelo menos enquanto o Estado brasileiro for o dono. Como desde o final da década de 40 há uma desnacionalização dos veículos de comunicação no Brasil, a imprensa amestrada de hoje faz coro na defesa das teses internacionalizantes que ameaçam a nossa Soberania. Diante de qualquer esboço de que o governo brasileiro possa passar a realmente se preocupar com o desenvolvimento da Amazônia, as reações das forças internacionais e de seus comparsas daqui são violenta e prontamente acionadas. O Greenpeace, por exemplo, é o caso mais sintomático. Em novembro de 1990, entregou ao deputado estadual "verde", obviamente do PT, Carlos Minc (PT-RJ), e ao então procurador-geral da República, Gustavo Tepedino, cópias do chamado "Relatório Netuno", um exaustivo e nada científico levantamento sobre acidentes envolvendo bielonaves nucleares. A intenção era obviamente utilizar as informações tendenciosas do relatório em eventuais ações judiciais contra a presença de tais bielonaves em águas brasileiras. É a partir daí - é bom que se diga - que começou a transformação de alguns setores do Ministérios Público e de setores do Judiciário em verdadeiros instrumentos dessas organizações não-governamentais na manipulação de resultados de ações que se relacionem ao meio ambiente e ao desenvolvimento nacional, sempre em benefício de uma política que inviabilize o desenvolvimento do País (Isso, aliás, vem sendo objeto de investigação da CPI da ONGs no Senado).Mas, o que está por trás desta e de outras entidades tão "politicamente corretas", tão voltadas para a felicidade e o bem estar da humanidade? Quais são suas fontes de financiamento, quem cria suas estratégias, a quem estão ligados e quais setores estratégicos que os direcionam e por quais razões? Este internacionalismo humanista "espontâneo" foi conseqüência de idealismo de "maluquetes" hypporongas dos Anos 60, preocupados com a Paz e o Amor, ou é o resultado natural de uma estratégia geopolítica da plutocracia financeira anglo-saxônica em nos destruir? Acredito piamente na segunda hipótese. O Greenpeace e a sua complexa rede de coisas do gênero, continua sendo um dos mais eficientes e perniciosos instrumentos desse verdadeiro aríete anticivilizatório que é o movimento ambientalista. Movimento que não é, de forma alguma, um simples fenômeno sociológico espontâneo decorrente da conscientização sobre um suposto "desequilíbrio" nas relações homem-Natureza, como tentam fazer crer . Na verdade, dura e crua, ele é o produto de um sofisticado e sórdido processo de "engenharia social" desenvolvido pelos principais centros do poder político-econômico global, especialmente a oligarquia sediada no eixo Londres-NY, o autodenominado "Clube das Ilhas". Encabeçado pela família real britânica, a casa de Windsor, o clubinho envolve entidades poderosas, onde destaca-se a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o Fundo Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o Fundo Mundial para a Natureza (anteriormente, Fundo Mundial para a Vida Selvagem - WWF), a Fundação Rockefeller, o Instituto Tavistock, o Instituto Aspen, o Clube de Roma e outras coisinhas do gênero. Todas, entidades com um longo currículo nada nobre de colaboração com o Pentágono e agências de inteligência norte-americanas e inglesas (como a CIA) ao longo da Guerra Fria, contra a estabilidade de nossas instituições. Foram estas mesmas instituições internacionais que financiaram grupos golpistas e desestabilizadoras no Brasil, como o IBES/IBAD, numa verdadeira lavagem celebral de nossas elites. Doutrinação esta que culminaria nas visões mais equivocadas de "nossa" doutrina de Segurança Nacional, que foi responsável pelos desvios ideológicos que confundiram nossos militares patriotas acerca dos verdadeiros inimigos do Brasil. Esse equívoco redundou em anos de ditadura militar, que apenas serviram para denegrir a imagem de nossos militares e abrir caminho para tudo isso que vem acontecendo hoje na Era FHC. No caso específico da atual doutrinação "salva-bichinho", salva-plantinha", o objetivo último é a erradicação da idéia-força do republicanismo como diretriz de organização da sociedade humana e a destruição da sua materialização política: o Estado Nacional soberano, dedicado à promoção do interesse público, do progresso e do bem-estar geral da sociedade. A intenção é substituir o Estado nacional por uma estrutura de "governo mundial" - uma "Nova Ordem Mundial" fascista, baseada no liberalismo radical e no maulthusianismo (do qual o ambientalismo não passa de uma atualização ideológica para ingênuo boçal ver).A instrumentalização política do ambientalismo tem um tríplice finalidade. A primeira e mais importante é a disseminação do irracionalismo e do pessimismo cultural entre a população em geral, fazendo com que esta aceite sem questionamento a subordinação das políticas de promoção do bem-estar e do desenvolvimento socioeconômico a requisitos de "proteção do meio ambiente", geralmente exacerbados e sem fundamento científico. A segunda é favorecer a aceitação da tese fascista do "governo mundial", para a qual os problemas ambientais, reais ou supostos, são perfeitamente adequados, devido à percepção popular de que "o meio ambiente não tem fronteiras" e, portanto, a sua solução dependeria de uma "legislação supranacional" mais facilmente aceitável (e que abra precedentes para outras áreas políticas).A terceira é a manipulação direta de argumentos ambientais para obstaculizar projetos de desenvolvimento, particularmente, no setor de infra-estrutura, como é o caso atual dos projetos hidroviários brasileiros, virtualmente paralisados por uma solerte campanha de pressão baseadas em falsos argumentos ambientais e de "proteção" de comunidades indígenas. O ambientalismo não é um movimento de diletantes, mas uma articulação política de alcance global, voltado contra os Estados nacionais soberanos e a própria essência da Civilização. Essa nova plumagem ambientalista do imperialismo é constituída por um conjunto de famílias aristocráticas da Europa e da América do Norte, que inclui as primeiras casas financeiras da City de Londres e Wall Street, as antigas sócias da famigerada Cia. das Índias Orientais - que tantas desgraças levou a países como a China e a Índia - e as velhas famílias escravocratas do Sul dos EUA. Estas belezas com um currículo humanitário de fazer inveja ao Demo, controlam diretamente o Banco da Inglaterra, o Sistema de Reserva Federal norte-americno, as grandes empresas bancárias, financeiras e seguradoras, os conglomerados alimentícios, as megamineradoras, os oligopólios energéticos, a grande mídia internacional e, de lambuja, as indústrias estratégicas da Europa e América do Norte. Controlam, ainda, as principais organizações do sistema das Nações Unidas, como o Fundo Monetário (FMI), o Banco Mundial (BIRD), a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e, óbvio, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Todas as empresas do esquema atuam em estreita cooperação com os serviços de inteligência da Inglaterra, dos EUA e de Israel, principalmente o primeiro. Em sua cúpula, a Casa de Windsor, a casa real britânica, atua como uma espécie de primus inter pares da cúpula. O "Clube das Ílhas" criou e dirige a gigantesca máquina de propaganda e ação política representada pelo aparato das ONGs ambientalistas. As primeiras delas foram a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), fundada em 1848, e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), criado em 1961. O financiamento para este aparato, cuja organização se intensificou nas décadas de 60 e 70, provém de uma vasta infra-estrutura constituída por mais de 1.000 fundações familiares da América do Norte e da Europa, além de doações de empresas privadas e agências governamentais dos EUA, Canadá e outros países. Entre elas, destaca-se o ultra-seleto "Fundo 1001" para a Natureza (1001 Nature Trust), fundado em 1971 pelo príncipe Bernardo da Holanda, para financiar as atividades do WWF. O "Clube 1001", como é mais conhecido, reúne 1001 membros especialmente convidados, recrutados entre a nata da oligarquia internacional, cada um dos quais paga uma taxa de admissão de 10.000 dólares. A grande maioria dos militantes do ambientalismo foi recrutada entre as fileiras da "Nova Esquerda" e do movimento da contracultura das décadas de 60-70, igualmente promovidos e financiados pela oligarquia. Na época do programa "Aliança para o Progresso" do presidente norte-americano Kennedy, quando o exemplo cubado ameaçava influenciar novos movimentos nacionalistas na América Latina, foram justamente estes setores do "Clube das Ílhas" que ajudou o governo americano. Foram eles que financiaram, por exemplo, a fundação e toda a logística da famosa CEPAL, grupo de estudos formado por lideranças e intelectuais esquerdistas latino-americanos com o objetivo de encontrar fórmulas para o desenvolvimento da região. A Fundação Rockefeller foi a principal fonte de alocação de recursos. Foi justamente nesta época que o senhor FHC "escreveu" seus livretes sociológicos, financiado justamente por esta instituição. Foi naquela época, portanto, que o plano de condicionamento das esquerdas latino-americanas começou, foi naquele contexto que Fernando Henrique e Cia. foi adestrado pela plutocracia mundial. Por isso, nada do que vem fazendo este senhor me surpreende. Hoje, sabemos que muitos outros foram também cooptados, até chegarmos a situação em que chegamos. E o caminho de Lula e do PT, pelas últimas declarações e pelas relações siamesas que têm com as ONGs, não será diferente. Ele está também amestrado. Por isso, não me surpreenderá nada se ganhar a eleição deste ano. Não é por outra razão que a CUT, historicamente associada ao PT, finalmente acordou e não participou do teatro montado pelas ONGs no segundo encontro do Fórum Mundial de Porto Alegre. O controle de todo esse aparato é exercido diretamente pelo "Clube das Ílhas", por intermédio da Casa de Windsor e suas redes. Em um segundo nível, estão as organizações oficiais internacionais (PNUMA, PNUD, etc.), as fundações e corporações financiadoras do movimento. A seguir, como um anteparo entre tais círculos aristocráticos e as ONGs que formam as "tropas de choque" do movimento, encontra-se uma ampla rede de "organizações respeitáveis", dirigidas por "cidadãos acima de qualquer suspeita" (World Resources Institute, Worldwatch Institute, Environmental Defence Fund, Conservation International, etc.). Nos degraus inferiores, começam a aparecer os "aríetes" do movimento, como o Greepeace, Amigos da Terra e outras, cujo grau de radicalismo vai crescendo até se chegar às organizações prototerroristas e abertamente terroristas. Mas qual a base ideológica que subjaze a todo este movimento de poderosos nobres e plutocratas "politicamente corretos"? Além da visão malthusiana travestida de ambientalista, que não admite que outros povos atinjam graus minimamente humanos de civilização, existe alguma filosofia política por trás disso tudo? A resposta é sim! Chama-se permeation, uma estratégia política de dominação, uma atividade de propaganda totalmente peculiar, formada pelo chamado "fabianismo", movimento político-ideológico surgido justamente na Inglaterra em 1883. Formou-se por obra de intelectuais como Sidney Webb, George Bernard Shaw, Annie Besant, Edward Peace, entre outros, que fundaram uma associação privada com a finalidade de "contribuir para a reconstrução da sociedade de acordo com as mais altas possibilidades morais". A associação se inspirou na estratégia contemporizadora usada nas guerras pelo cônsul romano Fábio Máximo, daí o nome fabianismo ou Fabian Society. O movimento fabiano derivou de duas correntes de pensamento: de um lado, a tradição liberal inglesa, transmitida pelos escritos de John Stuart Mill e pelo radicalismo londrino da década de 1880, tributário em grande parte da doutrina positivista francesa; de outro lado, o internacionalismo socialista e as lutas das trade-unions (sindicatos) e do movimento cartista da Inglaterra no século passado. Muitos estudiosos sustentam, portanto, que o fabianismo é um liberalismo inglês não atingido pelo marxismo. A "unicidade" do movimento estava na especialíssima compenetração entre o socialismo não-marxista com a tradição liberal inglesa. Utilizavam uma forma toda peculiar de ação que procurava, ao máximo possível, evitar contatos com as massas populares, embora advogassem avanços sociais para os mesmos (contando que fossem ingleses). Utilizavam-se do que chamavam de permeation como estratégia política, que consistia na tentativa de influenciar as pessoas que ocupassem postos - chaves de poder na sociedade, em todos os níveis e todos os campos: exatamente políticos, professores, diplomatas, empresários e lideranças sindicais, que deveriam ser "permeados" de tal modo que pudessem se engajar em sua causas internacionalistas e sociais. Esses profissionais, assim, poderiam prestar um serviço mais válido à comunidade voltado para a melhoria das condições sociais dos trabalhadores ingleses, mas sempre tendo em vista os interesses da Grã-Bretanha. Nesta atitude elitista, golpista, de ação política baseada na intriga, nos bastidores, não tinham interesses em ocupar cargos públicos, mas apenas de controlar ou manipular os agentes dos cargos públicos. Hoje, o "Clube das Ílhas" transferiu isso para o nível planetário e o Brasil e a América Latina vêm sendo o seu grande laboratório. Os setores estereotipados do PT como "xiitas" sabem disso, por essa razão estão a cada dia mais distantes dos líderes moderados (entenda-se: adestrados) do partido. Parece, no caso brasileiro atual, que as coisas não são apenas coincidentes. É o que explica a verdadeira idéia fixa do Governo Federal em se submeter ao que vem de fora. Mas o assunto é complexo e a rede de intrigas incomensurável. Hoje, estes pseudo-esquerdistas e ecologistas de plantão, “permeados” e no comando de nosso amado País nos mais variados níveis, não governam coisa nenhuma. Na verdade, são garotos de recado destes neo-fabianos malthusianos que nos infligem políticas destrutivas que vêm destruindo nossa família, nossos recursos, nossos sonhos, nosso povo, fato que explica o constante estado de tensão social por que passamos. Vamos acordar brasileiros, a questão da preservação ambiental, preocupação tão óbvia para a nossa preservação, não pode ser usada para fins outros que não o nosso bem.
(*) Said Barbosa DiB é professor de História em BrasíliaEmail: saidib@ig.com.br

