quinta-feira, junho 18, 2009

Fwd: O jornalismo e a comunicação em Cuba



O jornalismo e a comunicação em Cuba

por Michelle Amaral da Silva última modificação 15/06/2009 16:42
Colaboradores: Elaine Tavares

"A imprensa é o cão guardador da casa pátria", adverte Martí, e os jornalistas cubanos seguem à risca o conselho do grande colega




15/06/2009

Elaine Tavares



Dezembro de 1956. A pequena ilha de Cuba fervilhava diante da possibilidade de uma mudança radical. A ditadura de Fulgêncio Batista recrudescia, como é comum aos regimes que estão morrendo. No começo do mês, um pequeno grupo de homens iniciou uma caminhada que só teria fim com o triunfo da revolução. Apesar da chegada trágica, com o barco encalhando e muitas vidas se perdendo, 22 dos 82 que vieram do México conseguiram montar um foco guerrilheiro ao pé da Sierra Maestra. Junto com eles estava o argentino Che Guevara que, em muito pouco tempo na selva, tratou de inventar um jeito de divulgar notícias que fizessem o contraponto à mídia cortesã. Ele sabia que perdendo a guerra informativa, perdia tudo. Assim, no meio da floresta criou a primeira célula da imprensa rebelde com um velho mimeógrafo no qual imprimia manifestos e até um jornal.



Logo o argentino conheceu o sistema cubano responsável pela transmissão de informações do MR-26, movimento do qual saíra Fidel: a rádio bemba, espécie de boca-a-boca, eficiente e eficaz, que percorria toda a região rural da ilha. Então teve a idéia de criar, desde a sierra insurgente, uma rádio de verdade, a Rádio Rebelde. Era o mês de fevereiro de 1958 quando quatro combatentes, sob o comando de Che, colocaram no ar a primeira transmissão. "... Aquí, Radio Rebelde, la voz de la Sierra Maestra, transmitiendo para toda Cuba en la banda de 20 metros diariamente a las 5 de la tarde y 9 de la noche, desde nuestro campamento rebelde en las lomas de Oriente". Com esta frase iniciava um dos mais importantes veículos de comunicação da guerrilha. Foram vinte minutos nos quais se denunciou os crimes da ditadura, se informou sobre os combates na sierra, as ações dos lutadores, e divulgou-se uma série de informações ao povo cubano sobre como agir diante da presença dos rebeldes. Começava também uma profunda relação de cumplicidade e confiança entre os "jornalistas" e a gente cubana. Não é sem razão que hoje, 51 anos depois desta histórica transmissão, a figura do jornalista cubano esteja intimamente ligada aos ideais da revolução. Quem afirma é o presidente da União de Periodistas de Cuba, Tubal Paez, que esteve em Florianópolis para a XVII Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, promovida pela Associação Cultural José Martí de Santa Catarina.



Mas, se voltarmos na história, veremos que esta relação entre os jornalistas e os anseios populares não era uma novidade naqueles dias de 1958. Foi a imprensa, conforme conta o escritor Ramón Becali, que começou a difundir na Cuba colonial, lá pelos idos do setecentos, a idéia de uma pátria livre. E o maior de todos os jornalistas cubanos, José Martí, fez de sua vida e de sua obra um ato sublime de amor à liberdade cubana. Assim, um país que contou com a pena de um Martí, não poderia ter jornalistas diferentes. "Não merece escrever para os homens, aquele que não sabe amá-los", ensinava.



"Em Cuba os jornalistas são críticos, porque é nossa função ser crítico. É o que nos ensinou a revolução, é o que ensinam na escola e é o que a união dos jornalistas exige. Defendemos a revolução, mas aquilo que é mal feito, nós criticamos". É assim que o jornalista sintetiza a missão dos jornalistas na ilha revolucionária. Ele reafirma que, lá, os jornalistas foram e são protagonistas da mudança. Desde o começo das lutas de libertação houve grupos de jornalistas atuando e ajudando na transformação. "Ser protagonista do processo revolucionário é bom, mas às vezes há jornalistas que exageram na retórica ou no louvor. Até porque nós temos por princípio a idéia de informar, opinar e defender o país que está sob bloqueio há 50 anos e numa guerra em que o inimigo procura semear a desesperança. Isso, por vezes, é um problema, mas estamos sempre vigilantes".



É certo que esta imbricada relação dos jornalistas com o processo revolucionário provoca outra maneira de olhar a realidade. "Se estamos diante da construção de um hotel, por exemplo, a primeira questão que a gente se coloca é: isso vai proteger o país ou não? Em que lugar do mundo um jornalista se põe estas questões? Só em Cuba. Isso pode ser bom, mas pode ser ruim também, caso vire um vício. É por isso que no nosso código de ética a gente coloca como falta grave tanto a apologia quanto o triunfalismo. Nosso propósito deve ser a crítica. Falamos de tudo o que ruim, dos sacrifícios que a população tem de passar. Mas também falamos da resistência".



Tubal Paez conta ainda que na ilha caribenha também existem outros "jornalistas", que assim são designados pelo Departamento de Estado estadunidense, e lá estão, fazendo suas reportagens "independentes". Isso tudo é tolerado porque a população cubana tem educação suficiente para diferenciar a verdade da mentira. "Escrever para um povo alfabetizado politicamente não é coisa fácil. O povo está muito preparado para julgar tudo aquilo que o jornalista faz". Também é certo que em Cuba ainda existe gente que prefere o anexionismo, que os Estados Unidos invada a ilha e que tudo volte a ser como antes, quando a ilha era um quintal dos ricos estrangeiros. Mas são poucos.



Liberdade de expressão

Quem fala que em Cuba não há liberdade de expressão não conhece Cuba. "Se assim fosse minha mãe estaria na prisão", brinca Tubal. "Porque ela é boa na crítica ao que está mal". Na verdade, como explica o presidente da UPC, Cuba é o país onde existe o maior número de imprensa de oposição. Só para que se tenha uma idéia, existem 32 emissoras de rádio transmitindo todos os dias desde a Flórida, sempre com conteúdo especificamente contra Cuba e contra o socialismo. "O governo estadunidense liberou este ano mais de 34 milhões de dólares para estas emissoras e, deste montante, 18 milhões são para pagar jornalistas, escritores, locutores, que vendem sua mão e sua voz na intenção de gerar desesperança entre os cubanos". Além das emissoras de rádio ainda há uma emissora de TV, cinicamente chamada de TV Martí (nome do mais importante revolucionário cubano, também jornalista) que transmite diariamente conteúdo anti-Cuba com um sinal que é gerado por aviões que sobrevoam a ilha. "São, portanto, mais de 1900 horas semanais de informação anti-governo, o que nos faz crer que não há governo no mundo que tenha tanta oposição".



Além disso, estão em Havana mais de 160 jornalistas que são correspondentes estrangeiros, podendo transmitir o que quiserem, sem qualquer censura. "Já os Estados Unidos sim não podem falar de liberdade de expressão, porque eles proíbem que um jornalista cubano esteja lá olhando e reportando. Então, quem precisa ter liberdade?" Tubal lembra que o único espaço onde os Estados Unidos permitem a presença de um jornalista cubano é nas Nações Unidas, mas ele só pode falar do que se passa ali, mais nada. "Isso é ou não censura? E quem a pratica não é o regime cubano".



A democracia

Tubal Paez comenta as investidas do presidente estadunidense Barak Obama, quando este coloca como condição na mudança de relação com Cuba a questão da democracia. E questiona a chamada "democracia" do mundo capitalista que fica inviabilizada dentro de um sistema em que há tanta desigualdade econômica. "Como pode haver democracia numa sociedade dividida entre pobres e ricos? Que democracia é esta em que só os ricos podem ter os meios de comunicação, por exemplo? O fato é que no mundo capitalista quando se fala que as coisas devem mudar em Cuba no que diz respeito à democracia, isso significa sempre um passo atrás. Já para nós, mudança significa sempre um passo adiante".



O jornalista cubano insiste que a democracia cubana é radicalmente diferente da que caracteriza o mundo liberal burguês. Lá, as pessoas não participam da vida política apenas uma vez a cada quatro anos. A participação é uma coisa entranhada no cotidiano. Tubal é parlamentar e conta que em Cuba uma pessoa que se candidata a um cargo público não faz campanha como nos países capitalistas, em que o dinheiro comanda o voto. "Em Cuba, ninguém se apresenta à comunidade dizendo o que vai fazer. Ele se apresenta dizendo o que já fez. Os candidatos visitam juntos os eleitores e são submetidos ao escrutínio dos seus atos passados. Depois, uma vez eleitos, eles precisam prestar contas anuais dos seus atos como representante. Essa é a nossa democracia que cada dia vai se aperfeiçoando. Não é perfeita, mas vamos avançando".



Ele lembra que quando Cuba tinha o multipartidarismo o que imperava era o dinheiro. Até o prédio da Câmara nacional foi construído a semelhança do Capitólio e ali, segundo Tubal, foram aprovados os piores projetos contra a soberania nacional. O povo não tinha vez. "A minha mãe, que tem 85 anos, mostra como um orgulho a sua cédula eleitoral daquele dias antes da revolução. Está branca. Ela nunca votou. Dizia que jamais se prestaria àquela farsa. Hoje não há partidos.. Quem decide é povo, diretamente na sua comunidade. Isso, para nós, é um avanço".



A comunicação é prioridade

A obsessão informativa de Che e Fidel no início da revolução segue sendo uma diretiva entre os cubanos. As rádios são veículos fundamentais e todas as cidades têm a sua. Além disso, os grupos organizados também têm as suas mídias, sempre com alcance nacional. As mulheres, os camponeses, os jovens editam suas revistas, seus programas, enfim, passam suas pautas a toda a nação. O jornalista, para exercer a profissão em Cuba, precisa ser formado em curso universitário de jornalismo, o que também não é nenhuma novidade visto que lá, a formação universitária é estimulada e garantida a todos. "Hoje, com a explosão dos meios de comunicação estamos vivendo uma situação em que há mais postos de trabalho do que jornalistas formados, então estamos buscando gente nas áreas afins como a de Comunicação Social". Tubal Paez explica que um jovem recém formado já tem assegurado o seu posto de trabalho tão logo saia da faculdade, o que também mostra a abissal diferença entre o regime cubano e a realidade de competição capitalista.



Em todo o país o contingente de jornalistas chega a quatro mil, com mais 700 estudantes prontos a se graduar. E ainda assim faltam profissionais. A considerar a população cubana que é de 12 milhões de pessoas, dá para perceber o quanto a informação é importante. E não basta a informação somente, ela tem de ser de qualidade, daí a necessidade da formação universitária. "Em Cuba nós não trabalhamos com esse jornalismo de espetáculo, não tem essa coisa de assalto a banco, nem bandos de mafiosos".



Outra especificidade da imprensa escrita cubana é a quase inexistência da propaganda de produtos. "Nós somos muito pobres, o papel é caro. A publicidade estimula o consumismo e cria necessidades. Por isso não usamos o pouco que temos a disposição para este tipo de coisa". Em Cuba os meios de comunicação não são todos estatais. A maioria é de propriedade social, o que significa que quem controla é a comunidade. Esta também acaba sendo uma diferença tremenda na relação com o mundo capitalista. "Estes veículos acabam se sustentando com a venda de seus produtos, mas é claro que o Estado não lhes dá as costas, porque a comunicação é uma coisa estratégica em Cuba".



Já no campo da internet os cubanos ainda sofrem muita restrição. "Mas não é porque o governo não queria que o povo tenha acesso. O que acontece é que os Estados Unidos proíbem que os cabos de banda larga sejam conectados a Cuba. Nossa banda é estreita e então a prioridade acaba sendo para as instituições sociais". Para se ter uma idéia dos efeitos do bloqueio, todos os serviços oferecidos pelo Google, que hoje são utilizados automaticamente pelos internautas do mundo todo, estão fechados para Cuba. "Estas são questões que ainda estamos tratando de resolver. O bloqueio nos causa grandes problemas, mas também nos coloca desafios. E o povo cubano, nestes 50 anos de revolução tem dado respostas à altura".



