Creio que educar é basicamente habilitar as novas gerações no exercício de uma visão não ingênua da realidade, de maneira que seu olhar tenha em conta o mundo, não como uma suposta realidade objetiva em si mesma, mas como o objeto de transformação ao qual o ser humano aplica sua ação. Mario Luiz Rodrigues Cobos - o Silo, "A Paisagem Humana", capítulo 'A Educação'
quinta-feira, outubro 18, 2007
Noticias da Guerra
Flávio Aguiar
Decididamente a Guerra Fria está de volta, ainda que numa versão diferente da dos tempos da extinta União Soviética, come menos ideologia e mais pragmatismo, e com novos alinhamentos.Em junho deste ano o primeiro ministro russo Vladimir Putin manifestou seu descontentamento diante da iniciativa de Washington oferecendo novas bases militares para a Polônia e a República Tcheca. Ambas as ofertas foram recebidas com entusiasmo, mas não por Moscou.
Bush declarou em Rostok que as bases tinham por objetivo cercar o Irã. Mas nas proximidades de uma coisa e da outra estão as fronteiras da Rússia e também a de algumas antigas repúblicas da finada União Soviética.
Putin ofereceu a Bush a alternativa de usar bases da Rússia, herdadas dos tempos socialistas, para criar frentes militares comuns dos EUA e da Rússia para vigiar o Irã. A proposta era o que parecia: uma alternativa para ganhar tempo, pois nada mais inverossímil do que bases comuns para os antigos inimigos na Guerra Fria.
Agora o tom subiu. Diante do reconhecimento rotundo do fracasso, ou pelo menos impasse, das intervenções do Ocidente no Afeganistão e no Iraque, e diante do também fracasso do governo norte-americano em isola-lo, o primeiro ministro iraniano Mahmoud Amadinejad sentiu-se forte o suficiente para desafiar o desafeto em sua própria casa e nos arredores: foi aos Estados Unidos e até a Bolívia, onde desenvolveu propostas de acordo em torno de questões energéticas.
Tinha razão: num salto estratégico, Putin fortaleceu-o . Visitou o Irã na segunda e na terça-feira, comprometeu-se com a construção de uma usina nuclear para o Irã no Golfo Pérsico, e declarou que a Rússia se opõe a uma intervenção militar na região, leia-se, uma invasão do Irã pelos Estados Unidos e/ou aliados. Mais: acaudilhou, nesta declaração, o Cazaquistão, o Azerbaijão (cortejado pelo OTAN para construção de bases militares) e o Turcomenistão, dando mostras para Washington de que ainda é o “capo” na região.
A resposta veio rápida: Bush deu entrevista dizendo que se o Irã conseguir armas nucleares, isso pode levar à Terceira Guerra Mundial, porque, entre outras coisas, o governo de Teerã prega a destruição do Estado de Israel. E ainda manifestou a vontade de que Putin lhe relatasse o que, afinal, aconteceu em Teerã.
Enquanto isso, em Moscou, numa espécie de “talk show” ao telefone, onde podia responder perguntas diretas pelo telefone, Putin retrucava que a Rússia retomaria a pesquisa de novas armas nucleares. Ele não especificou o que isso significava, mas aventou para a possibilidade de que elas seriam de efeitos espetaculares.Outros fatores complicam a situação:
1. Caiu como uma bomba na Europa e nos Estados Unidos a resolução do Parlamento turco autorizando o governo de Ankara a fazer incursões armadas em território iraquiano contra os curdos. O motivo alegado é a morte de duas dezenas de soldados turcos em atentados atribuídos ao Partido dos Trabalhadores Curdos, movimento que teria base em território do norte do Iraque. A resolução é também, não há dúvida, uma resposta à decisão do Senado norte-americano classificando como genocídio o massacre de armênios em 1915, ainda durante o Império Otomano, em território turco.
2. Al Gore. O premio Nobel da paz concedido a Al Gore é uma desmoralização internacional para o governo Bush, que chegou ao poder através de uma eleição de lisura contestada graças a manipulação de votos na Flórida, estado então governado pelo irmão do presidente. O fator Al Gore desestabiliza a eleição norte-americana, mas não se sabe ainda como nem para que lado. Não se sabe se fortalece Gore contra Hillary Clinton, se fortalece os democratas como um todo, se isola Obama, etc. Porque ninguém sabe ainda o que fará Al Gore depois do prêmio. Mas uma coisa é certa: esse premio empurra mais ainda a faca no pescoço do governo Bush, já internacionalmente desmoralizado, embora ainda tenha a faca, o queijo, o prato, a toalha e a mesa a seu dispor, graças ao poderio militar de que desfruta.