A questão de Guantánamo

Cuba é uma ilha da América Central com pouco mais de 110 mil km2, com uma população em torno de 11 milhões. Foi colônia de Espanha por quase quatrocentos anos. Em 1898, os EUA, declaram guerra a Espanha, que com um exército bastante debilitado não consegue resistir a pressão americana e abandona a ilha do caribe, que se compromete com o processo de independência cubana, que vai ocorrer somente em 1902, portanto, os americanos dominaram completamente a ilha explorando suas riquezas naturais e sua produção tropical, em especial o tabaco, açúcar.A instauração da República de Cuba – acompanhada pela emenda PLATT, de caráter imperialista, a qual permitia que os EUA, interviessem na ilha assim que ache necessário, além do controle do controle de uma área onde estava instalada a base naval da marinha americana – A Base de Guantánamo – que fica em território cubano.A Revolução Socialista em 1959 e logo depois a aproxima,ao com a URSS (disputava com os EUA a hegemonia do planeta – a chamada “guerra fria”) foram incapaz de recuperar o território de Guantánamo que continua sob domínio americano. O governo cubano reivindica o território, mas falta-lhe apoio internacional para a questão.A presença militar na base aumenta agora com os últimos acontecimentos, quando os EUA, optam pela utilização da base como prisão para os membros do Talibã e da al-Qaeda.Era o fato e o argumento que os EUA precisavam para aumentar sua presença militar na área (o número de prisioneiros não ultrapassará os 200).O século XXI, é o século dos grandes desafios. Defender a autodeterminação dos povos, o respeito étnico, cultural e religioso é questão de soberania.

(*) Carlos Pletsch é professor de Geopolítica e Geografia em Vassouras, RJ.
O Protocolo de Kyoto Está Morto?
O Meio e o HomemNelson Bacic Olic