E assim segue a vida na pequena e resistente ilha cubana. Enquanto o gigante império trama contra a revolução as gentes seguem ouvindo o chamado del Che insurgente, iniciado naquele distante 24 de fevereiro de 1958, com a voz do capitão Luiz Orlando Rodríguez: "...Aquí Radio Rebelde, la voz de la Sierra Maestra, transmitiendo para toda Cuba en la banda de 20 metros diariamente a las 5 de la tarde y 9 de la noche, desde nuestro campamento rebelde en las lomas de Oriente". E a mesma rádio, ali está, há 51 anos, um a mais que a revolução, informando e formando o povo cubano. Não mais no acampamento em Sierra Maestra, mas sempre rebelde, infinitamente rebelde, tal como toda a comunicação.


"A imprensa é o cão guardador da casa pátria", adverte Martí, e os jornalistas cubanos seguem à risca o conselho do grande colega.


quarta-feira, abril 29, 2009

OMS diz que surto de gripe suína se aproxima do nível 5 e indica pandemia

 

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da Folha Online

A OMS (Organização Mundial de Saúde) informou nesta quarta-feira que o desenvolvimento da epidemia de gripe suína --que já atinge 11 países-- coloca a agência mais perto de decretar o alerta de nível 5, em uma escala que vai de 1 a 6. O nível cinco indica que uma pandemia --uma epidemia que afeta vários países simultaneamente-- é iminente e não pode ser evitada.

"Estamos nos aproximando da fase cinco, mas ainda não chegamos", disse Keiji Fukuda, secretário-geral adjunto da OMS, em Genebra (Suíça). "Esse passo é muito significativo, e temos de estar absolutamente seguros de que haja uma transmissão sustentada do vírus em ao menos dois países."

Mais cedo, a ministra de Saúde da Espanha, Trinidad Jimenez, afirmou que uma das dez pessoas infectadas com gripe suína no país não esteve recentemente no México. O anúncio pode indicar que a doença respiratória está sendo transmitida de espanhol para espanhol, o que caracterizaria um novo foco de epidemia, além do México.

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O vírus é transmitido como o de uma gripe comum, de pessoa para pessoa, e até agora as autoridades de saúde registraram que os antigripais Relenza e Tamiflu são eficientes contra a infecção. Embora tenha tido origem provável em porcos, não há risco de contrair a doença pela ingestão de carne de porco, porque a temperatura de cozimento (acima de 70ºC) mata o vírus.

Os sintomas em humanos são parecidos com os da gripe comum e incluem febre acima de 39°C, falta de apetite e tosse. Algumas pessoas com a gripe suína também relataram ter apresentado catarro, dor de garganta, náusea.

Michaela Rehle/Reuters

Em todo o mundo, médicos fazem análises de amostras de salivas de pacientes infectados com a gripe suína

Em todo o mundo, médicos fazem análises de amostras de salivas de pacientes infectados com a gripe suína

Segundo Fukuda, a OMS monitora a situação de perto e que não há evidência de que o vírus esteja diminuindo seu ritmo de transmissão.

O secretário-geral adjunto afirmou ainda que 114 casos de contaminação por gripe suína foram registrados oficialmente em todo mundo. Ao listar os casos, Fukuda afirmou ainda que houve sete mortes no México --número revisado na noite desta terça-feira pelo governo mexicano-- e uma nos Estados Unidos.

"Isso dá um total de 114 casos às 17h de hoje [12h no horário de Brasília] que foram oficialmente reportados à OMS", disse.

Autoridades no México afirmam que até 159 pessoas podem ter morrido no país por causa da epidemia de gripe suína, que já deixou 2.500 infectados.

Nos Estados Unidos, um bebê mexicano de 23 meses morreu em um hospital de Houston, no Texas, por gripe suína --a primeira vítima fora do México.

Segundo David Persse, diretor de serviços médicos de emergência de Houston, a família do bebê, que se mudou do México para Brownsville, no Texas, está bem e não apresenta sintomas da doença.

O menino vivia em Matamoros, na fronteira do México com o Texas, disse Persse. Ele veio com a família do México para visitar parentes em Brownsville, no Texas, onde começou a demonstrar sintomas da doença. Em seguida, ele foi levado a um hospital de Houston, onde morreu na noite desta segunda-feira (27).

Segundo o Departamento de Serviços de Saúde do texas, citado pela agência Associated Press, o menino já apresentava sintomas da doença no México e deu entrada no hospital poucos dias depois com febre e outros sintomas de gripe.

A epidemia de gripe suína atingiu ainda outros nove países. Há casos confirmados na Alemanha, Inglaterra, Escócia, Áustria, Espanha, Canadá, Israel, Costa Rica e Nova Zelândia.

A OMS havia elevado o nível de alerta de 3 para 4 nesta segunda-feira (27), com um alerta para que os governos se mantivessem preparados para a possibilidade de uma pandemia.

Arte Folha de S.Paulo

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domingo, abril 12, 2009

MONSANTO = corrupção de govern os, produção armas q uímicas, controle de alimentos em nível global




"O mundo segundo a Monsanto"

por Michelle Amaral da Silva última modificação 09/04/2009 18:15

Pesquisadora francesa poder da maior multinacional de sementes: corrupção de governos, produção armas químicas, controle de alimentos em nível global

Pesquisadora francesa poder da maior multinacional de sementes: corrupção de governos, produção armas químicas, controle de alimentos em nível global



09/04/2009
Darío Aranda,
Argentina


Em entrevista jornal argentino Página 12, a escritora e documentarista francesa, Marie-Monique Robin apresenta seu novo livro, fruto de três anos de profundas investigações sobre o poder de influência da multinacional sobre Governos e o projeto de controle total da produção de alimentos em nível global. Corrupção, produção de armas químicas e controle sobre do que você come são algumas das denuncias feitas pela francesa.


Como define a Monsanto?
Monsanto é uma empresa deliquente. E digo por que há provas concretas disso. Foi muitas vezes condenada por suas atividades industriais, por exemplo o caso dos PCB, produto que agora está proibido, mas que segue contaminando o planeta. Durante 50 anos o PCB esteve nos transformadores de energia. E a Monsanto, que foi condenada por isso, sabia que eram produtos muito tóxicos, mas escondeu informação e nunca disse nada. E é a mesma história com outros dois herbicidas produzidos por Monsanto, que formaram o coquetel chamado "agente laranja" utilizado na guerra do Vietnã, e também sabia que era muito tóxico e fez o mesmo. E mais, manipulou estudos para esconder a relação entre as dioxinas e o câncer. É uma prática recorrente na Monsanto. Muitos dizem que isto é o passado, mas não é assim, é uma forma de obter lucros que ainda hoje está vigente. A empresa nunca aceitou seu passado nem aceitou responsabilidades. Sempre tratou de negar tudo. É uma linha de conduta, e hoje acontece o mesmo com os transgênicos e o Roundup.


Quais são as práticas comuns da Monsanto na ordem global?
Tem práticas comuns em todos os países onde atua. Monsanto esconde dados sobre seus produtos, mas não só isso, também mente e falsifica estudos sobre seus produtos. Outra particularidade que se repete na Monsanto é que cada vez que cientistas independentes tratam de fazer seu trabalho a fundo com os transgênicos, têm pressões ou perdem seus trabalhos. Isso também acontece nos organismos dos Estados Unidos como são a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) ou EPA (Agência de Proteção Ambiental). Monsanto também é sinônimo de corrupção. Dois exemplos claros e provados são a tentativa de suborno no Canadá, que originou uma sessão especial do Senado canadense, quando se tratava a aprovação do hormônio de crescimento leiteiro. E o outro caso é na Indonésia, onde a Monsanto foi condenada porque corrompeu a cem altos funcionários para por no mercado seu algodão transgênico. Não duvidamos que exista mais casos de corrupção onde a Monsanto é quem corrompe.


Você também afirma que a modalidade de "portas giratórias" é uma prática habitual.
Sem dúvida. Na história da Monsanto sempre está presente o que nos Estados Unidos se chama "a porta giratória". Um exemplo claro: o texto de regulamentação que regula os transgênicos nos Estados Unidos foi publicado em 1992 pela FDA, a agência norteamericana encarregada da seguridade de alimentos e medicamentos. A qual se supõe é muito séria, ao menos sempre eu pensava isso, até antes deste trabalho. Quando diziam que um produto havia sido aprovado pela FDA pensava que era seguro. Agora sei que não é assim. No '92, o texto da FDA foi redigido por Michael Taylor, advogado da Monsanto que ingressou na FDA para fazer esse texto e logo foi vice-presidente da Monsanto. Um exemplo muito claro de "porta giratória". Há muitos exemplos, em todo o mundo.

Monsanto fabricou o agente laranja, PCB e glifosato. E tem condenações por publicidade enganosa. Por que tem tão boa reputação?
Por falta de trabalho sério dos jornalistas e a cumplicidade dos políticos. Em todo o mundo é igual.

Por que a Monsanto não fala?
Tentou chamá-los?

Sim, mas não aceitaram perguntas.
Também é o mesmo em todo o mundo. Ante qualquer jornalista crítico, a Monsanto tem uma só política: "Não comentes" (sem comentários).

O que significa a Monsanto no mercado mundial de alimentos?
A meta da Monsanto é controlar a cadeia alimentar. Os transgênicos são um meio para essa meta. E as patentes uma forma de conseguí-lo. A primeira etapa da "revolução verde" já ficou para trás, foi a de plantas de alto rendimento com utilização de pesticidas e a contaminação ambiental. Agora estamos na segunda etapa dessa "revolução", onde a chave é fazer valer as patentes sobre os alimentos. Isto não tem nada a ver com a idéia de alimentar ao mundo, como se publicou em seu momento. A única finalidade é aumentar os lucros das grandes corporações. Monsanto ganha em tudo. Ela vende o pacote tecnológico completo, sementes patenteadas e o herbicida obrigatório para essa semente. Monsanto te faz firmar um contrato pelo qual te proíbe conservar sementes e te obriga a comprar Roundup, não se pode utilizar um glifosato genérico. Neste modelo Monsanto ganha em tudo, e é tudo ao contrário da segurança alimentar. De passagem, recordemos, que a soja transgênica que se cultiva aqui não é para alimentar aos argentinos, é para alimentar aos porcos europeus. E o que acontecerá na Argentina quando as carnes da Europa terem que ser etiquetadas sendo que foram alimentadas com soja transgênica? Se deixará de comprar carnes desse tipo e a Argentina também receberá o golpe, porque lhe abaixará a demanda de soja.

Esteve na Argentina, Brasil e Paraguai. Que particularidades encontrou na região?
Deve-se recordar que a Monsanto entrou aqui graças ao governo de Carlos Menem, que permitiu que a soja transgênica entrasse sem nenhum estudo. Foi o primeiro país da América Latina. Depois da Argentina organizou-se um contrabando de sementes transgênicas, de grandes produtores, para o Paraguai e o Brasil, que se viram obrigados a legalizá-las porque eram cultivos que depois se exportavam. E depois veio a Monsanto a reclamar suas regalias. Foi incrível como se expandiu a soja transgênica na região, e em tão poucos anos. É um caso único no mundo.

Na década de 90 a Argentina era denominada como aluno modelo do FMI. Hoje, com 17 milhões de hectares com soja transgênica e a utilização de 168 milhões de litros só de glifosato, pode-se dizer que a Argentina é um aluno modelo dos agronegócios?
Sim, claro. A Argentina adotou o modelo Monsanto em tempo recorde, é um caso pragmático. Mas também houve alguns problemas com o aluno modelo. Como as sementes transgênicas são patenteadas, Monsanto tem o direito de propriedade intelectual. Isso significa, como o vi no Canadá e Estados Unidos, que lhes fazem firmar aos produtores um contrato nos quais se comprometem a não conservar parte de suas colheitas para ressemear no próximo ano, o que fazem os agricultores de todo o mundo. A Monsanto o denuncia como uma violação de sua patente. Então a Monsanto envia a "polícia de genes", que é algo incrível, detetives privados que entram nos campos, tomam amostras , verificam se é transgênico e se o agricultor tem comprado suas sementes. Se não as tem comprado, realizam juízos e a Monsanto ganha. É parte de uma estratégia global: a Monsanto controla a maioria das empresas sementeiras e patenteia as sementes, exigindo que cada campesino compre suas sementes. O que aconteceu aqui é que a lei argentina não proíbe guardar sementes de uma colheita e utilizá-las na próxima semeadura. Em um primeiro momento a Monsanto disse que não iria pedir regalias, e deu sementes baratas e Roundup barato. Mas em 2005 começou a pedir regalias, rompeu o acordo inicial e por isso mantém um enfrentamento judicial com seu aluno preferido.