De todo modo, prezada leitora, prezado leitor, se está na casa dos sessenta, como eu, bem vindo de volta à Guerra Fria, agora sob nova administração. Caso seja jovem, bem vindo ao passado: ele voltou.
http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14682&boletim_id=368&componente_id=6925
sábado, outubro 13, 2007
sexta-feira, outubro 12, 2007
O horário de verão
Fome atinge 815 milhões no mundo, diz instituto
Cerca de 815 milhões de pessoas passam fome no mundo, alertou nesta sexta-feira o Instituto de Pesquisas sobre Políticas Alimentares, uma organização com sede em Washington.
O Instituto, que divulgou seu Índice de Fome Global, também alertou que 127 milhões de crianças sofrem com insuficiência alimentar no mundo.
O índice mostrou que os problemas são mais graves nos países da África subsaariana. As dez piores posições do ranking são ocupadas por países dessa região.
Outro traço comum entre eles é o histórico de guerras civis ou conflitos violentos, afirmou o relatório.
Na América Latina, o Haiti tem problemas “alarmantes” nessa área, de acordo com o indicador.
Clique aqui para ler mais sobre a situação no Brasil
Guerras e fome
O índice levou em consideração fatores como mortalidade infantil, desnutrição infantil e o número de pessoas com deficiência alimentar em 119 nações pobres ou emergentes até 2003.
Dos 12 países com as maiores pontuações no índice, nove enfrentaram guerras civis ou conflitos violentos.
MELHORES NOTAS - RANKING GERAL
Belarus – 1,59
Argentina – 1,81
Chile – 1,87
Ucrânia – 1,97
Romênia – 2,07
Fonte: Instituto de Pesquisas sobre Políticas Alimentares
“Conflitos armados agravam o problema da fome para além do seu impacto no desempenho macroeconômico dos países: combatentes frequentemente usam a fome como uma arma de guerra, cortando o fornecimento de alimentos, submetendo populações ‘inimigas’ à inanição, e capturando ajuda alimentar destinada a civis”, afirmou o relatório.
Os países do sudeste asiático registraram os piores resultados de mortalidade infantil.
No entanto, afirmou o relatório, “na maior parte da Ásia onde a Revolução Verde aumentou o fornecimento de alimentos, a fome e a desnutrição estão em queda desde os anos 80”.
Mulheres e Aids
O instituto criou uma pontuação que varia de zero a cem, em que zero é o melhor resultado.
A maioria dos países da América do Sul tem uma pontuação menor que dez, indicando problemas “moderados”. A exceção na região é a Bolívia, que está na faixa de pontuação 10-20, ou “grave”, junto com outros países centro-americanos.
PIORES NOTAS - RANKING GERAL
Burundi – 42,7
Eritréia – 40,4
Rep. Dem. Congo – 37,6
Etiópia – 36,7
Serra Leoa – 35,2
Fonte: Instituto de Pesquisas sobre Políticas Alimentares
O Haiti é o único latino-americano com pontuação maior que 20. Nessa faixa, também estão os países do sul asiático, destacou o relatório.
“Na Índia e em Bangladesh há altas taxas de desnutrição infantil. O status inferior das mulheres nos países do sul asiático e sua falta de conhecimento nutricional são determinantes importantes para a alta prevalência de crianças com baixo peso na região”, sublinhou a pesquisa.
O estudo apontou uma relação entre a Aids e a fome, já que muitos países com alta incidência do HIV tiveram resultados medíocres no ranking.
O diretor-geral do instituto, Joachim von Braun, disse que espera “mobilizar a vontade política para aumentar urgentemente o progresso na luta contra a fome nos países onde ela é pior”.
“Graças à adoção das Metas do Milênio, a fome e a pobreza saltaram para o topo da agenda do desenvolvimento global, com o objetivo de cortar a fome à metade em 2015”, ele lembrou.
Mas acrescentou: “Não podemos estar satisfeitos com apenas cortar a fome pela metade. O problema deve ser erradicado completamente.”
Brasil melhora posição em 'ranking da fome' mundial
Um índice calculado por organizações internacionais mostra que o combate à fome avançou no Brasil entre 2003 e 2004, acelerando o passo de uma fenômeno que vem se registrando desde os anos 90.
Mais clique no link acima!
terça-feira, outubro 09, 2007
A sombra do Che
Flávio Aguiar
Causou reações a reacionária matéria de capa de Veja sobre Ernesto Guevara, por ocasião destes 40 anos de sua morte, assassinado por membros do Exército boliviano a serviço dos Estados Unidos. Mas é coisa de não causar surpresa.
Tentaram, na revista, levantar o que os psicanalistas jungueanos chamariam de "a sombra" de Ernesto Guevara. Sob a égide de "destruir" um mito, pretenderam levantar tudo o que de negativo se poderia sobre a vida de um homem humano, certamente mais humano do que estes arautos do que de mais servil existe no jornalismo brasileiro.