Enchentes no Sertão nordestino (janeiro/fevereiro de 2004); grande parte da Europa com temperaturas ultrapassando as marcas de 40º C (julho/agosto de 2003); as neves do Monte Kilimanjaro, no Quênia, tema de livros e filmes, prestes a desaparecer; geleiras da Antártida encolhendo.Evidências científicas indicam que houve um aumento de 0,5º C na temperatura média do planeta desde 1975. As médias térmicas nos últimos 30 anos são as maiores do milênio. Desde 1990, já são sete os anos que figuram entre os mais quentes desde que se fazem registros térmicos sistemáticos. O aquecimento global é uma realidade e já afeta, direta e indiretamente, populações de todos os recantos do planeta.Duas correntes oferecem explicações distintas para o aquecimento global. Uma sustenta que o fenômeno é causado fundamentalmente por causas naturais ligadas às oscilações climáticas da história geológica do planeta. A outra, com número crescente de adeptos, sustenta que a causa principal do fenômeno é antropogênica.A contribuição das atividades humanas para a emissão de gases causadores do efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono, está mais que comprovada. Se as atividades primárias e os desmatamentos geram importantes quantidades de CO2, sabe-se que cerca de 60% do total das emissões de “gases de estufa” originam-se da queima de combustíveis fósseis, especialmente o petróleo e carvão. O PIB, o patamar de industrialização e a matriz energética explicam o nível das emissões dos países (veja o gráfico 1).Até quatro anos atrás, as previsões indicavam um aumento entre 1º C e 3,5º C nas temperaturas médias globais durante o século XXI. Todavia, novas pesquisas sugerem aumento bem maior: 1,4º C, na hipótese otimista, e 5,6º C, na hipótese pessimista (veja o gráfico 2). Entre as conseqüências, encontram-se inundações catastróficas em algumas áreas, secas terríveis em outras, derretimento sem precedentes das geleiras e uma elevação do nível médio dos oceanos de 0,5 a um metro (veja o gráfico 3).O aquecimento global ingressou na esfera das relações internacionais na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (ECO-92) realizada no Rio de Janeiro. Ali, foi assinada por 155 países a Convenção Sobre Mudanças Climáticas Globais, que comprometeu os signatários a registrar, no ano 2000, emissões máximas de “gases de estufa” iguais às de 1990. Entretanto, os compromissos firmados não tinham caráter compulsório.O não cumprimento dos compromissos de congelamento das emissões, especialmente por parte dos Estados Unidos, e novos registros alarmantes sobre o aquecimento global conduziram a um novo tratado sobre o clima. O Protocolo de Kyoto, firmado em 1997, fixou a meta de redução de 5% sobre os níveis de emissões de 1990, a ser alcançada entre 2008 e 2012. O compromisso de redução compulsória tem metas diferenciadas por países e não abrange os países em desenvolvimento. Além disso, o Protocolo de Kyoto criou um sistema de comércio de créditos de emissões. Os países com reduções de emissões superiores a 5% podem vender direitos de emissões como títulos financeiros para países incapazes de atingir a meta.Para que o Protocolo de Kyoto entre legalmente em vigor é preciso que seja ratificado por pelo menos 55 dos países signatários, representando um mínimo de 55% do total das emissões sujeitas a redução compulsória. Atualmente, isso parece difícil pois os Estados Unidos abandonaram o tratado e a Rússia vacila sobre a ratificação. A hiperpotência é, de longe, o maior emissor de “gases de estufa” enquanto a Rússia ocupa o terceiro lugar (veja o gráfico 4).A ONU estima que o nível das emissões globais de “gases de estufa” aumentará 10% até 2010. A estimativa indica uma reversão da tendência verificada na década de 1990, quando os países industrializados conseguiram redução de 3% em suas emissões. Contudo, a diminuição das emissões não derivou dos tratados sobre o clima mas, fundamentalmente, da violenta retração econômica experimentada pela União Soviética e pelos países do leste europeu após a desintegração do “império vermelho”.A União Européia ratificou o Protocolo de Kyoto, anuncia que reduzirá as suas emissões em 8% até 2012 e desenvolve estudos sobre novas tecnologias “redutoras”. De fato, até agora, só reduziu as emissões em 0,5%. Para complicar, há divergências internas. Grã-Bretanha e Espanha, temendo perder competitividade, solicitam novas discussões a respeito da meta de redução das emissões. Por outro lado, a Noruega, que criou taxas sobre emissões, e a Holanda, que definiu limites anuais de emissões por setores econômicos, parecem caminhar mais tranqüilamente para o cumprimento das metas.Do outro lado do Atlântico, avolumam-se as vozes que pedem uma atitude mais construtiva de Washington. Um relatório de especialistas, dirigido ao Pentágono, sinaliza as conseqüências geopolíticas das mudanças climáticas. A conservadora revista Fortune escreveu que “o clima poderá tornar-se a mãe de todas as questões relacionadas com a segurança nacional”, ameaçando a própria estabilidade do país. No Departamento de Energia, circulam esboços de um megaprojeto destinado a injetar emissões de CO2 no interior de poços de petróleo desativados, que seriam depois tampados. Os idealizadores do projeto dão de ombros para as críticas dos grupos ambientalistas e proclamam a possibilidade de estocar nesses “buracos” todas as emissões deste século.Mesmo na hipótese improvável de que os Estados Unidos adotem medidas severas contra os “gases de estufa”, as emissões globais dificilmente serão reduzidas. Isso porque a expansão econômica de gigantes demográficos com expressiva industrialização – como China, Índia, Indonésia, Brasil e México – implica aumento da demanda energética e da queima de combustíveis fósseis. Temendo pressões pelo congelamento futuro das emissões, a China e a Índia não parecem dispostas a promover a ratificação nacional do Protocolo de Kyoto.

Raízes e características das desigualdades no Brasil




Nelson Bacic Olic
19/1/2004
A história da humanidade é marcada pelo fenômeno das desigualdades. Na atualidade, as desigualdades sociais ocorrem tanto nos países ricos como nos países pobres. Nos primeiros, temos uma espécie de oceano de prosperidade com algumas ilhas de exclusão social. Já nos países pobres, temos vastos oceanos de pobreza pontilhados de pequenas ilhas de prosperidade. Especialmente nas últimas duas décadas, tanto nas sociedades mais ricas (de forma cada vez mais perceptível), quanto nas mais pobres, está se ampliando o fosso que separa os "incluídos" dos "excluídos".
A tendência à concentração de renda que leva, às desigualdades e exclusão sociais, não é fenômeno recente nem exclusivo do Brasil. Em nosso país, um dos campeões mundiais das desigualdades, a dramática situação de exclusão social da atualidade tem sua origem no processo inicial de estruturação da sociedade brasileira.
Assim, desde o período colonial e durante a época do Brasil imperial, o monopólio da terra por uma elite de latifundiários e a base escravista do trabalho, foram os fundamentos que deram origem a uma rígida estratificação de classes sociais. O fim da escravatura, da qual o Brasil foi o último país a se livrar, não aboliu o monopólio da terra, fonte de poder econômico e principal meio de produção até as primeiras décadas do século XX. O abismo social entre o enorme número de trabalhadores e a diminuta elite de grandes proprietários rurais delineou as bases da atual concentração de renda do país.
O Brasil passou por grandes transformações ao longo do século XX. Sua economia tornou-se cada vez menos agrária, a indústria passou gradativamente a ser a atividade econômica mais dinâmica, a população cresceu e rapidamente se urbanizou, a sociedade tornou-se mais complexa, mas a concentração da renda não só persistiu, como se aprofundou, pois a grande maioria da população permaneceu à margem do mercado consumidor de bens duráveis..
Todavia com a crise do modelo de substituição das importações, na década de 1980 e o seu colapso, seguido da aplicação de doutrinas neoliberais na década seguinte, não só levaram a ampliação das desigualdades sociais, como também permitiram compreender melhor que, à medida que a sociedade incorpora novas realidades, criam-se novas necessidades (o acesso à educação, ao trabalho, à renda, à moradia, à informação etc) que vão além da simples subsistência.
Essas transformações mais recentes fizeram por cristalizar dois “tipos” de exclusão social, um “antigo” e outro “recente”. O primeiro refere-se à exclusão que afeta segmentos sociais que historicamente sempre estiveram excluídos. O segundo atinge aqueles que, em algum momento da vida, já estiveram socialmente incluídos.
No Brasil as desigualdades analisadas pelo ângulo da concentração de renda indicam que o rendimento dos 10% mais ricos da população é cerca de vinte vezes maior que o rendimento médio dos 40% mais pobres. Mais ainda: o total da renda dos 50% mais pobres é inferior ao total da renda do 1% mais rico. Esses dados comprovam que o crescimento econômico brasileiro desenvolveu-se sob o signo da concentração de renda. As grandes desigualdades sociais também se manifestam nas unidades regionais do país
Mapeando a exclusão socialRecentemente, um grupo formado por cientistas sociais publicou um trabalho intitulado Atlas da exclusão social.Usando como base metodologia similar à adotada pela ONU na confecção do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), chegou-se a um outro índice denominado Índice de Exclusão Social.
Esse índice foi construído com base na combinação de três componentes: o padrão de vida digno (com indicadores de pobreza, emprego formal e desigualdade), o conhecimento (anos de estudo e alfabetização) e risco juvenil (concentração de jovens e índice de violência)..
Calculados para todos os municípios do país, esses índices foram também cartografados. Um dos mapas, o de manchas extremas de exclusão social, mostra de imediato que as áreas de extrema exclusão social concentram-se em municípios localizados nas regiões Norte e Nordeste "transbordando" para norte de Minas Gerais e nordeste de Goiás.
Nessas áreas, de maneira geral, verifica-se uma exclusão de tipo “antigo”, fato comprovado pelas dificuldades de acesso à educação, à alimentação, ao mercado de trabalho e outros mecanismos de geração de emprego e renda.
Nas regiões Sul e Sudeste, embora sejam poucos os municípios com índices extremos de exclusão social, sabe-se que suas realidades sociais internas, principalmente nos mais populosos, são de grandes desigualdades.. Esses municípios apresentam um contingente cada vez maior de pessoas que, apesar de escolarizadas, de já terem trabalhado em empregos formais e fazerem parte de famílias pouco numerosas, vivem uma situação de desemprego e de renda insuficiente.