O Roundup tem um papel protagonista neste modelo. Muitas comunidades campesinas e indígenas denunciam seus efeitos, mas existem poucas proibições.
É um impacto incrivelmente silenciado. Ninguém pode negar o que trazem as esterilizações com este herbicida, totalmente nocivo. Tenho a segurança de que será proibido em algum momento, como foi o PCB, estou segura de que chegará este momento. De fato na Dinamarca já foi proibido por sua alta toxicidade. É urgente analisar o perigo dos agroquímicos e os OGM (Organismos Geneticamente Modificados).

Contudo, as grandes empresas do setor prometem há décadas que com transgênicos e agrotóxicos se conseguirá aumentar a produção, e assim acabar com a fome do mundo.
A Argentina é o melhor exemplo dessa mentira. Como tem ido com a sojização do país? Tem se perdido na produção de outros alimentos básicos e ainda há fome. Este modelo é o modelo do monocultivo, que acaba co outros cultivos vitais. É uma transformação muito profunda da agricultura, que leva diretamente à perda da soberania alimentar, e lamentavelmente já não depende de um governo para poder revertê-lo.

Por que ao processo agrário atual você o chama "a ditadura da soja"?
É uma ditadura no sentido de um poder totalitário, que abrange tudo. Deve-se ter claro que quem controla as sementes controla a comida e controla a vida. Nesse sentido, a Monsanto tem um poder totalitário. É tão claro que até a Syngenta, outra grande empresa do setor e competidora da Monsanto, chamou ao Brasil, Paraguai e Argentina "as repúblicas unidas da soja". Estamos frente a um programa político com finalidades muito claras. Uma pergunta simples o demonstra: quem decide o que se vai cultivar na Argentina? Não o decide nem o governo nem os produtores, o decide a Monsanto. A multinacional decide o que se semeará, sem importar aos governos, o decide a empresa. E, para pior, a segunda onda de transgênicos vai ser muito forte, com um modelo de agrocombustíveis que acarretará mais monocultivos. E, a esta altura, já está claro que o monocultivo é perda de biodiversidade e é todo contrário à segurança alimentar. Já não há dúvidas de que o monocultivo, seja o da soja ou para biodiesel, é o caminho para a fome.

Qual é o papel da ciência no modelo de agronegócios, onde a Monsanto é só sua cara mais famosa?
Antes pensava que quando um estudo era publicado em uma prestigiosa revista científica, se tratava de um trabalho sério. Mas não. As condições em que se publicam alguns estudos são tristes, com empresas como Monsanto pressionando aos diretores das revistas. No tema transgênico fica muito claro que é quase impossível realizar estudos do tema. Em muitas partes do mundo, os Estados Unidos ou a Argentina, os laboratórios de investigações são pagos por grandes empresas. E quando o tema é sementes, transgênicos ou agroquímicos, a Monsanto sempre está presente e sempre condiciona as investigações.

Os cientistas tem temor ou são cúmplices?
Ambas as coisas. O temor e a cumplicidade estão presentes nos laboratórios do mundo. No livro deixo claro que há cientistas, em todos os países, cuja única função é legitimar o trabalho da empresa.

Qual é o papel dos governos para que empresas como Monsanto avancem?
Os governos são os melhores propagandistas dos OGM (Organismos Geneticamente Modificados). Realizam um trabalho de lobby incrível. A Monsanto leva seus estudos, sua informação, suas revistas e fotos, tudo muito lindo. E diz aos políticos que não haverá contaminação e salvará ao mundo. E os políticos entram na dela. E também há pressões. Deputados franceses tem denunciado publicamente as pressões da Monsanto, até reconheceram que a companhia contatou a cada um dos 500 deputados para que legislem segundo os interesses da empresa.

E o papel dos meios de comunicação?
Me dá muita pena porque sou jornalista e acredito no que fazemos, acredito que é uma profissão com um papel muito importante na democracia, mas há uma grande manipulação dos meios. Em todo o referido aos transgênicos, a imprensa não trabalha seriamente. Os meios olham a propaganda da Monsanto e a publicam sem questionamentos, como se fossem empregados da empresa. Também é público que a Monsanto convida a comer aos periodistas, lhes dá regalias, os leva de viagem a Saint Louis (onde está sua sede central); os jornalistas vão muito contentes, passeiam pelos laboratórios, não perguntam nada e vão. Assim funcionam os meios com a Monsanto. Também registrei casos nos quais a Monsanto busca, em cada meio de comunicação, um defensor. Estabelece contato com ele e consegue opiniões favoráveis. Não sei se há corrupção, mas sei que a Monsanto consegue seu objetivo. Na Argentina é claro como atua, ao ver alguns artigos de suplementos rurais se vê que em lugar de artigos jornalísticos são publicidades da Monsanto. Não pareceria que um jornalista o escreveu, foi diretamente a companhia.

Que avaliação faz do enfrentamento entre o governo e as entidades patronais do agronegócio?
Em 2005 entrevistei a Eduardo Buzzi, estava furioso pelo assunto das regalias reclamadas pela Monsanto. Falava dos enganos da Monsanto. E, além disso, falava dos problemas que trazia a soja, até me pôs em contato com pequenos produtores que me falaram das mentiras da Monsanto, da resistência que mostravam as ervas daninhas, que tinha que utilizar mais herbicidas e que os campos ficavam como terra morta. Buzzi sabia tudo isso e me dizia que questionava esse modelo, afirmava que a soja trazia a destruição da agricultura familiar e me dizia que a Federação Agrária representava esse setor, que enfrentava aos pools de semeadura e às grandes empresas. E Buzzi denunciava muito este modelo, muito bom discurso. Mas agora não é o que acontece. Nunca o voltei a ver e gostaria de perguntar-lhe o que lhe aconteceu que agora se une com as entidades mais grandes, me estranha muito a mudança que mostra. E acima de Buzzi está com Aapresid (Associação Argentina de Produtores de Semeadura Direta – integrada por todas as grandes empresas do setor, incluindo as sementes e agroquímicas), que é a que mais ganha com todo esse modelo, e que apareceu pouco neste conflito. Aapresid manipula tudo e está com os grandes sojeiros, que não são agricultores e que até promovem um modelo sem agricultores. Então não entendo como a Federação Agrária disse representar produtores pequenos e está com a Aapresid. O que a Federação Agrária é muito estranho, não se entende.

E o papel do governo?
As retenções podem ser que frenem algo do processo de sojização. Mas não é uma solução frente a um modelo tão agressivo. A solução tem que ser algo muito mais radical e não a curto prazo. Claro que a tentação dos governos é grande, a soja traz bons rendimentos, mas deve-se pensar a longo prazo. Não há soluções simples e de curto prazo para um modelo que tira campesinos de suas terras e, mediante esterilizações, contamina a água, a terra e a população.


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quarta-feira, março 18, 2009

China preocupa-se com segurança dos empréstimos que fez aos EUA

 

A Casa Branca asseverou oficialmente à China que “não existe aplicação mais segura no mundo” para as reservas de divisas do país asiático e pediu encarecidamente a Pequim que continue emprestando, em reação às preocupações manifestadas pelo primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, na semana passada, sobre a sorte de centenas de bilhões trocados por títulos do Tesouro dos EUA e papéis norte-americanos. “Para ser sincero, estou um pouco preocupado”, afirmou Jiabao, no último dia da sessão anual do pleno do parlamento chinês, na sexta-feira 13. “Já emprestamos muito dinheiro aos Estados Unidos”, acrescentou.

Sem esse dinheiro, os EUA não teriam como financiar seu déficit, que este ano, em decorrência da crise e da falta de poupança interna, chegará a 12% do PIB. A otimista declaração de que “não existe aplicação mais segura no mundo” foi feita pelo porta-voz Robert Gibbs. Desde setembro, a China ultrapassou o Japão como o maior credor dos EUA.

Nessa mesma entrevista, Jiabao havia reiterado que “é claro que estamos preocupados com a segurança de nossos ativos”. Afinal, somente em títulos do Tesouro e outros papéis o montante de dinheiro chinês emprestado aos EUA ultrapassa os US$ 727 bilhões. Diz-se até que o banco de hipotecas Freddie Mac só não faliu porque era “too chinese to fail” – “demasiado chinês para quebrar”. Também querendo tranqüilizar Pequim, o diretor do Conselho de economistas da Casa Branca, Lawrence Summers, garantiu que Washington “é um zeloso guardião” das reservas da China.

Prevendo um déficit de 1,752 trilhão de dólares para o exercício fiscal 2008-2009 que finaliza em setembro, agravado por medidas excepcionais tomadas para sustentar a economia americana, o governo dos EUA dificilmente pode dispensar os empréstimos apor-tados pela China.

O que acontece com a Europa?

 

Paul Krugman
Do The New York Times

A Europa me preocupa. Na realidade me preocupa o mundo todo - não existem refúgios seguros para a tempestade econômica mundial. Mas a situação da Europa me preocupa mais do que a dos Estados Unidos. Que fique bem claro, não vou repetir a reclamação padrão dos Estados Unidos de que os impostos na Europa são muito altos e seus benefícios muito generosos. Os grandes Estados do bem-estar social não são a origens da atual crise européia. De fato, como vou explicar em breve, é um fator atenuante. Atualmente na Europa, o perigo evidente e presente vêm de outra direção: da incapacidade do continente em responder efetivamente à crise financeira.

A política fiscal e monetária da Europa enfrenta uma crise tão severa quanto a dos Estados Unidos, mas está fazendo muito pouco para combatê-la.

Com relação ao aspecto fiscal, a comparação com os Estados Unidos é surpreendente. Muitos economistas, inclusive eu, argumentam que o plano de estímulos do governo Obama é muito pequeno para o tamanho da crise. No entanto, as ações dos Estados Unidos fazem com que as ações da Europa sejam vistas como muito menores. A diferença na política monetária também é alarmante. O Banco Central Europeu antecipou-se muito menos que a Reserva Federal (na realidade, aumentou as taxas em julho passado), e evita qualquer medida forte para o descongelamento dos mercados de crédito.

O único fator que está funcionando a favor da Europa é exatamente aquele pelo qual ela é tão criticada: o tamanho e a generosidade dos seus Estados de bem-estar, que estão reduzindo o impacto da crise econômica.

Isto não é pouco. Na Europa, com os seguros de atenção à saúde garantidos e generosas parcelas de seguro desemprego, até o momento não há tanto sofrimento humano quanto nos Estados Unidos. E esses programas também vão ajudar a conter os gastos durante a crise.

No entanto, os ditos "estabilizadores automáticos" não são substitutos da ação positiva. Por que a Europa não está preparada? Os maus dirigentes fazem parte da história. Os banqueiros europeus, que não foram atingidos pela crise, ainda parecem estranhamente complacentes. Nos Estados Unidos, para ouvirmos qualquer coisa parecida com os disparates proferidos pelo ministro da economia alemão, só mesmo vindo dos republicanos.

Há um problema ainda mais sério: a integração econômica e monetária da Europa está muito adiantada em comparação às suas instituições políticas. A economia de muitos países da Europa está fortemente vinculada, assim como a economia de muitos estados dos Estados Unidos, e a maioria da Europa tem uma moeda em comum. No entanto, diferentemente dos Estados Unidos, a Europa não possui o tipo de instituições em nível continental necessárias para enfrentar uma crise continental.

Essa é uma razão importante para a falta de ação fiscal: não há um Governo único na posição de assumir a responsabilidade pela economia européia, cada Estado membro é responsável pelo acúmulo de dívidas enormes para financiar benefícios destinados a eleitores de outros países. Poderíamos esperar que a política monetária fosse mais enérgica. Afinal, embora não exista um Governo europeu, existe o Banco Central Europeu. No entanto, o BCE não é a Reserva Federal dos Estados Unidos, que pode dar-se o luxo de medidas audazes, pois é apoiada por um governo nacional unitário, que já se mobilizou para compartilhar os riscos da sua audácia e, com certeza, cobrirá as possíveis perdas, caso os esforços por descongelar os mercados financeiros não dão certo. O BCE, que deve se submeter a 16 Governos que freqüentemente entram em conflito, não pode contar com o mesmo nível de respaldo.