Raposa Serra do Sol montada em jazidas de ouro e diamante

Raposa Serra do Sol montada em jazidas de ouro e diamante 1,74 milhão de hectares para quinze mil índios. Mais de 10 mil m2 para cada índio
A reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, foi homologada de forma contínua. São 1,74 milhão de hectares - incluindo áreas de fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana - para uma população de cerca de 15 mil índios das etnias Macuxi, Taurepang, Wapixana e Ingarikó. Com a decisão, em um ano a população de não-índios, entre os quais os produtores de arroz, deve deixar a área da reserva. Além disso, a entrada, trânsito e permanência de não-índios na reserva ficam proibidos, com exceção de autoridades federais ou particulares especialmente autorizados.
Ficam fora da demarcação o local onde está instalado o 6º Pelotão Especial de Fronteira, em Uiramutã, equipamentos e instalações públicas federais e estaduais, linhas de transmissão de energia elétrica e leitos das rodovias federais e estaduais.
MINÉRIOS
A área demarcada está entre uma das mais ricas do mundo em reservas minerais, com a constatação de presença de minérios nobres e estratégicos como diamante, zinco, ouro, caulim, ametista, cobre, diatomito, barita, molibdênio, titânio, calcário, nióbio, urânio e tório.
Para se ter uma idéia da dimensão da área do Estado de Roraima rica em minérios e demarcadas, somando as reservas Raposa Serra do Sol, São Marcos, com 654 mil hectares a e Yanomami com 9,4 milhões de hectares, são mais de 11 milhões de hectares de terra indígenas contínuas na fronteira do Brasil com a Venezuela e Guiana.
Diante de tanta riqueza, não é à toa que a Amazônia sempre foi alvo da cobiça estrangeira ao longo de toda a História. São inúmeras as “campanhas” pela “internacionalização” da região, sob os pretextos mais variados que vão desde “maus tratos” contra os índios à “incompetência” do Estado brasileiro para preservar a imensa floresta. Neste ano, quem se atreveu foi o candidato da União Européia à direção da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, ao defender a “internacionalização” dizendo que a região deveria ser tratada como “bem público mundial”. Tal absurdo foi prontamente rechaçado pelo governo através do Itamaraty.
BIOPIRATARIA
Relatório elaborado no ano passado pela Câmara dos Deputados alertou que a homologação da Raposa Serra do Sol “é um convite ao narcotráfico, ao contrabando, ao garimpo ilegal e à biopirataria. Ficará claro que 500 quilômetros da nossa fronteira estão desprotegidos”.
De acordo com o estudo “A Questão Minerária na Amazônia: a Coincidência das Áreas Indígenas”, elaborado pelo vice-governador de Roraima, Salomão Cruz, e pelo economista Haroldo Amoras, existe uma relação direta entre áreas demarcadas ou pretendidas com a presença abundante de minérios. Demarcações, aliás, defendidas e cobradas por ONGs estrangeiras: “Apesar de entidades desmistificarem a tese que a demarcação de terras indígenas não são efetivadas considerando os veios minerais que lhes percorrem o subsolo, suas ligações com ONGs e as ligações destas com financiadores externos, as coincidências levam a crer o contrário, basta analisar a ampliação destas e a possibilidade de existência de minérios apontadas pelo Projeto Radam no final dos anos oitenta”, diz o estudo.
ENCLAVE

O estudo mostra, como exemplo, o ocorrido na Gleba Noroeste (37) da Área Yanomami: “É visível o caminho percorrido buscando a sinuosidade apresentada pelos veios minerais, sendo notória a área pretendida Raposa/Serra do Sol e as curvas sofridas pela ampliação da Área Yanomami - Gleba Noroeste (37). Parte desta gleba estava fora da área pretendida pela Funai e após a descoberta de fosfato pela CPRM, a reserva foi ampliada, excluindo 27 propriedades rurais, a maioria detentoras de título definitivo ou posse acima de 20 anos”.
Explicitando as pressões de ONGs alienígenas pela demarcação contínua da Raposa Serra do Sol, em dezembro do ano passado a ONG norte-americana Rainforest Foundation recorreu à Organização dos Estados Americanos (OEA), junto com o auto-proclamado “Conselho Indígena de Roraima”, “denunciando” o governo federal por supostos “maus tratos” aos índios de Roraima. Conforme disse a advogada da ONG ianque, Isabela Figueroa, a dita “denúncia” foi “um sinal claro de que a comunidade internacional de direitos humanos está acompanhando atentamente o processo de demarcação”.
O senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) denunciou uma orquestração para pressionar o governo a “homologar as terras indígenas nas condições ditadas por entidades religiosas e organizações não-governamentais” que atuam na região. Segundo ele, “entre os próprios índios que habitam a área da reserva Raposa Serra do Sol não há um consenso a esse respeito; ou, para melhor esclarecimento, a grande maioria dos índios que ali vivem, tem se manifestado favorável à homologação em ilhas, preservando os municípios, as áreas produtivas, as vias de acesso e as vilas, o que equivaleria a uma redução de aproximadamente 15% da área demarcada”.
COBIÇA EXTERNA
Em 1993, o então chefe do Estado Maior das Forças Armadas, almirante Arnaldo Leite Pereira, emitiu um parecer contra a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, alertando que “a decisão em conceder áreas de dimensões exageradas, ricas em minerais e de difícil controle, ocupadas por minorias pouco expressivas da população brasileira, para estudos antropológicos de indígenas, pode levar a pressões internacionais insuportáveis, se propalada uma pretensa impossibilidade de fiscalização, controle e proteção da área”.
CIDADÃOS BRASILEIROS
O documento do EMFA destacou ainda que “a política brasileira para os índios e comunidades indígenas tem o propósito de reservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmoniosamente, à comunhão nacional (Estatuto do Índio). Depreende-se que o melhor a se fazer em prol dos índios e das comunidades indígenas é manter o contato mais próximo possível com as demais partes da comunidade brasileira”.

O governador de Roraima, Ottomar Pinto (PTB), protocolou na Justiça Federal em Boa Vista ação popular contra o decreto que homologou a reserva Raposa Serra do Sol. “Como cidadão que vive em Roraima, sinto-me no direito de recorrer à Justiça em meu nome e em nome daqueles que dependem de mim e que estão tendo seus interesses contrariados”. “Temos que utilizar os instrumentos do Estado de Direito para fazer valer os direitos do Estado. Vamos procurar usar todos os recursos constitucionais e legais disponíveis”.

FONTE REVISTA ISTO É & Jornal O Globo

LINK´S LEGAIS

O mundo em duas rodasDesde que saiu de Cordisburgo (MG), em dezembro do ano passado, Argus Caruso Saturnino abastece seu site a cada quinze dias com informações sobre os lugares por onde passa com sua bicicleta. São dados preciosos sobre a história de cada lugar, o dia-a-dia dos moradores, a arquitetura, o ambiente e o relevo – mais curiosidades. www.pedalandoeeducando.com.br
Lições do pioneiroTeste todos os recursos da internet na página de um dos pioneiros do mundo das expedições. Além de belíssimas fotos e notícias quentinhas sobre as últimas aventuras de Amyr Klink, você encontra vídeos com imagens dos lugares visitados e áudio com histórias, entrevistas, narrativas e boletins sobre as viagens. www.amyrklink.com.br
Mar, doce larUm endereço muito familiar. Apresentação de cada membro do clã Schürmann, diário de bordo escrito pela mãe, fotos, vídeos, informações sobre o barco e o percurso. O site traz dados interessantes sobre a rota do navegador português Fernão de Magalhães, que os velejadores catarinenses reproduziram de 1997 a 2000. www.schurmann.com.br