A Europa, em outras palavras, está demonstrando ser estruturalmente frágil em tempos de crise. A grande pergunta é o que vai acontecer com as economias européias que há alguns anos prosperaram num ambiente de dinheiro fácil, particularmente com a Espanha.

Durante grande parte da última década, a Espanha foi a Flórida da Europa. A sua economia se manteve em alta graças ao auge da especulação imobiliária. Como na Flórida, o auge transformou-se em contração. A Espanha precisa encontrar novas fontes de renda e emprego para substituir o desemprego na construção. No passado, a Espanha teria procurado melhorar a sua competitividade desvalorizando a moeda. No entanto, agora tem o euro - e a única forma de avançar parece ser um processo de disseminação da redução de salários. Isto teria sido difícil nas melhores épocas; evidentemente será muito doloroso se, como parece ser muito provável, a economia européia no seu conjunto está em depressão e com tendência à deflação nos próximos anos.

Será isso um sinal de que a Europa errou em permitir essa integração tão estreita? Será que a criação do euro, em particular, foi um erro? Talvez.

No entanto, a Europa ainda pode mostrar que os céticos estão errados, se os seus políticos começam a mostrar mais liderança. Será que eles farão isso?

Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

sábado, março 14, 2009

Diplomacia brasileira e reunificação coreana

 

Assumirá no final de março em Pyongyang a Embaixada do Brasil na RPDC – República Popular Democrática da Coréia, o diplomata Arnaldo Carrilho, que será nosso primeiro Embaixador naquele país amigo.

Profundo conhecedor da geopolítica asiática, de sua história, de sua economia e da milenar cultura de seus povos, Arnaldo Carrilho tem também uma grande experiência política e diplomática. Aos 71 anos, já foi embaixador por vários anos em vários países da Europa como a Alemanha Oriental, em países árabes como a Arábia Saudita e em 2007 foi o representante brasileiro em Ramallah na Cisjordânia.

Em recente entrevista veiculada pelo UOL, falou sobre seus objetivos à frente dessa nova missão a ele conferida pelo presidente Lula: “Estamos abrindo agora essa embaixada por que o Brasil é hoje em dia, um país que tem uma independência internacional muito marcante. Nós não temos problemas com alianças ou parcerias políticas, somos autônomos. Pouco a pouco, com o crescimento da atividade diplomática do país a gente vai abrindo pelo mundo afora novas missões diplomáticas. O Brasil está abrindo embaixada no Azerbaijão, em mais cinco países no Caribe e acabou de abrir no Mali e na Armênia. Isso faz parte do andamento natural da presença do Brasil no mundo”, disse.

Sobre se encontrará algum problema na Coréia Popular afirmou que “há outros [países] mais fechados. Não se esqueça que há países onde não há nenhuma forma de parlamento, nem de eleições. A Coréia é simplesmente o último em que estamos abrindo uma embaixada. Não vou dizer que a Coréia do Norte é um país aberto. É outro tipo de regime. A Coréia era um reinado até 1910 quando foi ocupada pelo Japão, era um país em que o poder passava dinasticamente. Eu espero que o Brasil contribua muito para que o regime de Pyongyang se sinta mais confortável porque afinal de contas, o Brasil será o primeiro país não socialista das Américas que abrirá uma Embaixada em Pyongyang. Espero que dê uma sensação agradável ao governo da Coréia do Norte. Ter o país de mais expressão da América Latina, sobretudo da América do Sul, presente com uma missão diplomática em Pyongyang é algo relevante. Tenho a impressão de que virão outros países para estabelecer relações diplomáticas com a Coréia do Norte. Pyongyang é uma cidade que ostenta quase 50 missões diplomáticas residentes”, afirmou o Embaixador.

Inteiramente sintonizado com a política externa do governo brasileiro, com o chanceler Celso Amorim e com o presidente Lula, o embaixador brasileiro na RPDC fez importante declaração acerca de questões candentes como a relação entre a Coréia do Norte e do Sul, a reunificação e o papel do Brasil. “O Brasil sempre favorece o diálogo. O país apoiaria qualquer forma de entendimento. O Brasil é favorável à reunificação da Coréia. Nós temos uma embaixada muito ativa em Seul e eu espero corresponder no Norte a essa atividade sob o ponto de vista político. O Brasil se propõe a ver uma Coréia unificada. Aliás eu creio que seja o desejo da comunidade internacional. Ninguém gosta de países de um mesmo povo divididos. No momento [as relações entre as duas Coréias] estão um pouco deterioradas. É sempre assim, tem altos e baixos. Mas são coisas naturais de governos de um mesmo país que têm idéias diferentes”, pontuou.

Arnaldo Carrilho quer desenvolver o comércio bilateral – 380 milhões em 2008 -, quer estimular o contato com empresas brasileiras como é o caso da Sadia que já está discutindo a exportação de carnes de suínos e frangos. O Brasil tem interesse na importação de magnesita cuja produção da RPDC é a segunda do mundo. “Vamos ver o quanto a magnesita norte-coreana poderá participar do comércio Brasil-Coréia do Norte. E quanto às relações políticas elas serão desenvolvidas conforme nossas relações bilaterais acontecerem”, sublinhou.

“O papel do governo brasileiro será de desenvolver relações em todos os sentidos: econômicas e comerciais, culturais, políticas e nos fóruns multilaterais. É uma tarefa bastante extensa. Vou promover a cultura brasileira lá. O líder da Coréia do Norte, por exemplo, adora cinema e espetáculos musicais, e o Brasil tem muito a oferecer para aquele país. Inclusive penso em promover uma exposição de artistas brasileiros que já ensaiaram arte realista-socialista, como se dizia antigamente. Mas ainda não há nada programado a respeito disso”, concluiu o Embaixador brasileiro.

ROSANITA CAMPOS

Regime dos Lamas submetia povo tibetano às trevas da escravidão

 

O texto a seguir é parte de um artigo publicado no jornal Revolutionary Wor-ker, nos EUA. O título original do trecho é “A sociedade de classes no velho Tibet”.
“Antes das mudanças revolucionárias iniciadas em 1949, o Tibet era uma sociedade feudal. Havia duas classes principais: os servos e os aristocratas proprietários dos servos. O povo vivia como os servos na Europa da “Idade das Trevas”, ou como os escravos e os meeiros africanos no Sul dos EUA.

“Os servos tibetanos raspavam as colheitas de cevada da terra dura com arados e foices de madeira. Criavam cabras, ovelhas e iaques para obter leite, manteiga, queijo e carne. Os aristocratas e os lamas dos mosteiros eram proprietários das pessoas, da terra e da maioria dos animais. Forçavam os servos a entregar a maioria dos cereais e exigiam todo o tipo de trabalhos forçados (chamados ulag). Entre os servos, tanto os homens como as mulheres participavam no trabalho duro, incluindo o ulag. Os povos nômades dispersos pelas áridas terras altas do Tibet ocidental também eram propriedade dos senhores feudais e dos lamas.

“O irmão mais velho do Dalai Lama, Thubten Jigme Norbu, alegou que na ordem social lamaísta, “não havia nenhum sistema de classes e a mobilidade de classe para classe tornava impossível qualquer preconceito de classe”. Mas a própria existência dessa ordem religiosa baseava-se num sistema de classes rígido e brutal.

“Os servos eram tratados como seres ‘inferiores’ menosprezados - tal como eram tratados os negros no sistema Jim Crow do Sul dos EUA. Os servos não podiam sentar-se nos mesmos sítios, usar o mesmo vocabulário ou comer com os mesmos talheres que os seus donos. Tocar num dos pertences dos amos poderia mesmo ser punido com chicotadas. Os amos e os servos estavam tão distante uns dos outros que em muitas partes do Tibet falavam idiomas diferentes.

“Era costume um servo pôr-se de joelhos e mãos no chão para que o seu amo pudesse usar as suas costas para montar um cavalo. O estudioso do Tibet A. Tom Grunfeld descreveu uma menina da classe dominante que habitualmente fazia com que os criados a levassem escada acima e escada abaixo por pura preguiça. Frequentemente, os amos atravessavam os riachos às costas dos seus servos.

“No Tibet, a única coisa pior que um servo era um ‘escravo pessoal’ que nem sequer tinha direito a cultivar nenhuma cultura para si próprio. Estes escravos eram frequentemente espancados, obrigados a passar fome e a trabalhar até à morte. Um amo podia transformar um servo em escravo quando quisesse. Na capital do Tibete, Lhasa, havia rotineiramente crianças a ser compradas e vendidas. Cerca de 5% dos tibetanos eram considerados escravos pessoais. E pelo menos outros 10% eram monges pobres que na realidade eram ‘escravos em túnicas’.

“O sistema lamaísta tentava impedir qualquer fuga. Os escravos foragidos não podiam ir simplesmente estabelecer-se nas vastas terras vazias. Alguns ex-servos explicaram à escritora revolucionária Anna Louise Strong que, antes da libertação, ‘Não se podia viver no Tibet sem um amo. Seríamos apanhados como criminosos a não ser que tivéssemos um dono legal.’

OPRESSÃO DA MULHER

  "O Dalai Lama escreveu: ‘No Tibet não havia nenhuma discriminação especial contra as mulheres’. O biógrafo autorizado do Dalai Lama, Robert Hicks, alega que as mulheres tibetanas estavam contentes com a sua situação e que ‘influenciavam os seus maridos’. Mas, no Tibet, nascer mulher era considerado um castigo por comportamento ‘ímpio’ (pecador) numa vida anterior. No velho Tibet, a palavra para “mulher”, kiemen, significava “nascimento inferior”. Dizia-se às mulheres que rezassem: ‘Possa eu rejeitar um corpo feminino e renascer homem’.

Seguradora AIG teve prejuízo de US$ 61,7 bilhões no 4º trimestre

 

Na UTI do Tesouro desde setembro, a maior seguradora dos EUA está exposta a US$ 1,6 trilhão em derivativos, conforme afirma relatório divulgado na internet como parte da campanha por mais fundos junto ao Congresso para mantê-la à tona

Aexposição da seguradora AIG aos derivativos é de US$ 1,6 trilhão, afirma relatório divulgado na internet, às vésperas do anúncio do maior prejuízo já sofrido por uma empresa em só um trimestre, e parte de campanha para aumentar os fundos públicos para mantê-la à tona. Maior seguradora dos EUA, na UTI do Tesouro desde setembro passado, a AIG sofreu um vertiginoso prejuízo de US$ 61,7 bilhões no último trimestre de 2008. Somado às perdas anteriores, o rombo total da AIG no ano passado chegou a US$ 99 bilhões.

O Tesouro dos EUA se antecipou ao anúncio do desastre, e garantiu mais US$ 30 bilhões para manter a AIG em estado de animação suspensa – a terceira dose de bail out desde setembro. O relatório, com o logo da AIG, é apresentado como uma análise do “risco sistêmico” que resultaria da falência da seguradora, tendo sido divulgado no site “Scribd.com”, especializado em documentação de todo tipo e, no nosso caso, sua consulta foi por indicação do conhecido site norte-americano “Counterpunch.com”.

DESMANCHE

O documento adverte que o desmanche que se seguiu ao colapso do Lehman Brothers seria fichinha perto do colapso final da AIG, dado as ligações do braço de “produtos financeiros” da seguradora, a AIGF (exposta a US$ 1,6 trilhão em derivativos), com 1500 instituições, entre os maiores bancos, governos, fundos soberanos, corporações e fundos de hedge, e à abrangência das suas operações no mundo inteiro. Ameaça, ainda, com uma “corrida aos bancos” no setor de seguros, que praticamente atingiria cada setor da vida americana. Também seriam golpeados os estados e municípios, já que outra subsidiária é a segunda maior seguradora de bônus emitidos por estes.

Desde o inicio do bail out, a AIG já recebeu US$ 162,5 bilhões em dinheiro público, e teve, em troca, de conceder 80% dos ativos como garantia. As ações da AIG – que até setembro passado estavam entre as 30 ‘blue chips’ do Dow Jones Industrial, de onde já foram despejadas -, agora valem minúsculos US$ 0,41. (Com três, dá para comprar uma ação do Citibank, e com quatro, uma da GM. Que portfolio).

De acordo com as agências internacionais, pelo menos um-terço desse dinheiro colocado pelo Tesouro dos EUA na AIG já foi parar direto no caixa de 20 grandes bancos, alguns deles europeus, envolvidos como contrapartes nas operações com derivativos. Cerca de US$ 50 bilhões, o que já levou alguns observadores a classificarem a AIG como uma “câmara de compensação” do bail out. Segundo o jornal inglês “Times”, citando um analista econômico, Donn Vickkrey, “os bancos europeus são dois-terços do problema”... e que haveria “um efeito dominó no mundo inteiro”.

Mas, de acordo com o executivo-chefe que assumiu o comando da AIG após o colapso de setembro, Edward Liddy, tirando o rombo de US$ 62 bilhões, a situação da seguradora “é forte como uma pedra”. ‘“O que o Fed está fazendo através da AIG é assumindo cada passo possível para manter a confiança no sistema financeiro”, filosofou. Embora, sem o repasse adicional de US$ 30 bilhões, as ações da seguradora teriam sido rebaixadas a lixo-final pelas agências de “classificação de risco”, causando nova rodada de naufrágios de derivativos.

O prejuízo recorde da AIG foi tratado com ruidosa ironia pela CNN, que elaborou uma lista do que poderia ser feito com US$ 62 bilhões. Tal como “pagar as dívidas nacionais combinadas da China, Austrália, México e Ucrânia” estimada pelo Almanaque 2008 da CIA; “comprar 46 palácios Buckingham (o palácio da rainha Elizabeth II)”; com a perda de um minuto (US$ 460.000), pagar “metade da pensão anual do ex-executivo-chefe” de outro banco falido, o RBS inglês; e trocar por notas de 1 dólar e preencher uma área do tamanho de Bagdá. Ou, ainda, comprar uma frota de quase 250 Boeing 747 Jumbos. Fazer uma fila com carros usados, de Nova Iorque a Pequim, ida e volta, com base em que um veículo usado nos EUA custa em média US$ 13.900 e mede 5 metros. Calcularam até a parte de cada norte-americano nesse latifúndio: dividindo igualmente por 303 milhões de pessoas, daria US$ 204 por cabeça para repor as perdas da AIG.

ANTONIO PIMENTA

quarta-feira, março 11, 2009

O Brasil em 2050

 

06/03/2009 12:13:38

Delfim Netto

Uma das variáveis estruturais críticas para a formulação de políticas econômicas, capazes de acelerar o desenvolvimento econômico com o uso dos mecanismos do mercado e de políticas públicas que deem moralidade à dura competição que nele prevalece, é a estrutura demográfica. O número de habitantes, a taxa de crescimento, a distribuição etária e, por gênero, a distribuição geográfica, a urbanização e a dinâmica interna, que é controlada pela evolução das taxas de natalidade e de mortalidade. Sua projeção é sempre difícil e sujeita a erros gerados pela própria endogeneidade do processo.
Não é um problema trivial prever os efeitos finais de boas políticas. Por exemplo, a melhoria do nível de educação das mulheres tende a reduzir a taxa de mortalidade infantil pelo maior cuidado com sua higiene pessoal e com a da criança. Ao mesmo tempo, modifica o seu papel na divisão do trabalho no lar. Dá-lhes melhores condições de escolher a sua vida, o que estimula o uso de técnicas anticoncepcionais. Estas possibilitam o maior controle da taxa de fertilidade, o que tende a reduzir a taxa de natalidade.
Uma coisa parece clara: boas políticas públicas de assistência social, de saúde e de educação tendem a reduzir, simultaneamente, a taxa de natalidade e a taxa de mortalidade. Isso torna incertos os efeitos sobre a taxa de crescimento da população, mas trabalha na direção de envelhecer a estrutura etária. Pesquisas demográficas da ONU mostram que a idade mediana da população nas nações mais desenvolvidas cresceu de 29 anos, em 1950, para 37 anos, em 2000, e está projetada em 46 anos em 2050.
O último trabalho do IBGE, Uma Abordagem Demográfica para Estimar o Padrão Histórico e os Níveis de Subnumeração de Pessoas nos Censos Demográficos e Contagem da População, incorpora uma projeção da população por sexo e idade até 2050, com as informações sobre a taxa de fecundidade dos dados da Pesquisa Nacional de Domicílios (Pnad) de 2002 a 2006.
O trabalho constrói uma trajetória provável da taxa de fecundidade até 2050 e chega à conclusão que, no limite, ela será de 1,5 filho por mulher. Esse número seria alcançado entre 2027 e 2028. Obviamente, em certo momento isso estagnará o crescimento da população. Ela passará, em seguida, a decrescer. Verificadas as hipóteses, a população brasileira passaria por um máximo próximo a 220 milhões de habitantes em torno de 2040.
O resultado não deixa de ser surpreendente e deve ser levado em conta na formulação de nossas políticas econômica e social, uma vez que o envelhecimento da população será rápido e dramático. A idade mediana da população saltará de 20 para 40 anos de 1980 a 2030 e deve atingir 46 anos em 2050, a mesma estimada pela ONU para o mundo desenvolvido. O gráfico dá uma ideia da evolução da população do Brasil entre 1872 (o primeiro censo imperial) e 2008, e mostra as projeções da população e a composição etária até 2050.
Grosseiramente, até 2050 (que em termos de país é amanhã), o número de crianças cairá 56% (21,9 milhões) e o número de idosos aumentará 294% (36,5 milhões). É preciso formular políticas públicas que aumentem a produtividade dos que podem eventualmente trabalhar, que crescerá apenas 8,7% (11,1 milhões). A maior lição desses números é mostrar a futilidade das vinculações constitucionais para proteger certos setores, como se as necessidades da sociedade fossem fixas e eternas.

Delfim Netto

Sextante

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3526

Merck compra a Schering e intensifica a monopolização do setor farmacêutico

 

Com US$ 8,5 bilhões do JP Morgan Chase – provavelmente dinheiro público que deveria estar sendo usado para ativar a produção – a corporação farmacêutica Merck comprou a Schering-Plough, intensificando a monopolização do setor nos EUA e em breve demitindo trabalhadores. A transação envolveu US$ 41 bilhões, e mais da metade (56%) foi através de troca de ações.

A “nova” Merck será a número dois do mundo em faturamento, segundo previsão das agências internacionais, com base no volume atual de cada uma, que computados junto chega a US$ 47 bilhões. Comunicado conjunto divulgado no dia 9 confirmou a transação, sendo que os atuais acionistas da Merck terão 68% da empresa combinada e os da Schering, 32%. O capo da Merck, Richard Clark, anunciou planos de “economizar custos” de US$ 3,5 bilhões anuais. Traduzindo: demissões em massa à vista.

A Dow Chemical, mas-todonte do setor químico, adquiriu a concorrente Rohm and Haas por US$ 18 bilhões e, mais explícita, já dimen-sionou as demissões: vai fechar 3500 postos de trabalho. Que vão se somar aos 6.500 cujo corte havido sido anunciado pelas duas empresas anteriormente.

China quer crescimento com base na demanda interna

 

A China adotará o desenvolvimento do mercado interno como estratégia de longo prazo e tomará novas medidas para impulsionar o consumo e revitalizar a economia do país, afirmou o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, em seu informe à sessão de abertura da XI Assembléia Popular Nacional. Para este ano, a meta é de um crescimento de 8% do PIB e de criação de 9 milhões de empregos, e no final do ano passado a China anunciou um gigantesco plano de obras em infra-estrutura, bancado com recursos do governo e das estatais, já em execução.

Jiabao apontou que a China promoverá com papel destacado a demanda interna, para a retomada do crescimento econômico, desacelerado no último período devido à redução das exportações. Ele ressaltou que o governo chinês contribuirá de forma ativa para maior desenvolvimento do mercado interno, aumentando os ingressos da população, estimulando a compra de automóveis e o desenvolvimento da área rural.
Também será estimulada a construção civil, oferecendo moradia adequada às famílias com baixo poder aquisitivo, e acelerando a reconstrução das áreas afetadas pelo terremoto ocorrido na província de Sichuan em maio do ano passado, assinalou o primeiro-ministro chinês.

Ação do Citibank agora vale menos que bilhete de metrô

 

Papéis do Citi, inflados em 2007 a até 57 dólares, desabaram na quinta-feira dia 5 para US$ 1,02, chegando a ficar no meio do pregão a US$ 0,97

Em meio aos “testes de stress” a que estão sendo submetidos os 19 maiores bancos norte-americanos desde a quarta-feira de cinzas, as ações do Citibank furaram a barreira do US$ 1 na quinta-feira dia 5, e de acordo com piada que circula na internet, em breve serão oferecidas nas lojas de “tudo por 1 dólar”. Ou trocadas por uma tampinha de coca-cola em bom estado de conservação.

Conforme a agência Dow Jones, citando o economista Joseph Saluzzi, a situação real do Citibank é que “tem tantas obrigações, tantos ativos podres”, que suas ações “não seriam nem mesmo negociadas, não fosse o suporte do governo”. Os papéis do Citibank, inflados em 2007 a até US$ 57 dólares, desabaram na quinta-feira dia 5 para US$ 1,02, chegando a ficar no meio do pregão a US$ 0,97. “Se você me dissesse no meio de 2007 que o Citi escorregaria abaixo de US$ 1, eu diria que você era um louco”, afirmou Saluzzi. Aliás, no final de fevereiro, o Citibank só se manteve à tona após anúncio de acordo com o governo Obama para transformação das ações preferenciais em mãos do Tesouro, com o bail out, em ações ordinárias, com direito a voto, o que significa assumir 36% do controle do banco, se tornando no maior acionista. Antes disso, o Citibank chegara a perder em cinco dias 44% do valor com que vinha sendo “cotado”. (Bons tempos aqueles, do auge da bolha, em 2007, quando o Citi era ‘o maior banco do mundo em valor de mercado’; ou da nossa Década Perdida, quando, do alto do Comitê dos Credores, achacava países e arrotava soluções, do FMI, para tudo).

O mesmo quadro de banco zumbi é compartilhado pelo Bank of America (BofA), que, guloso, engoliu o Merrill Lynch e sofreu indigestão braba. Na mesma semana de fevereiro em que as ações do Citibank encolheram 44%, nada menos de 32% do suposto valor do BofA foi pelo ralo. A propósito, segundo a revista inglesa “The Economist” a conversão em ações ordinárias do dinheiro que o governo dos EUA já botou nesses dois bancos, pelo “valor de mercado” de fevereiro, levaria o Estado a ser dono de “dois terços do BofA e de cerca de 80% do Citi”.

JP MORGAN: -13,99%

A primeira semana de março também abalroou o JP Morgan Chase, que tem posado de “mais sólido”, e cujo “valor” se reduziu de 13,99% após a agência de “classificação de risco” Moody’s rever para negativa a tendência do status do banco. Também foram revistas as classificações do Wells Fargo, e do Bank of America, com reduções no valor de respectivamente 16% e 11,7%. Já a AIG teve de ser levada para a UTI de novo. Se o Citibank furou a barreira da ação a US$ 1, a GM está chegando lá: na sexta-feira dia 6, sua cotação na bolsa afundou 22%, para US$ 1,45 a ação. Outros portentos da fina flor dos monopólios dos EUA deram de cara na barreira de US$ 10 a ação, como a American Express, a GE, Dow Chemical e a Alcoa.

ANTONIO PIMENTA

Proteção à indústria e controle dos bancos defendem a Índia da crise

 

Enquanto os EUA viam sua economia despencar, no quarto trimestre de 2008, em
6,2% e o Japão em 12,7%, a Índia apresentava crescimento de 5,3% em relação ao mesmo período de 2007

O governo da Índia prevê que o país crescerá de 7% a 7,5% durante o ano de 2009, com elevação do crescimento a partir do segundo trimestre. No pior trimestre (até agora) da crise econômica considerada a mais grave desde 1930, o quarto de 2008, enquanto a economia dos EUA apresentava uma contração anualizada do PIB de 6,2% e o Japão se retraía em 12,7%, a Índia apresentou crescimento de 5,3%.

O Banco de Desenvolvimento da Ásia declarou em seu mais recente relatório: “A Índia, a economia mais dinâmica do Sul da Ásia está saindo do efeito direto da crise financeira global em seus sistemas bancários e mercados financeiros”.