A "caixa d'água" do Brasil

Nas últimas décadas, a região Centro-Oeste do Brasil vem se transformando numa espécie de celeiro do país, especialmente com a expansão e consolidação de uma agricultura de caráter empresarial, onde as vedetes são o cultivo da soja e do algodão. Do ponto de vista natural, o Centro-Oeste se destaca pela presença de amplas áreas das chapadas tropicais recobertas extensivamente pela vegetação do cerrado e por uma região conhecida como Pantanal, com características de transição morfoclimática, identificada por uma extensa baixada, com formações vegetais heterogêneas e drenada pelo rio Paraguai. Quando se observa um mapa da rede hidrográfica do Brasil, percebe-se que no interior da região Centro-Oeste correm cursos fluviais para todas as direções. Por isso, o chamado Planalto Central é o mais importante dis¬persor de águas da rede hidrográfica brasileira. Quatro grandes bacias hidrográficas drenam áreas do Centro-Oeste de forma mais ou menos equivalente. A primeira é a Bacia Amazônica que drena a parte centro-norte de Mato Grosso onde correm vários afluentes da margem direita do rio Amazonas, como os rios Xingu, Juruena e Teles Pires, entre outros. A porção leste de Mato Grosso, o centro-norte e o oeste de Goiás são atravessados pelos rios da Bacia do Tocantins-Araguaia. Já, o centro-sul de Goiás e o centro-leste e o sul de Mato Grosso do Sul são cortados pelos rios da Bacia do Paraná. Por fim, toda a parte sul de Mato Grosso e a porção noroeste de Mato Grosso do Sul são atravessados por rios da Bacia do Paraguai. Os rios dessas bacias não cru¬zam exclusivamente as unidades fe¬derativas do Centro-Oeste, mas estendem-se por outras regiões brasileiras e também por nações vizinhas ao nosso país. Isso atribui ainda maior importância à rede hidrográfica do Centro-Oeste: vários países sul-americanos, entre os quais o Brasil, têm o maior interesse em incrementar a navegação fluvial. A importância da rede hidrográfica no Centro-Oeste remonta ao período colonial, quando o garimpo de ouro e de diamantes realizava-se em grande parte ao longo dos rios. Naquela época, os rios se constituíam num dos principais meios de locomoção daqueles que buscavam enriquecer rapidamente no interior do Brasil. Os garimpeiros, assim como os bandei¬rantes que se dirigiam ao território mato-grossense, vindos especial¬mente de São Paulo, utilizavam os cursos fluviais do chamado "caminho das monções", prolongado, em terras do Centro-Oeste, por rios como o Pardo, o Coxim, o Paraguai, o Cuiabá etc. A pecuária, outra atividade econômica que evoluiu paralelamente ao garimpo e mais tarde se sobrepôs à mineração, teve sua expansão associada à hidrografia, na medida em que os eixos de penetração do povoamento se verificavam ao longo dos vales. Os principais núcleos urbanos que se originaram na região estavam, quase sempre, junto às margens dos rios. Desde a época colonial até o século XX, os rios se constituíram nas mais eficientes vias de transporte com que contavam extensas áreas do Centro-Oeste. Diferentemente ao que ocorre em outras regiões do país, os divisores de água do Centro-Oeste nem sempre separam de forma nítida uma bacia hidrográfica de outra. Isso decorre do fato de que, na região, uma parte considerável das elevações é constituída por formas de relevo cujo "topo" é marcado por grande horizontalidade. Por conta desse aspecto morfológico, os altos vales e as nascentes de rios de diferentes bacias podem se localizar tão próximos uns dos outros, que os cursos fluviais podem se dirigir, indiferentemente, para uma ou outra bacia. Esse "embaralhamento" de rios de bacias hidrográficas diferentes é conhecido como "águas emendadas", podendo, eventualmente, facilitar obras que proponham estabelecer ligações fluviais. Por exemplo: seriam possíveis pelo menos duas ligações entre as bacias Amazônica e do Paraguai. Uma delas poria em contato o Rio Guaporé (afluente do Amazonas) com afluentes de pequeno porte do Rio Paraguai. A outra, ocasional¬mente, ocorreria na porção oriental da Chapada dos Parecis, onde existe um grande brejo, resultado da "mistura" de rios das duas bacias. Há ainda a possibilidade de ligação dos rios da Bacia Platina (São Lourenço e Itaquira) com os da Bacia do Tocantins (rios das Mortes e Araguaia). Pode-se também, além disso, viabilizar a ligação entre rios importantes de uma mesma bacia, aproveitando-se da proximidade entre altos cursos de afluentes. É o caso de uma possível ligação entre o Paraná e o Paraguai, ambos da Bacia Platina, através do Rio Pardo (afluente do Pa¬raná) e o Coxim (afluente do Para¬guai). Em função de suas características morfológicas e hidrográficas, a região Centro-Oeste funciona como uma espécie de "caixa d'água" do país, na medida em que dispersa águas em todas as direções. Essa condição geográfica é um fator de grande relevância para uma maior e mais produtiva integração nacional e continental.

AQÜÍFERO GUARANI
•O NOME:Homenagem à população indígena que dominava a Bacia Platina na época do descobrimento da América.
• O VOLUME DE ÁGUA ARMAZENADA:Calcula-se que a reserva contenha 50 quatrilhões de litros de água. É mais do que a água que corre em todos os rios do planeta em um ano, ou seja, 43 quatrilhões de litros. Poderia abastecer a atual população brasileira por 2 mil anos. (Alguns cientistas afirmam que poderá chegar a 3 mil anos).
• A VAZÃO:Chega a 800 metros cúbicos por hora (ou 800 mil litros) em profundidades de mil a 1,2 mil metros. Nas bordas é de cerca 3 litros/hora.
• A PROFUNDIDADE:A água do manancial está situada a uma profundidade que oscila de 50 metros a 1,5 mil metros. 10% da área total está rente a superfície.
• A TEMPERATURA DA ÁGUA:A cada cem metros de profundidade, a temperatura da água aumenta 3ºC. Nos pontos mais profundos, pode chegar a 60ºC. A água tem uma temperatura média de 25ºC a 30ºC .
• A ESPONJA:A água está embebida em um manto de arenito poroso. Trata-se de água da chuva que escorreu lentamente para o subsolo durante 100 milhões de anos, depurando-se.

• O eixo do Rio Paraná é uma referência geográfica. Próximo ao rio, o aqüífero está em grandes profundidades, a mais de mil metros.
• A água do Guarani é suficiente para abastecer a população do mundo inteiro por uma década.(no mínimo)
• Nas margens do aqüífero Guarani, a erosão expõe afloramentos.
• Além do Guarani, um reservatório bem menor, o Bauru, se formou sob o solo da região de São Paulo.
Publicado no Caderno Especial "Eureka" de Zero Hora em 19/03/2001 (com adaptações)

Análise: A batalha de Gaza

SAMUEL FELDBERG
especial para a Folha Online

Revi estes dias o antológico "A Batalha de Argel"* (Argélia/Itália, 1965) e não pude deixar de associar as clássicas cenas produzidas há 40 anos, às imagens dos noticiários sobre os territórios ocupados por Israel na Cisjordânia e na faixa de Gaza.

Podemos identificar procedimentos que parecem quase que transplantados de um cenário a outro: as imagens dos "checkpoints" [postos de checagem], em que os argelinos são revistados e os franceses caucasianos saudados pelos soldados, a utilização de mulheres e crianças como elementos de dispersão do potencial de ameaça.

Lembro-me muito bem do choque com que reagiu a sociedade israelense [e seus serviços de segurança] quando se explodiu a primeira mulher-bomba, alterando radicalmente o tratamento às mulheres palestinas nos postos de controle.

Assim, o filme nos mostra também uma prévia do que viriam a ser os atentados suicidas dos últimos anos. Ainda que por duas décadas os terroristas palestinos tenham se preservado, seqüestrando aviões e tentando escapar com vida de suas audazes ações, já em "A batalha de Argel" temos cenas em que a bomba entregue aos soldados mata também os militantes da Frente de Libertação Nacional (FLN), e a ambulância, utilizada para metralhar e depois atropelar o máximo possível de civis, lança-se finalmente contra um muro provavelmente matando seus dois ocupantes.

As cenas dos árabes-argelinos sendo questionados a respeito de sua ida à praia não podem deixar de ser associadas ao júbilo dos palestinos comemorando o acesso às praias de Gaza, a eles vedadas por quase 40 anos. E as bombas explodindo nos cafés e bares apinhados de franceses em nada diferem dos atentados cometidos contra estabelecimentos similares em Tel Aviv, Jerusalém ou Netanya.

Mas o que mas impressiona talvez seja a lição que fica da seqüência de cenas de horror.

A tortura continua sendo instrumento amplamente utilizado, baseada na alegação de que está sendo travada uma guerra sem trégua entre as partes.
A insurreição da FLN foi derrotada, assim como a Intifada [revolta palestina contra a ocupação israelense], pelo eficiente trabalho da inteligência militar e de uma eliminação da liderança rebelde através de "assassinatos seletivos".

A pergunta do tenente-coronel Mathieu, se os franceses querem continuar na Argélia, é a que determina o desfecho deste drama: no momento em que a percepção de viabilidade mudou, encerrou-se também a campanha militar.

Assim, os israelenses retiraram-se de Gaza quando a liderança civil concluiu que a continuação da ocupação tornava-se insustentável e, provavelmente, tomará a mesma atitude nas áreas da Cisjordânia em que não puder ser criada contigüidade consistente com o território dentro da chamada Linha Verde [a fronteira entre a Cisjordânia e Israel].

E, mais que como resultado de atos terroristas e uma revolta armada, a insatisfação e frustração de milhões de palestinos certamente levará os israelenses a optarem por uma dissociação, clara e definitiva para que os dois povos possam finalmente viver lado a lado, em harmonia ainda que não em paz.

* O filme de 1966 conta, do ponto de vista dos argelinos, vencedores da Guerra de Independência contra a França colonial, como se desenvolveu a luta da FLN contra o as forças de ocupação até sua vitória em 1962.


Samuel Feldberg é doutor em Ciência Política pela USP (Universidade de São Paulo), membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional (Gacint) da USP e professor das Faculdades Integradas Rio Branco.
A questão dos refugiados palestinos

Nelson Bacic Olic

30/11/2001 As recentes declarações dos governos norte-americano e de países europeus favoráveis à criação de um Estado palestino, colocaram novamente em evidência esta questão que se arrasta sem solução há mais de cinqüenta anos e que tinha sido, até certo ponto, obscurecida pela seqüência de acontecimentos decorrentes do atentado de 11 de setembro. Atualmente podem ser listados cinco problemas principais como aqueles que se caracterizam como obstáculos para que se encontre uma solução, pelo menos satisfatória, para a chamada Questão Palestina: a definição das fronteiras do futuro Estado palestino, o estatus político da cidade de Jerusalém, o desmantelamento das colônias e assentamentos judaicos nos territórios ocupados da Cisjordânia e Faixa de Gaza, a soberania sobre os recursos hídricos da Cisjordânia e a questão dos refugiados palestinos. Neste artigo, será dado destaque a esta última questão.Estima-se que existam atualmente cerca de 3,8 milhões de refugiados palestinos vivendo em países árabes próximos. Esses refugiados foram expulsos ou tiveram que fugir de suas casas por conta dos conflitos que aconteceram a região especialmente em 1948 e 1967.Ao findar a Segunda Guerra Mundial, a Palestina, região histórico-geográfica de 27.000 km2 (pouco menor que o estado de Alagoas), localizada no Mediterrâneo Oriental, era um território administrado pela Grã Bretanha. Em 1947, o governo britânico sentindo-se incapaz de preservar sua dominação sobre a área, anunciou que se retiraria da região em maio de 1948. Ao mesmo tempo deixava para a ONU (Organização das Nações Unidas) a função de definir o futuro da Palestina.Naquela época, a população total da Palestina era estimada em cerca de 2 milhões de habitantes, sendo que as pessoas origem judaica correspondiam quase a 600.000 pessoas, isto é, aproximadamente 30% do efetivo demográfico. O restante da população era composta, em sua imensa maioria, por indivíduos de origem árabe.A comissão da ONU incumbida de estudar a situação gerada pela retirada britânica, propôs, sem qualquer consulta à população ali residente, um plano de partilha da Palestina em um Estado judeu e outro árabe; a cidade de Jerusalém, dada sua importância religiosa, teria uma administração internacional. Em seguida, a Assembléia Geral da ONU, reunida em novembro de 1947, aprovava a proposta da comissão.Antes dessa aprovação, tanto os árabes da Palestina quanto os dos países vizinhos já tinham advertido que, caso o plano de partilha fosse aceito, eles iriam à guerra, fato que realmente acabou ocorrendo. O conflito que se estenderia do início de 1948 ao primeiro semestre do ano seguinte, terminou com a vitória das forças do recém-criado Estado judeu, Israel, sobre seus inimigos árabes. O resultado desse conflito não só inviabilizou a criação de um Estado árabe na Palestina como fez surgir o drama dos refugiados árabes da região, que desde então passaram a ser denominados palestinos.Quando o conflito se iniciou, viviam na Palestina cerca de 1,4 milhão de palestinos. Ao término da guerra, em 1949, pouco mais da metade desse número havia deixado suas casas. Expulsos de suas terras, segundo os árabes e instigados pelos seus líderes, segundo as autoridades israelenses, essa fuga maciça de pessoas é até hoje motivo de acaloradas controvérsias.Essa diáspora palestina resultante do conflito, acabou se estabelecendo na Cisjordânia (que ao final da guerra havia passado ao controle da Jordânia), na Faixa de Gaza (sob o controle egípcio) e em países árabes vizinhos (Síria, Líbano e Iraque principalmente). Quando término do conflito, havia alguma esperança de que esses refugiados pudessem retornar aos seus lares, mas o governo israelense sistematicamente recusou em aceita-los. Quando essa esperança foi perdida, a Assembléia Geral da ONU criou um Organismo de Ajuda e de Trabalho das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos, cuja sigla em inglês é UNRWA.De acordo com esse organismo, foi classificado como “refugiado da Palestina” todo o indivíduo que, “no momento do conflito de 1948, residia na Palestina pelo menos há dois anos e que, em conseqüência da guerra, perdeu sua casa e meios de subsistência”. Essa categoria foi estendida também aos filhos e netos dos refugiados.Em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, aconteceu um outro grande êxodo de palestinos. Neste conflito Israel conquistou, entre outros territórios, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Essas conquistas israelenses levaram a uma fuga de quase 400.000 palestinos, especialmente da Cisjordânia para a Jordânia. O resultado dessas duas expulsões foi a criação de cerca de 60 campos de refugiados espalhados pela Jordânia, Cisjordânia, Líbano, Faixa de Gaza e Síria, onde vive atualmente, cerca de 40% da população palestina no Oriente Médio. Os campos no Líbano têm apenas refugiados de 1948. Já aqueles situados na Síria, Gaza, Cisjordânia e Jordânia, abrigam refugiados das fugas de 1948 e de 1967.Do ponto de vista legal, a situação dos refugiados nos países árabes é diversa. Dois diferentes grupos de países árabes acolheram a diáspora palestina. No primeiro círculo de países estão a Jordânia, o Egito, a Síria e o Líbano e, no segundo, países árabes localizados um pouco mais distantes da Palestina como o Iêmen, o Sudão, a Argélia, a Tunísia, a Líbia e o Iraque.Do primeiro grupo de países, a Jordânia foi aquele que acolheu o maior número de palestinos. Num primeiro momento, o governo jordaniano os considerou como estrangeiros passíveis de assimilação. Muitos palestinos se naturalizaram jordanianos. Todavia, no final dos anos 1960, organizações palestinas tornaram-se uma espécie de poder paralelo ao governo do país, fato que acabou resultando num sangrento confronto em 1970, fato que passou para a história com o nome de Setembro Negro. Por conta desse conflito, milhares de palestinos tiveram que buscar refúgio em países vizinhos, especialmente no Líbano, de onde seriam novamente expulsos quando da invasão israelense em 1982.O Líbano, outro país que recebeu um grande número de refugiados, os palestinos foram dotados de “documentos de viagem”, e nunca foram considerados como moradores permanentes. Neste país os palestinos participaram direta e indiretamente, da longa e sangrenta guerra civil (1975/1990) e suas organizações foram inúmeras vezes atacadas por Israel e seus aliados no Líbano.A questão do retorno dos refugiados só foi discutida seriamente pela última vez ao longo dos primeiros meses do ano passado, quando Ehrud Barak ainda era primeiro-ministro de Israel. Naquela ocasião, Israel aparentemente estaria disposto a receber um número muito reduzido de refugiados e dar a eles uma pequena indenização.Em dezembro de 1948, a Assembléia Geral da ONU, em sua resolução 194, estipulava que: “... aos refugiados que desejarem devem ser permitidos de retornar aos seus lares o mais rápido possível e de viverem em paz com os seus vizinhos, e devem ser pagas indenizações a título de compensação pelos bens daqueles que decidirem não regressar aos seus lares e por todo o bem perdido ou danificado, uma vez que, em virtude dos princípios do Direito Internacional, tal perda ou dano devem ser reparados pelos governos ou autoridades responsáveis”.Dentro da ótica israelense, não aceitar a volta de parcela significativa dos mais de 3,5 milhões de refugiados palestinos envolve dois problemas cruciais: um, de ordem econômica, refere-se aos custos das eventuais indenizações. O outro, é de caráter demográfico: supondo-se que a uma parcela significativa de refugiados fosse dado o direito de retorno, em pouco tempo, as pessoas de origem judaica na Palestina seriam suplantadas em número pelas de origem palestina.

Evolução das Fronteiras de Israel


1. O plano de partilha da ONU (1947)
Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprova plano para partilha da Palestina, ou seja, a criação de Israel e de um Estado palestino

2. 1949, depois da fundação
Israel vence guerra com países árabes que não aceitaram a criação do país e expande fronteiras. Divisão de Jerusalém entre Israel e Jordânia

3. 1967, após a Guerra dos Seis Dias
Israel conquista o deserto do Sinai, a faixa de Gaza (Egito), a Cisjordânia, Jerusalém Oriental (Jordânia) e as colinas do Golã (Síria)

4. Atualmente
Após acordos de paz como o de Oslo (93) e de Wye Plantation (98), os palestinos controlam hoje dois terços da faixa de Gaza e 40% da Cisjordânia



Os conflitos

Em 14 de maio de 1948, uma resolução da ONU dividiu o território da Palestina entre árabes e judeus, criando o Estado de Israel.

Todos os regimes árabes da época rejeitaram a criação de Israel, e prometaram destruir o novo Estado judeu. Era o começo do conflito, que já dura mais de 50 anos.

Após vários anos de guerra, em 1967, Israel invadiu e tomou a Margem Ocidental (controlado pela Jordânia), incluindo a cidade de Jerusalém, as colinas de Golã (que pertenciam à Síria), e a faixa de Gaza (Egito).

A bem-sucedida invasão, que durou apenas seis dias, criou uma enorme quantidade de refugiados palestinos, que viviam nas áreas invadidas.

A partir da década de 70 começaram a surgir importantes grupos terroristas, como o Hamas e o Hizbollah, que, segundo Israel, têm o financiamento e a colaboração de países como Líbano, Irã e Síria.

Com a finalidade de se proteger de ataques terroristas contra o norte de seu território, Israel invadiu o Líbano, para onde os grupos terroristas fugiram depois de terem sido expulsos pela Jordânia.

Em 1993, o então primeiro-ministro israelense Yitzak Rabin (assassinado em 1995 por um extremista judeu) e o líder palestino, Iasser Arafat, fecharam o primeiro acordo que daria o controle da Margem Ocidental e da faixa de Gaza aos palestinos. Conhecido como o Acordo de Oslo, é a base para o processo de paz discutido entre Israel e a Autoridade Palestina.