O articulista Heather Thimmons, do New York Times, reconheceu que o país, cujo PIB está em cerca de US$ 1,15 trilhão, tem mantido sua estabilidade econômica graças ao “sistema financeiro, dominado pelo Estado e praticamente desconectado do mercado externo”. Pouco antes, seus colegas articulistas de jornais norte-americanos e consultores de Wall Street diziam que ele impedia o crescimento mais rápido do país. O Herald Tribune, em março de 2007, queixava-se de um sistema em que “os maiores bancos foram nacionalizados em 1969, sob a primeira-ministra Indira Gandhi”.
DIRECIONAMENTO

Diana Farell da consultora Mc Kinsey Global Institute se baseava no fato de que os bancos estão obrigados a direcionar 36% (no mínimo) do total de seus empréstimos à agricultura, pequenas empresas e estatais, para afirmar que “a Índia não suporta o adiamento das mudanças em seu sistema financeiro”. Entre elas, é claro, escan-carar as portas aos bancos estrangeiros. O Herald também considerava absurdo “este sistema que direciona 70% da poupança líquida da economia ao governo e empresas estatais”.

Regulando este sistema financeiro, o Reserve Bank of India (RBI, o Banco Central do país), diante da crise, reduziu as taxas básicas de juros. Em 29 de outubro de 2008, bai-xou de 6,93% para 6,66%. Em 26 de novembro, mais uma redução deixando-a em 5,5%. Estas já haviam sido rebaixadas em 15 de setembro de 2008 e em 8 de outubro do mesmo ano.

Outro exemplo da presença estatal é o item do Orçamento de 2009 para a Agricultura que trata do Fundo para o Desenvolvimento da Infra-estrutura Rural – principal instrumento para canalizar fundos bancários para o financiamento da infra-estrutura no campo. Ele cresceu de US$ 10,7 bilhões, em 2004, para US$ 28 bilhões em 2009.

Foi com base nesse sistema financeiro, investimentos do Estado na agricultura, e em setores definidos como prioridade na industrialização e produção tecnológica – a exemplo da farmacêutica e de informática – que a Índia conseguiu apresentar, nos últimos anos, um crescimento médio de 9% ao ano, devendo ficar em 7,1% ao longo de 2008. Agora, o consultor para economia da Índia e Sudeste Asiático da Macquarie Capital, Rajeev Malik, autor do artigo “Índia: melhor do que a maioria”, reconhece que “a Índia não é tão vulnerável quanto outros países”.

Aliás, entre os que se alinhavam como arautos do neoliberalismo, já se começa a ouvir o reconhecimento de que políticas que consideravam retrógradas – como a proteção da indústria nacional – foram exatamente as que impediram o país de Mahatma Ghandi de patinar na presente crise. Como delineou Jawaharlal Nehru, sucessor de Ghandi: “É melhor produzir na Índia com dificuldade do que importar produtos estrangeiros”.

Um exemplo é a indústria farmacêutica indiana, com cerca de 20 mil fábricas, que emprega 500 mil pessoas em empregos diretos e outras 2,5 milhões em indiretos. O preço dos remédios ficou abaixo da inflação nos últimos 15 anos. O presidente da Associação das Indústrias Farmacêuticas, Nihcal Israni, declara que a auto-suficiência do país em medicamentos ultrapassa os 70%.

O analista da Comissão de Internacional de Comércio dos EUA, William Greene, destacou que “a indústria farmacêutica indiana passou, nos últimos 30 anos, de quase não existente a uma das líderes mundiais na produção de genéricos, quarta no mundo em termos de volume produzido”. Foi a Lei de Patentes da Índia, de 1970 que permitiu isso. Mesmo depois da independência, o país era um mercado assegurado para as indústrias britânicas. O arquiteto da lei, S. Vendaraman resumiu o princípio que norteou a lei: “Não somos contra as patentes, mas a Índia não suporta a submissão aos monopólios”.

Trata-se de uma economia com forte base no consumo interno que responde por 60% do PIB. O diretor para a Ásia da consultora em participações acionárias, 3i, Anil Ahuja, destacou que “enquanto países em desenvolvimento, com economias orientadas para exportação importaram problemas dos desenvolvidos, com a Índia isso não aconteceu”.
BAIXA DOS JUROS

Entre as medidas do governo para debelar a crise, além de rebaixar os juros, estão o perdão das dívidas bancárias aos pequenos agricultores e empresários, continuidade do subsídio ao petróleo e fertilizantes e aumento de salários para funcionários públicos, corte nos impostos ao consumidor e investimentos em infra-estrutura e construção de casas. Para o perdão da dívida estão direcionados US$ 20 bilhões, que podem chegar a US$ 80 bilhões. Para investimentos em infra-estrutura, US$ 195 bilhões. Também, no orçamento de 2009, está programada a construção de 600 mil casas para os agricultores pobres.

Como resumiu o secretário de Assuntos Econômicos, Ashok Chawla, “o trabalho imediato do governo é garantir que o crescimento econômico volte ao seu rumo de alto crescimento econômico. Os gastos públicos são portanto cruciais para reviver a demanda geral”.

Entre as medidas que permitem o crescimento na agricultura destacam-se a garantia de preços mínimos de produtos como o arroz aos agricultores e a segurança alimentar que inclui um Sistema de Distribuição Pública, que atingiu 22,7 milhões de toneladas de trigo e 28,5 milhões de toneladas de arroz.

No seu 11º Plano Quinquenal, que tem início em 2009, o governo busca manter o crescimento em torno dos 9%; criação de cerca de 12 milhões de empregos por ano; prover acesso universal à saúde e educação; redução da proporção de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza a menos da metade até 2014 e apoio à indústria indiana que registrou que a indústria cresceu, na consecução do plano quinquenal anterior, 9,5% ao ano, sendo que o setor de construção a 26% ao ano e o de comunicações a 13,5%.

NATHANIEL BRAIA

sábado, fevereiro 14, 2009

O Universo ainda é uma incógnita

 
Ano Internacional da Astronomia - 2009

THIJS WESTERBEEK VAN EERTEN

21-01-2009

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"O universo, seu, para descobrir...", não é um slogan para alguma agência de viagens futurísticas, mas a palavra de ordem do lançamento de 2009 como Ano Internacional da Astronomia. A sede da Unesco em Paris foi palco do início das comemorações da "celebração global da astronomia e sua contribuição à sociedade e à cultura".

Galileo Galilei aos 72 anos
de idade, retratado por
Giusto Sustermans em 1663

Há exatos 400 anos, em 1609, o astrônomo Galileo Galilei começou a observar os céus com uma novíssima invenção, o telescópio. Tinha sido inventado um ano antes por Hans Lippershey, um holandês de descendência alemã.
Verdadeira ciência
Segundo o escritor e especialista no assunto, Govert Schilling, o telescópio marcou um enorme avanço nesse campo, dando início à astronomia moderna como verdadeira ciência. Porém, ele enfatiza que o primeiro grande passo foi a percepção no século XVI de que a Terra não era o centro do universo. "Dali em diante nosso lugar dentro da enormidade do universo tem sido uma grande jornada de descoberta", declarou Schilling à Rádio Nederland.
Depois do aparecimento do telescópio, ainda ia demorar mais trezentos anos para o próximo grande passo da astronomia. Somente em 1920 a expansão do universo foi primeiramente observada. Schilling explica que "isso realmente nos colocou no caminho do Big Bang, a teoria de descrição da madrugada do universo, que demonstra que, na verdade, somos parte de uma evolução cósmica de 14 bilhões de anos."
Matéria escura
O universo é tão extenso, que mesmo após séculos de pesquisa ainda estamos começando a aprender o que há sobre o assunto, acredita Schilling. "Nas últimas décadas temos descoberto que muito do universo é feito de misteriosa "matéria escura" e a ainda mais confusa "energia escura". Ninguém realmente sabe o que isso é. "Nós, na verdade, só temos uma ideia do que se constitui o universo, além de uma pequena porcentagem que mapeamos até agora," acrescenta Schilling.
Nos últimos dez anos, astrônomos têm focado primordialmente em pesquisa exo-planetária, que são os planetas fora do nosso sistema solar. Os espetaculares avanços tecnológicos que nos permitem escanear o cosmos agora provam a existência de planetas que orbitam outras estrelas, de forma semelhante como a terra circula o sol. O maior sonho é achar um planeta semelhante ao nosso, embora qualquer planeta do tipo seria distante demais para o ser humano pesquisar.
O fato de esses exo-planetas serem tão distantes faz a gente perguntar se a astronomia tem algum uso válido. Será que todos esses bilhões de euros gastos não estão sendo desperdiçados? Para Govert Schilling a questão é clara: "A pergunta de quem somos como humanos e qual é o nosso papel no plano maior é tão importante que transcende qualquer preocupação de relevância prática. Estava na hora de termos um Ano Internacional da Astronomia."

http://www.parceria.nl/cienciaesaude/20090121-cs-astronomia

Evolução ou criação?

 

THIJS WESTERBEEK VAN EERTEN

09-02-2009

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A teoria da evolução de Darwin, publicada em 1859, deu pela primeira vez uma explicação para a riqueza de espécies na terra, a origem das plantas, dos animais e do homem. Foi um dos avanços científicos mais importantes da história e hoje incontestável entre cientistas. Mas não entre cristãos fundamentalistas, que acham que a teoria de Darwin vai contra a descrição dada pela Bíblia para o advento da criação. Nas festividades deste Ano de Darwin, estes cristãos estão preparando um ataque via folhetos e prospectos. Sua afirmação: "A Teoria da Evolução é apenas uma crença."

Charles Robert Darwin
(12-02-1809 / 19-04-1882)

Prospecto
Na Holanda, o ‘Comitê de Ação da Criação' não vai poupar esforços nem dinheiro. Quase todos os domicílios holandeses devem receber até o fim deste mês um prospecto de oito páginas pelo correio. A brochura em papel brilhante, com cores fortes e palavras inflamadas tenta desbancar Darwin e a teoria da evolução. Mas o holandês médio não está dando importância a isso:
"Não me interessa nem um pouco. Fui educado sem religião. Deixe que cada um acredite no que quiser."
"Não é possível provar nem uma coisa nem outra, então não entendo porque todo mundo perde tanto tempo com esta discussão."
"Se você for ler a Bíblia literalmente muitos outros fatos científicos teriam que ser rejeitados."
"Acho um pecado todo o papel que vai ser gasto nisto e me pergunto qual é realmente o objetivo deles."

Apresentador da tv evangélica perde a fé

Na semana passada, um apresentador da emissora evangélica da Holanda causou grande alvoroço entre seus espectadores mais conservadores. Andries Knevel, principal rosto da Evangelische Omroep, declarou na televisão que deixava sua crença no criacionismo (que diz que há seis mil anos Deus criou o céu e a terra em seis dias) para crer em uma "evolução divina" (Deus conduz há milhões de anos a evolução descrita por Darwin).

As reações nos círculos cristãos fundamentalistas foram fortes. Choveram anulações de assinantes enfurecidos com a emissora evangélica e Knevel demonstrou arrependimento pelo fato de sua "observação pessoal" ter sido confundida com a da empresa. Apesar disso, de acordo com o jornal holandês Trouw, o incidente demonstra que também em círculos cristãos fundamentalistas há abertura para interpretações diferentes da Bíblia.

Na mídia, mas também nas igrejas, a discussão entrou em pauta após o programa de Knevel. Não sobre a dúvida se Deus existe ou não, mas sobre a pergunta se Darwin e a Bíblia não querem dizer o mesmo.

Teoria?
O objetivo das trinta organizações cristãs que financiam a campanha é provar que a teoria da evolução não passa de uma hipótese, e que pode ser deixada de lado. Os fatos falam uma outra coisa, diz o estudioso de Darwin Chris Buskes da Universidade Radboud, da cidade de Nijmegen, na Holanda.