O processo de paz

Jerusalém
Israel conquistou Jerusalém Oriental e a Cisjordânia na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Tradicionalmente afirma que Jerusalém é sua capital eterna e indivisível. Os palestinos reivindicam a parte oriental da cidade como capital de seu futuro Estado

Os assentamentos
Mais de 170 mil judeus vivem em assentamentos nos territórios ocupados por Israel na Cisjordânia e na faixa de Gaza. Os palestinos afirmam que os assentados devem deixar os territórios



Água
Israel reivindica controle total dos recursos hídricos, incluindo os lençóis subterrâneos na Cisjordânia, cuja administração é reivindicada pelos palestinos

Refugiados palestinos
Há mais de 3,5 milhões de refugiados palestinos em países da região. Israel rechaça a idéia de permitir a volta de todos eles a seu território. Discute-se a autorização do retorno de pequena parte deles, em casos de reunificação familiar, e o pagamento de indenização aos outros refugiados

Fronteiras e segurança
A Autoridade Nacional Palestina quer uma Palestina independente, com poderes soberanos na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental e faixa de Gaza. Diz que as fronteiras em relação a Israel devem voltar ao que eram antes de junho de 67. Israel diz que não voltará às fronteiras de 67

Egito
Foi o primeiro país da região a desafiar o boicote do mundo árabe e assinar, em 1978, um acordo de paz com Israel. Em troca da normalização de relações, recebeu de volta a península do Sinai e passou a ser aliado estratégico dos EUA. Atualmente, mantém uma "paz fria" com Israel: a cooperação econômica e cultural entre os dois países é bastante limitada

Líbano
Mantém, em seu território, um dos grupos terroristas mais atuantes contra Israel, o Hizbollah

Síria
Os dois países, que já se enfrentaram em três guerras têm disputa territorial nas colinas do Golã, ponto chave no diálogo de paz

Arábia Saudita
Critica o governo israelense pela "ocupação de terras árabes". O país, que é forte aliado dos EUA, poderia assinar acordo com Israel após a resolução das negociações com os palestinos e a Síria

Turquia
Aliada estratégia dos EUA e de Israel no Oriente Médio (os três países fizeram recentemente manobras militares conjuntas). Mantém relações diplomáticas e comerciais com Jerusalém e é um dos principais destinos turísticos entre os israelenses

Iraque
É, ao lado do Irã, um dos piores inimigos históricos de Israel. Durante a Guerra do Golfo (1991), o ditador Saddam Hussein lançou mísseis contra território israelense. Enquanto permanecer no poder, as chances de um acordo de paz são pequenas

Irã
É um dos maiores inimigos de Israel. Teerã financia os principais grupos terroristas que combatem Israel (Hamas e Hizbollah). O clero conservador iraniano adota discurso anti-sionista e anti-EUA para justificar uma ameaça externa e se manter no poder

Jordânia
Em 1994, o rei Hussein firmou um tratado de paz com Israel, o que possibilitou o fim da tensão e a abertura de pontos de passagem na mais extensa fronteira israelense. Seu filho, rei Abdallah, assumiu após sua morte, no início do ano, e mostra estar comprometido com a paz

Autoridade Nacional Palestina
Desde 1993, com os Acordos de Oslo, os palestinos vêm recebendo autonomia de governo nos territórios da faixa de Gaza e da Cisjordânia

Duas espécies podem virar uma só no RS

REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S.Paulo

Quem fizer um passeio atento pelas dunas do litoral gaúcho, de preferência com os olhos voltados para o chão, pode ter a chance de dar uma espiada no drama da evolução em tempo real. Os atores não têm muita presença de palco, mas até que são carismáticos: três espécies de roedores, duas das quais aparentemente estão se fundindo bem nas barbas dos pesquisadores.

Os bichos, conhecidos popularmente como tuco-tucos, estão mais para versões tupiniquins das marmotas, vivendo em galerias subterrâneas que eles mesmos cavam e comendo raízes e folhas de gramíneas. O biólogo Thales Renato de Freitas, do Departamento de Genética da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), estuda as populações de tuco-tucos desde o começo dos anos 1990 e descobriu que essa estranha promiscuidade entre espécies pode, na verdade, levar a uma extinção no futuro. Aparentemente, por culpa do homem.

Segundo Freitas, foi a ação humana que derrubou as barreiras que existiam entre os roedores, permitindo que eles voltassem a procriar entre si depois de ficarem separados por muitas gerações. Acredita-se que esse tipo de isolamento seja um dos motores do surgimento de espécies.

A primeira indicação de que havia algo esquisito acontecendo entre as populações do gênero Ctenomys, ao qual pertencem os três tuco-tucos do litoral sulino (C. flamarioni, C. lami e C. minutus), veio quando o biólogo da UFRGS se pôs a contar o número de cromossomos dos bichos.

Mamíferos como tuco-tucos e seres humanos costumam ter um número definido de pares dessas estruturas enoveladas (são pares porque um vem do pai e o outro, da mãe), e os cromossomos encerram o DNA, com toda a informação genética da espécie. Mas, quando o pesquisador fez a conta para o C. minutus, topou com algo incomum: o número variava.

"Tínhamos tanto 48 quanto 46 cromossomos, e também o número intermediário, 47", conta ele. Aparentemente, o que acontece é que duas populações do bicho estavam começando o processo de isolamento que costuma gerar uma nova espécie, desenvolvendo números diferentes de cromossomos. "Mas elas estão em cima de uma região muito dinâmica, perto da lagoa dos Patos, onde havia várias barras em direção ao mar que não existem mais", diz Freitas.

Segundo ele, o processo de mudança geográfica que criou essa zona de hibridação, como é chamada, foi natural.

Arroz da discórdia

O mesmo não acontece, porém, com o outro caso estudado pelo biólogo da UFRGS e seus colegas. Em condições normais, os tuco-tucos do litoral Sul ocupam territórios bem-definidos. O C. flamarioni é literalmente um rato de praia, ocupando as dunas de frente para o mar; o C. minutus domina os campos arenosos logo atrás; e o C. lami também se estabelece nesses campos, só que mais para o interior. Tudo muito organizado, se não aparecessem vários arrozais no meio do caminho.

Explica-se: antes, a região era entremeada por rios e banhados que separavam as populações. "Você pega mapas do Exército dos anos 1950 e o banhado está lá. Nos anos 1970, ele já não existe mais", conta Freitas. Isso porque a água foi desviada para as plantações de arroz que surgiram nas redondezas, afirma o biólogo.

Na lama

Nessa brincadeira, quem se deu mal foi o C. lami, o tuco-tuco de distribuição mais restrita e, ironicamente, o que parece ser o "pai" da espécie C. minutus, segundo indica a diversidade genética do bicho. A falta de barreiras fez com que o C. minutus cruzasse com ele, produzindo híbridos que são férteis, pelo menos até a terceira geração. A espécie "pura" tem 56 cromossomos, enquanto os "mestiços" possuem 51. E há mais um motivo para preocupação: o C. minutus parece ter muita facilidade para ocupar os ambientes do outro tuco-tuco.

"Isso é ruim. O processo de especiação [formação de novas espécies], que pelo visto ainda estava ocorrendo, pode ser interrompido", avalia Freitas. Uma das maneiras de reverter o processo seria recriar barreiras entre os animais. Os pesquisadores pretendem continuar monitorando a diversidade genética dos roedores em detalhe para ver como a situação se desenrola.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Recursos hídricos das regiões brasileiras: aspectos, usos e conflitos


A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu 2003 como o ano internacional das águas. Nada mais justo já que especialistas apontam a escassez deste precioso líquido como um dos principais problemas ambientais a serem enfrentados pela humanidade no século que se inicia.
Como se sabe, os recursos hídricos assim como os demais recursos naturais, a população e as riquezas são distribuídos de forma desigual sobre a superfície de nosso planeta. Apenas 9 entre os quase 200 países que compõem a comunidade internacional concentram cerca de 60% dos recursos hídricos do mundo. Embora não haja um consenso sobre o assunto, estima-se que nosso país detenha algo entre 12% e 15% dos recursos hídricos totais do mundo. Essa aparente abundância induziu a uma cultura do desperdício a ponto de, na atualidade, se colocarem pelo menos dois problemas quanto ao uso dos recursos hídricos. Um deles é o da escassez em certas áreas e, o outro, se manifesta através dos conflitos entre setores usuários dos recursos hídricos que são o agrícola, o industrial e o residencial. A irregular distribuição dos recursos hídricos no território brasileiro só passou a ser uma das causas de conflitos entre os setores usuários a partir da década de 1970, quando as conseqüências do modelo de desenvolvimento adotado se fizeram sentir na alteração da quantidade e qualidade de alguns cursos d'água do país, colocando restrições ou até mesmo inviabilizando seus vários usos. A partir de então, os embates não só foram surgindo como se agravaram tanto no tempo como no espaço, à medida que a oferta de água diminuía e a procura passou aumentar de forma expressiva, para fazer frente às novas necessidades de abastecimento de uma população crescente, especialmente nas áreas urbanas e de setores produtivos que foram ampliando e diversificando suas atividades.
Na Região Nordeste, por exemplo, a degradação ambiental teve início já na época colonial com a derrubada indiscriminada da vegetação florestal nativa para a retirada do pau-brasil. Posteriormente, o processo se intensificou sendo que, em lugar da vegetação florestal derrubada, foram desenvolvidos os cultivos de cana-de-açúcar e cacau dentre outros, e com a utilização de madeira como combustível para os engenhos.
Mais tarde, já na década de 1960, quando o governo federal criou a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, hoje, Agência do Desenvolvimento do Nordeste) foram concedidos incentivos fiscais para a expansão da fronteira agrícola e a implantação e consolidação do processo de industrialização. Se por um lado essas ações viabilizaram a instalação de novas atividades produtivas, por outro, agravaram os problemas de escassez de água devido ao aumento significativo do consumo desse recurso para atender a essas novas atividades e uma população absoluta crescente. Como conseqüência, os parcos recursos hídricos da região, apenas 3,3% do total nacional, estão sofrendo alteração na sua qualidade pelo excessivo lançamento de dejetos nos rios, cuja capacidade de autodepuração foi reduzida dramaticamente. Além disso, deve-se lembrar que o Nordeste é a segunda mais populosa região concentrando cerca de 28% dos brasileiros.
Nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, os conflitos entre os setores usuários da água se delinearam nos últimos trinta anos, quando os efeitos negativos da mecanização agrícola, da urbanização e da industrialização fizeram-se sentir na qualidade e quantidade dos recursos hídricos.
Na Região Sul (6,5% dos recursos hídricos e 15% da população), o desmatamento de amplas áreas para o plantio de produtos para os mercados interno e externo, deixou o solo desprotegido e sujeito à ação do intemperismo, acelerando os processos de lixiviação e erosão. Quantidades significativas de sedimentos continuam sendo carreadas anualmente para os rios diminuindo seu volume. Com isso, ficam prejudicados o abastecimento urbano e industrial, a geração de energia elétrica e a navegação; e ainda, amplificados os efeitos das inundações nos centros urbanos. Ademais, o uso intensivo de produtos químicos na agricultura, como fertilizantes e agrotóxicos, polui o solo, as águas superficiais e os lençóis freáticos.A Região Sudeste (42,6% do efetivo populacional e 6% dos recursos hídricos nacionais), até as primeiras décadas do século XX, possuía como principais atividades econômicas: a agropecuária (cana-de-açúcar, café e pecuária extensiva) e a extração de minerais, voltadas para o mercado interno e externo. A partir de então, rapidamente se industrializou e urbanizou, chegando algumas décadas mais tarde, constituir um expressivo parque industrial e gerando regiões metropolitanas como as de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
O resultado desse rápido processo de crescimento urbano-industrial fez-se sentir na década de 1970, quando a população, especialmente dos grandes centros urbanos, passou a conviver com índices cada vez maiores de poluição do ar, da água, do solo etc. No final da última década do século XX, podia-se constatar os sérios problemas de degradação do meio ambiente, em particular, a deterioração da qualidade das águas de algumas bacias hidrográficas. Atualmente, em algumas áreas da região, a população sofre problemas de racionamento de água, especialmente no período de estiagens sazonais.Na região Centro-Oeste, segunda maior detentora de água do país (15,7%) e a menos populosa (6,5% do efetivo total), os conflitos entre os setores usuários dos recursos hídricos são mais recentes, mas tendem a se agravar rapidamente com a urbanização acelerada e o desmatamento progressivo de grandes áreas para o plantio.
Até o início da década de 1960, quando a capital do país mudou para Brasília, não se registravam conflitos pelo uso da água. Com a implantação pelo governo federal de programas especiais e a extensão da política de colonização da região Amazônica para o Centro-Oeste, esta situação começou a mudar. Grandes extensões de terras foram desmatadas para a formação de pastagens, plantio de culturas alimentares, especialmente soja e algodão e produção de carvão vegetal.A destruição da vegetação original da região, tanto das matas ciliares como dos cerrados, continua acontecer em ritmo acelerado, atingindo as encostas de morros, margens e nascentes de rios, que são áreas de preservação ambiental. A produção de grãos para exportação que utiliza água em larga escala para irrigação, adubos químicos e agrotóxicos para a correção do solo do cerrado, está causando sérios danos ambientais ao solo e aos recursos hídricos, tanto superficiais como subterrâneos. A água, até então farta, em alguns locais começa a apresentar sinais de escassez e comprometimento de qualidade. Enquanto os conflitos entre usuários dos recursos hídricos, em quase todas as regiões do Brasil, estão relacionados com a escassez quantitativa e qualitativa desse recurso, na Região Norte, que detém cerca de 70% dos recursos hídricos do país e 7% da população, esses conflitos estão relacionados fundamentalmente com a poluição das águas. Este é um problema que atinge as comunidades ribeirinhas que ainda utilizam a água dos rios "in natura".A poluição das águas no norte do país deve-se especialmente aos garimpos, que removem expressivas quantidades de sedimentos dos leitos dos cursos fluviais. Especialmente a partir da década de 1960, quando começa a efetiva ocupação da região, vastas áreas passaram a ser desmatadas para exploração da madeira, plantio de pastagens e produção agrícola. Além do mais, expressivas porções do território regional foram inundadas com a construção de hidrelétricas pelo governo federal, como atestam os casos das usinas de Tucuruí e de Balbina. Essa caótica forma de apropriação dos recursos ambientais regionais vem causando danos significativos ao ecossistema aquático da Amazônia.
Em resumo, o aparecimento dos conflitos pelo uso dos recursos hídricos nas diferentes unidades regionais do país apresenta como causas básicas não só a escassez quantitativa de água, mas principalmente a deterioração da sua qualidade. Esta última foi conseqüência não só das formas de apropriação dos recursos hídricos quanto a de outros recursos ambientais que afetam direta ou indiretamente as águas.

Origens e propagação da Guerra Fria

A Guerra Fria significou um período especial na história da humanidade. Embora não tenha ocorrido um confronto bélico entre os dois blocos, o clima de animosidade entre os Estados Unidos e a União Soviética era cada vez mais agravado pela propaganda e espionagem. O domínio de armas atômicas pelos soviéticos representava os riscos de um conflito direto.

Origens e propagação da Guerra Fria

Ao findar a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) a Europa, até então centro da civilização mundial e sede do capitalismo, entrou em declínio. Já durante o conflito, as potências européias tradicionais, como a França e a Inglaterra, foram incapazes de derrotar sozinhas as potências do Eixo: Alemanha, Itália e Japão. De fato, a libertação da Europa deveu-se quase exclusivamente à participação de dois países: União Soviética e Estados Unidos. Terminada a guerra, a situação mostrou-se ainda mais grave, pois a Europa não tinha condições de empreender sua reconstrução.

Ao declínio da Europa correspondeu, paralelamente, a ascensão dos Estados Unidos e da União Soviética. Porém, no dia seguinte à guerra, os aliados da véspera estavam em campos divididos. Dois sistemas repartiam claramente o mundo: o capitalismo e o socialismo. O confronto ideológico entre eles passou a ser conhecido como guerra fria. Sua origem situa-se no fato de a Europa continental ter sido libertada pelo Exército Vermelho soviético, que ocupava dez capitais européias, de Viena a Berlim, passando por Budapeste, Varsóvia, Praga e Bucareste. Enquanto a presença soviética era sentida maciçamente, os Estados Unidos, logo após o conflito, começaram a retirar suas tropas. A desmobilização norte-americana, todavia, alarmou a Europa, que, diante do avanço soviético, se via completamente incapaz de se defender. Esse desequilíbrio fez com que os Estados Unidos suspendessem imediatamente a desmobilização, a fim de evitar a hegemonia soviética na Europa.

Fonte: Koshiba, Luiz e Pereira, Denise Frayze Pereira. História do Brasil. São Paulo: Atual, 1996, pág. 300.

Doutrina Truman e Plano Marshall

Ao final da II Guerra Mundial os países europeus entraram em declínio, coincidindo com a ascensão dos Estados Unidos e da União Soviética. Winston Churchill, estadista britânico, foi o primeiro a perceber o perigo da ameaça comunista, iniciando fortes pressões para que o Ocidente encontrasse uma estratégia para deter o avanço soviético. Em resposta a atitude britânica, o presidente norte-americano, Henry Truman, pronunciou em 12 de março de 1947, diante do Congresso Nacional, um violento discurso assumindo o compromisso de defender o mundo capitalista contra a ameaça comunista. Estava lançada a Doutrina Truman e iniciada a Guerra Fria que propagou para o mundo o forte antagonismo entre os blocos capitalista e comunista. Em seguida, o secretário de estado George Catlett Marshall anunciou a disposição dos Estados Unidos de efetiva colaboração financeira para a recuperação da economia dos países europeus.

Fragmento de O mundo contemporâneo

Fonte: Magnoli, Demétrio. O mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Ática, 1994, págs. 55-56.