"A Teoria da Evolução é comprovada de tantas maneiras, espetacularmente comprovada. É muito difícil ter alguma dúvida. Pense em fósseis encontrados em diferentes camadas da terra, pense na herança genética, DNA, também aí vemos o nível de parentesco entre diferentes tipos de organismo. Com o chimpanzé, por exemplo, temos 99% dos genes em comum, com um cachorro, um camundongo ou uma libélula temos muito menos. Portanto, as pesquisas modernas só vêm dando mais provas para a teoria de Darwin."
Criatividade
A brochura Evolução ou Criação, com 6,6 milhões de exemplares sendo impressos, tenta também trazer argumentos científicos contra Darwin. Argumentos que demonstram muita criatividade, como o que aborda o fato de fósseis de animais grandes e mais complexos aparecerem em camadas mais superficiais, e, portanto, mais recentes, da terra: em grandes terremotos, os animais de maior porte teriam fugido para morros e montanhas - os pontos mais altos -, enquanto animais menores e mais simples não podiam correr tanto e, por isso, seus restos estão agora em camadas mais profundas.
Luta
Na verdade, a controvérsia entre cristãos fundamentalistas e partidários da evolução existe desde a publicação do livro de A Origem das Espécies. E não se pode negar: a teoria da evolução invalida a leitura literal do mito bíblico de que ‘Deus criou o universo em seis dias'. Em pleno 2009, fiéis contemporâneos ainda têm dificuldade com isso:
"Eu sou crente, e então tenho que acreditar na criação, mas como pessoa com um nível superior de educação eu preferiria aceitar a teoria da evolução, que é mais plausível."
"Bem, é bom saber que há duas possibilidades de como tudo começou."
"Acho que a teoria da evolução está comprovada, e acredito mais nisso do que na história de que Deus criou este mundo maravilhoso em seis dias."
O estudioso de Darwin, Chris Buskes, não tem nenhuma dúvida. Para ele, Darwin continua sendo o maior cientista de todos os tempos. "Tudo na biologia e tudo nas ciências naturais tem a ver com Darwin. Ele é a dobradiça que permite que tudo se encaixe, é o eixo no qual tudo gira em torno. Fenômenos biológicos só podem ser entendidos sob a luz da teoria da evolução.

A influência de Darwin hoje
Medicamentos modernos contra vírus e bactérias não seriam possíveis sem Darwin. Compreendemos hoje que agentes causadores de doenças tornam-se resistentes aos medicamentos através da evolução. Assim, os pesquisadores podem andar à frente da evolução. Sem Darwin, os antibióticos já teriam esgotado há muito tempo.
Computadores "autodidatas" - em automóveis e aparelhos - constroem o conhecimento em seu cérebro eletrônico seguindo princípios darwinistas. Eles classificam as informações em ordem de importância e descartam depois de um tempo dados não utilizados. Assim como a baleia - originalmente um animal terrestre - ao longo da evolução perdeu suas patas.
Graças a Darwin ousamos novamente aceitar que homens e mulheres realmente são diferentes. A partir dos anos 70 do século passado isso se tornou tabu no ocidente, a ideia era que o comportamento de homens e mulheres era aprendido. Pesquisas genéticas baseadas em - novamente - princípios darwinistas atualmente demonstram que há diferenças fundamentais.

http://www.parceria.nl/cienciaesaude/20090209-cs-darwin

Brasil e Índia criticam UE na OMC

 

RNW

05-02-2009

Países em desenvolvimento acusaram a União Europeia esta semana de usar leis rígidas de proteção intelectual para apreender medicamentos genéricos, colocando vidas em risco em nações emergentes, para onde estes medicamentos mais baratos em geral são destinados.

Num encontro na Organização Mundial do Comércio (OMC), Brasil e Índia criticaram a União Europeia por ter apreendido um remédio genérico para o tratamento de pressão alta que foi retido no final do ano passado pela alfândega holandesa, quando estava sendo transportado para o Brasil.

Depois de 36 dias da apreensão, a carga foi enviada para a Índia, nunca tendo chegado ao Brasil.

O embaixador do Brasil na OMC, Roberto Azevedo, disse ao cônsul geral da organização que o caso reflete uma tendência dos países industrializados de tentar interferir com as leis globais de comércio ao forçar padrões rígidos de proteção à propriedade intelectual em outras organizações, como a Organização Mundial de Aduanas e Organização Mundial da Saúde.

O incidente toca em um dos pontos mais sensíveis entre países ricos e pobres - o acesso à medicamentos de baixo custo.

O vice-ministro holandês da Economia, Frank Heemskerk, diz que a aduana holandesa agiu de acordo com as regras européias.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

"Solução neokeynesiana e novo Bretton Woods são fantasias"

 

Em entrevista à revista inglesa Socialist Review, István Mészàros, um dos principais pensadores marxistas da atualidade, analisa a crise econômica mundial e critica aqueles que apostam que ela será resolvida trazendo de volta as idéias keynesianas e a regulação. "É uma fantasia que uma solução neo-keynesiana e um novo Bretton Woods resolveriam qualquer dos problemas dos dias atuais", defende Mészàros. Para ele, estamos vivendo a maior crise na história humana, em todos os sentidos.

Judith Orr e Patrick Ward - Socialist Review

Em 1971 István Mészàros ganhou o Prêmio Deutscher pelo seu livro A Teoria da Alienação em Marx e desde então tem escrito sobre o marxismo. Em janeiro deste ano, ele conversou com Judith Orr e Patrick Ward, daSocialist Review, sobre a atual crise econômica.
Socialist Review: A classe dominante sempre é surpreendida por crises econômicas e fala delas como fossem aberrações. Por que você acha que as crises são inerentes ao capitalismo?
István Mészàros – Eu li recentemente Edmund Phelps, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em 2006. Phelps é um tipo de neokeynesiano. Ele estava, é claro, glorificando o capitalismo e apresentando os problemas atuais como apenas um contratempo, dizendo que “tudo o que devemos fazer é trazer de volta as idéias keynesianas e a regulação.”
John Maynard Keynes acreditava que o capitalismo era ideal, mas queria regulação. Phelps estava reproduzindo a idéia grotesca de que o sistema é como um compositor musical. Ele pode ter alguns dias de folga nos quais não pode produzir tão bem, mas se você olhar no todo verá que ele é maravilhoso! Pense apenas em Mozart – ele deve ter tido o velho e esquisito dia ruim. Assim é o capitalismo em crise, como dias ruins de Mozart. Quem acredita nisso deveria ter sua cabeça examinada. Mas, no lugar de ter sua cabeça examinada, ele ganhou um prêmio.
Se nossos adversários têm esse nível de pensamento – o qual tem sido demonstrado, agora, ao longo de um período de 50 anos, não é apenas um escorregão acidental de economista vencedor de prêmio – poderíamos dizer, “alegre-se, esse é o nível baixo do nosso adversário”. Mas com esse tipo de concepção você termina no desastre de que temos experiência todos os dias. Nós afundamos numa dívida astronômica. As dívidas reais neste país (Inglaterra) devem ser contadas em trilhões.
Mas o ponto importante é que eles vêm praticando orgias financeiras como resultado de uma crise estrutural do sistema produtivo. Não é um acidente que a moeda tenha inundado de modo tão adventista o setor financeiro. A acumulação de capital não poderia funcionar adequadamente no âmbito da economia produtiva.
Agora estamos falando da crise estrutural do sistema. Ela se extende por toda parte e viola nossa relação com a natureza, minando as condições fundamentais da sobrevivência humana. Por exemplo, de tempos em tempos anunciam algumas metas para diminuir a poluição. Temos até um ministro da energia e da mudança climática, que na verdade é um ministro do lero lero, porque nada faz além de anunciar uma meta. Só que essa meta nunca é sequer aproximada, quanto mais atingida. Isso é uma parte integral da crise estrutural do sistema e só soluções estruturais podem nos tirar desta situação terrível.
SR - Você descreveu os EUA como levando a cabo um imperialismo de cartão de crédito. O que você quer dizer com isso?
IM – Eu lembro do senador norte-americano George McGovern na guerra do Vietnã. Ele disse que os EUA tinham fugido da guerra do Vietnã num cartão de crédito. O recente endividamento dos EUA está azedando agora. Esse tipo de economia só avança enquanto o resto do mundo pode sustentar sua dívida.
Os EUA estão numa posição única porque tem sido o país dominante desde o acordo de Bretton Woods. É uma fantasia que uma solução neokeynesiana e um novo Bretton Woods resolveriam qualquer dos problemas dos dias atuais. A dominação dos EUA que Bretton Woods formalizou imediatamente depois da Segunda Guerra era realista economicamente. A economia norte-americana estava numa posição muito mais poderosa do que qualquer outra economia do mundo. Ela estabeleceu todas as instituições econômicas internacionais vitais com base no privilégio dos EUA. O privilégio do dólar, o privilégio aproveitado pelo Fundo Monetário Internacional, pelas organizações comerciais, pelo Banco Mundial, todos completamente sob a dominação dos EUA, e ainda permanece assim hoje.
Não se pode fazer de conta que isso não existe. Você não pode fantasiar reformas e regulações leves aqui e acolá. Imaginar que Barack Obama vai abandonar a posição dominante de que os EUA dispõe, nesse sentido – apoiada pela dominação militar – é um erro.
SR – Karl Marx chamou a classe dominante de “bando de irmãos guerreiros”. Você acha que a classe dominante vai trabalhar junta, internacionalmente, para encontrar uma solução?
IM – No passado o imperialismo envolveu muitos atores dominantes que asseguraram seus interesses mesmo às custas de duas horrendas guerras mundiais no século XX. Guerras parciais, não importa o quão horrendas são, não podem ser comparadas ao realinhamento do poder e da economia que seria produzido por uma nova guerra mundial.
Mas imaginar uma nova guerra mundial é impossível. É claro que ainda há alguns lunáticos no campo miliar que não negariam essa possibilidade. Mas isso significaria a destruição total da humanidade.
Temos de pensar as implicações disso para o sistema capitalista. Era uma lei fundamental do sistema que se uma força não pudesse ser assegurada pela dominação econômica você recorreria à guerra.
O imperialismo global hegemônico tem sido conquistado e operado com bastante sucesso desde a Segunda Guerra Mundial. Mas esse tipo de sistema é permanente? É concebível que nele não surjam contradições, no futuro?
Algumas pistas vem sendo dadas pela China de que esse tipo de dominação econômica não pode avançar indefinidamente. A China não será capaz de seguir financiando isso. As implicações e consequencias para a China já são bastante significantes. Deng Xiaoping uma vez disse que a cor do gato – seja ele capitalista ou socialista – não importa, desde que ele pegue o rato. Mas e se, no lugar da caçada feliz do rato se termine numa horrenda infestação de ratos de desemprego massivo? Isso está acontecendo agora na China.
Essas coisas são inerentes nas contradições e antagonismos do sistema capitalista. Portanto, temos de pensar em resolvê-los de uma maneira radicalmente diferente, e a única maneira é uma genuína transformação socialista do sistema.
SR - Não há em parte alguma do mundo econômico desacoplamento dessa situação?
IM- Impossível! A globalização é uma condição necessária do desenvolvimento humano. Desde que o sistema capitalista se tornou claramente visível Marx teorizou isso. Martin Wolf, do Financial Times tem reclamado de que há muitos pequenos, insignificantes estados que causam problemas. Ele argumenta que seria preciso uma “integração jurisdicional”, em outras palavras, uma completa integração imperialista – um conceito fantasia. Trata-se de uma expressão das contradições e antagonismos insolúveis da globalização capitalista. A globalização é uma necessidade, mas a forma em que é exequível e sustentável é a de uma globalização socialista, com base nos princípios socialistas da igualdade substantiva.
Ainda que não haja desacoplamento na história do mundo, é concebível que isso não signifique que em toda fase, em todas as partes do mundo, haja uniformidade. Muitas coisas diferentes estão se desenvolvendo na América Latina, em comparação com a Europa, para não mencionar o que eu já assinalei sobre a China, o Sudeste Asiático e o Japão, que está mergulhado em problemas mais profundos.
Vamos pensar no que aconteceu há pouco tempo. Quantos milagres tivemos no período do pós-guerra? O Milagre Alemão, o Milagre Brasileiro, o Milagre Japonês, o Milagre dos cinco Tigres Asiáticos? Engraçado que todos esses milagres tenham se convertido na mais terrível realidade prosaica. O denominador comum de todas essas realidades é o endividamento desastroso e a fraude.
Um dirigente de um fundo hedge foi supostamente envolvido numa farsa envolvendo 50 bilhões de dólares. A General Motors e outras estavam pedindo ao governo norte-americano somente 14 bilhões de dólares. Que modesto! Eles deveriam ter dado 100 bilhões. Se um fundo hedge capitalista pode organizar uma suposta fraude de 50 bilhões, eles devem chegar a todos os fundos possíveis.
Um sistema que opera nesse modo moralmente podre não pode provavelmente sobreviver, porque é incontrolável. As pessoas chegam a admitir que não sabem como isso funciona. A solução não é desesperar-se, mas controlá-lo em nome da responsabilidade social e de uma radical transformação da sociedade.
SR – A tendência inerente do capitalismo é exigir dos trabalhadores o máximo possível, e isso é claramente o que os governos estão tentando fazer na Grã Bretanha e nos EUA.
IM – A única coisa que eles podem fazer é advogar pelos salários dos trabalhadores. A razão principal pela qual o Senado recusou a injetar 14 bilhões de dólares nas três maiores companhias de automóveis é que não puderam obter acordo sobre a drástica redução dos salários. Pense no efeito disso e nos tipos de obrigações que esses trabalhadores têm – por exemplo, repagando pesadas hipotecas. Pedir-lhes que simplesmente passem a receber metade de seus salários geraria outros tipos de problemas na economia – de novo, a contradição.
Capital e contradições são inseparáveis. Temos de ir além das manifestações superficiais dessas contradições e de suas raízes. Você consegue manipulá-las aqui e ali, mas elas voltarão com uma vingança. Contradições não podem ser jogadas para debaixo do tapete indefinidamente, porque o carpete, agora, está se tornando uma montanha.
SR – Você estudou com Georg Lukács, um marxista que retomou o período da Revolução Russa e foi além.
IM – Eu trabalhei com Lukács sete anos, antes de deixar a Hungria em 1956 e nos tornamos amigos muito próximos até a sua morte, em 1971. Sempre nos olhamos nos olhos – é por isso que eu queria estudar com ele. Então aconteceu que quando eu cheguei para estudar com ele, ele estava sendo feroz e abertamente atacado, em público. Eu não aguentei aquilo e o defendi, o que levou a todos os tipos de complicações. Logo que deixei a Hungria, fui designado sucessor, na universidade, ensinando estética. A razão pela qual deixei o país foi precisamente porque estava convencido de que o que estava acontecendo era uma variedade de problemas muito fundamentais que o sistema não poderia resolver.
Eu tentei formular e examinar esses problemas em meus livros, desde então. Em particular em "A Teoria Alienação em Marx" e "Para Além do Capital" (*). Lukács costumava dizer, com bastante razão, que sem estratégia não se pode ter tática. Sem uma perspectiva estratégica desses problemas você não pode ter soluções do dia-a-dia. Então eu tentei analisar esses problemas consistentemente, porque eles não podem ser simplesmente tratados no nível de um artigo que apenas relata o que está acontecendo hoje, ainda que haja uma grande tentação de fazê-lo. No lugar disso, deve ser apresentada uma perspectiva histórica. Eu venho publicando desde que meu primeiro ensaio justamente substancial foi publicado, em 1950, num periódico literário na Hungria e eu tenho trabalhado tanto como posso, desde então. À medida de nossos modestos meios, damos nossa contribuição em direção da mudança. Isso é o que tenho tentado fazer ao longo de toda minha vida.
SR- O que você pensa das possibilidades de mudança neste momento?
IM – Os socialistas são os últimos a minimizar as dificuldades da solução. Os apologistas do capital, sejam eles neokeynesianos ou o que quer que sejam, podem produzir todos os tipos de soluções simplistas. Eu não penso que podemos considerar a crise atual simplesmente da maneira que o fizemos no passado. A crise atual é profunda. O diretor substituto do Banco da Inglaterra adimitiu que esta é a maior crise econômica na história da humanidade. Eu apenas acrescentaria que esta não é apenas a maior crise na história humana, mas a maior crise em todos os sentidos. Crises econômicas não podem ser separadas do resto do sistema.
A fraude e a dominação do capital e a exploração da classe trabalhadora não podem continuar para sempre. Os produtores não podem ser postos constantemente e para sempre sob controle. Marx argumenta que os capitalistas são simplesmente personificações do capital. Não são agentes livres; estão executando imperativos do sistema. Então, o problema da humanidade não é simplesmente vencer um bando de capitalistas. Pôr simplesmente um tipo de personificação do capital no lugar do outro levaria ao mesmo desastre e cedo ou tarde terminaríamos com a restauração do capitalismo.
Os problemas que a sociedade está enfrentando não surgiram apenas nos últimos anos. Cedo ou tarde isso tem de ser resolvido e não, como o vencedor do Prêmio Nobel deve fantasiar, no interior da estrutura do sistema. A única solução possível é encontrar a reprodução social com base no controle dos produtores. Essa sempre foi a idéia do socialismo.
Nós alcançamos os limites históricos da capacidade do capital controlar a sociedade. Eu não quero dizer apenas bancos e instituições financeiras, ainda que eles não possam controlá-las, mas o resto. Quando as coisas dão errado ninguém é responsável. De tempos em tempos os políticos dizem: “Eu aceito total responsabilidade”, e o que acontece? Eles são glorificados. A única alternativa exequível é a classe trabalhadora, que é a produtora de tudo o que é necessário em nossa vida. Por que eles não deveriam controlar o que produzem? Eu sempre enfatizei em todos os livros que dizer não é relativamente fácil, mas temos de encontrar a dimensão positiva.
István Mészàros é o autor do recentemente publicado "The challenge and burden of Historical Time", "Os Desafios e o Fardo do Tempo Histórico", publicado no Brasil pela Boitempo Editorial, 2007.

(*) Ambos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial.
Artigo originalmente publicado na Socialist Review

Tradução: Katarina Peixoto

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15619&boletim_id=530&componente_id=9215

terça-feira, janeiro 13, 2009

A água (que ninguém vê) na guerra

 

Na guerra do momento - Israel em Gaza -, por que a mídia não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio? Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina. Além de restringir o uso d'água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural.

Ana Echevenguá (*)

"Para além das manchetes do conflito do Oriente Médio, há uma batalha pelo controle dos limitados recursos hídricos na região. Embora a disputa entre Israel e seus vizinhos se concentre no modelo terra por paz, 'há uma realidade histórica de guerras pela água' - tensões sobre as fontes do Rio Jordão, localizadas nas Colinas de Golã, precederam a Guerra dos Seis Dias". Raymond Dwek - The Guardian, [24/NOV/2002] *
A nossa sobrevivência na Terra está ameaçada. Sem alimento, o ser humano resiste até 40 dias; sem água, morre em 3 dias. Somos água! Mas, enquanto a população se multiplica e a poluição recrudesce, as fontes de água desaparecem.
Na guerra do momento - Israel em Gaza -, por que a mídia não fala sobre a água - um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente Médio?
Oriente Médio... uma região aonde água vale mais do que petróleo... E sempre nos passam a idéia de que lá as guerras ocorrem pela conquista das reservas de petróleo.
E a conquista das reservas de água? Em 1997, o então vice-diretor geral da UNESCO, Adnan Badran, no seminário "Águas transfronteiriças: fonte de paz e guerra" (que centrou os debates nas águas do Mar Aral, do rio Jordão, do Nilo...) disse que "a água substituirá o petróleo como principal fonte de conflitos no mundo".
Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina.
Além de restringir o uso d'água, luta pela expansão do seu território para obter mais acesso e controle deste recurso natural. Ali, ele é o "dono" das:
- águas superficiais: bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão;
- águas subterrâneas: 2 grandes sistemas de aqüíferos: o aqüífero da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção sob o Estado de Israel), aqüífero de Basin e o aqüífero Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza.
Tais águas são 'transfronteiriças', recursos naturais compartilhados. Segundo recente inventário da UNESCO, 96% das reservas de água doce mundiais estão em aqüíferos subterrâneos, compartilhados por pelo menos dois países.
Há regras internacionais para o uso dessas águas. Algumas destas obrigam Israel a fornecer água potável aos palestinos.
Mas Israel não compartilha a água; afinal, tais regras internacionais não prevêem mecanismos de coação ou coerção; é letra morta. O Tribunal Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso relacionado com águas internacionais.
A estratégia de Israel é outra. Em 1990, o jornal Jerusalém Post publicou que "é difícil conceber qualquer solução política consistente com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da infra-estrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de estradas, essencial para sua operação, manutenção e acessibilidade"(1). Palavras do ministro da agricultura israelense sobre a necessidade de Israel controlar o uso dos recursos hídricos da Cisjordânia através da ocupação daquele território.
O Acordo de Paz de Oslo de 1993, por exemplo, estipulou que os palestinos deveriam ter mais controle e acesso à água da região.
Nessa época, segundo o professor da Hebrew University, Haim Gvirtzman, dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de fontes na Judéia e Samaria, os israelenses usavam quase 500 milhões, satisfazendo cerca de um terço de suas necessidades hídricas. Para ele, isso gerou um 'direito adquirido sobre a água'. Questionado sobre o acesso palestino à água, o professor respondeu:
"Israel deve somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada mais, o que significa suprimento de água para eles só para as necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinqüenta/cem milhões de metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda. Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aqüífero montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de Gaza".
E na Guerra pela Água vale tudo: os israelenses bombardeiam tanques d'água, grandes ou pequenos (muitas vezes construídos nos telhados das casas), confiscam as bombas d'água, destroem poços, proíbem que explorem novos poços e novas fontes d'água (a Cisjordânia, em 2003, contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de 2 mil). Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na Palestina exige prévia autorização.
Então, furto de água das adutoras de Israel é comum naquela região.
A regra do jogo é esta: enquanto o palestino não tem acesso à água para beber, o israelense acostumou-se ao seu uso irrestrito.
Sendo assim, dá pra imaginar uma outra forma de divisão ou de uso compartilhado desses recursos hídricos para os próximos anos? Dá pra imaginar a sobrevivência de qualquer estado e, nesse caso, da Palestina sem o controle efetivo do acesso e da distribuição dos recursos hídricos que necessita?
Botar a mão na água é coisa antiga. Britânicos e franceses no Oriente Médio definiram as fronteiras (em especial da Palestina) de olho nas águas da bacia do rio Jordão.
Desde 1948, Israel prioriza projetos, inclusive bélicos, para garantir o controle de água na região. Dentre estes:
- a construção do Aqueduto Nacional (National Water Carrier);
- em 1967, anexou os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia e tomou da Síria as Colinas do Golã, ricos em fontes de água, para controlar os afluentes do Rio Jordão. Sobre esta guerra, Ariel Sharon falou que a idéia surgiu em 1964, quando Israel decidiu controlar o suprimento d'água;
- em 2002, a construção o 'muro de segurança' viabilizou o controle israelense da quase totalidade do aqüífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Segundo Noam Chomsky, "o Muro já abarcou algumas das terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o controle de Israel sobre recursos hídrico críticos, dos quais Israel e seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem..." (2). Antes do muro, ele já fornecia metade da água para os assentamentos israelenses. Com a destruição de 996 quilômetros de tubulação de água, agora falta água para beber à população palestina do entorno do muro;
- antes de devolver (simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região. E, até hoje, não há infra-estrutura hídrica nas regiões palestinas.
Quantos falam a respeito disso?
Em 2003, na 3ª Conferência Mundial sobre Água, em Kyoto, Mikhail Gorbachev bateu na tecla dos conflitos mundiais pela água: contabilizou, na época, 21 conflitos armados que objetivavam apropriação de mais fontes de água; destes, 18 ocorreram em Israel.
Gestão conjunta, consumo igualitário de água, ética e consenso na água - palavras bonitas no papel, nas mesas de negociação, na mídia. Na prática, é utopia.
O que a ONU e os donos do planeta estão esperando para exigir que Israel cumpra as regras internacionais sobre águas mesmo que estas contidas em convenções, acordos, declarações (e outras abobrinhas)?
Quem vai ter coragem de criar regras claras e objetivas para punir a violação dos direitos dos povos e nações à sua soberania sobre seus recursos e riquezas naturais?
* Ver http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/internacional/
2002/11/23/jorint20021123004.html

(1) Do livro de Noam Chomsky: Novas e Velhas Ordens Mundiais, São Paulo, Ed. Scritta, 1996.
(2) Ver http://www.galizacig.com/actualidade/200403/
portoalegre2003_muro_humilhacao_e_roubo.htm

(*) Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas, e-mail:ana@ecoeacao.com.br, website: www.ecoeacao.com.br