Não conseguem. É verdade que Ernesto Guevara se transformou no mito Che. Num mito, quanto mais se bate, mais ele cresce. Porque ao contrário do que essas vulgaridades pensam, um mito não é sinônimo de uma mentira. Um mito é uma história que explica porque estamos aqui e somos assim ou assado. Um mito remonta a enigmas que não conseguimos explicar. Então temos que narrar.
Abaixo, dou cinco razões pelas quais os arautos da direita brasileira não podem suportar o mito Che. Muito mais do que a direita propriamente, porque duvido que os poderosos de fato na direita estejam hoje muito preocupados com o mito Che Guevara. Até porque nenhum – repito, nenhum – governo de hoje na América Latina está à altura do mito.
1) Che em línguas pampeanas quer dizer "homem". Em guarani quer também dizer "meu". El Che significa "o homem", "o ser humano", em linguagens que, como rios subterrâneos, nos lembram das catástrofes históricas que nos trouxeram até hoje. O nome, El Che, é uma cicatriz da história, assim como o de Zumbi, ou o de Anita Garibaldi. Com a diferença de que ele cobre o continente e hoje o mundo com sua imagem. A mera presença desse nome como dos preferidos no mundo inteiro prova que as tragédias dos povos são inesquecíveis, por mais que as queiram mergulhar no esquecimento.O nome do Che é um ícone do anjo de Walter Benjamin, aquele que segue para diante na história, mas de costas, vendo-a como uma construção de ruínas.
2) O Che foi um guerrilheiro romântico. Nada mais estranho ao mundo desses arautos do que qualquer sombra de romantismo rebelde. Eles (os arautos) tiveram que eleger o servilismo como estilo, têm que beijar a mão que os afaga ou os chicoteia conforme o gosto (o deles e o da mão). Palavras como rebeldia, entono, ousadia, energia, paixão, e outras do mesmo estilo, são verbetes em branco nos seus dicionários. O Che – que como todo o ser humano tinha qualidades, defeitos e problemas, e que como todo o mito, é mais uma lâmina de contradições do que de certezas absolutas – era alegre, era um ser voltado para a vida, não para a morte. Como podem os mortos vivos passar incólumes diante desse ser em contínua operação na história, eles que venderam a alma mas esperam poder deixar de entrega-la?
3) O Che era latino-americano. Nada mais detestável para esses arautos (e aí também para os poderosos da direita) do que a lembrança de que eles são latino-americanos. O ideal da sombra deles (a sombra é aquilo que a gente também é mas não gosta de lembrar de que é) é que o Brasil fosse uma imensa pista de aeroporto rumo ao norte, aos idolatrados shoppings centers onde se fala inglês como "língua natural" (como se isso existisse), porque é assim que eles vêm o mundo e a cultura do hemisfério norte. O fato do ícone cuja imagem é uma das mais procuradas no mundo ser a de alguém que morreu pelos povos desse continente amaldiçoado pelos poderes de todo o mundo traz pesadelos inconfessáveis para esses arautos. Pesadelos tão pesados que de manhã eles fingem nem se lembrar deles. Fingem tão fingidamente que até acreditam ser o sonhozinho de consumo em que fingidamente vivem, esses sinhozinhos das próprias palavras, a quem tratam como escravas.
4) O Che lutou pela libertação da África. E com os demais companheiros e companheiras do Exército cubano. Sem a participação de Cuba, é possível até que o regime do apartheid sulafricano pelo menos demorasse muito mais para cair. A vitória do Exército angolano, com Cuba, contra as forças sulafricanas, na batalha de Cuita Canevale foi fundamental para a queda do regime sulafricano. É verdade que as iniciativas do Che nas lutas no Congo não tiveram êxito. Não importa: como o Che é que se tornou o mito, ele carrega nas costas essa pesada carga de ser um dos ícones da solidariedade latino-americana com os povos do continente cujas costas lanhadas de sangue ajudaram a construir a nossa riqueza.
5) O Che era bonito. Aí é demais. Dispensa palavras.Tudo isso vem aliado à terrível sensação, para esses arautos, de que o mito do Che, a lembrança do personagem vivo, sobreviverá a todos eles. E que se esse mito-anjo vê a história como a construção de ruínas, eles, os arautos, são as mais expressivas da ruína humana a que se reduz o servilismo eleito como estilo.
http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3737
domingo, outubro 07, 2007
Ataques misteriosos israelenses
"Um barco norte-coreano que desaparece sem deixar vestígios na costa da Síria. Um ataque aéreo do exército israelense em território sírio. Israel, por sua vez, mantém-se calado sobre o assunto enquanto os rumores correm soltos. Quando há algum ataque israelense a territórios palestinos, Israel é o primeiro a chamar a imprensa para fazer qualquer comentário. Mas, a esta demonstração de força em território sírio seguiu-se um silêncio até então desconhecido. Porta-vozes do exército receberam a incumbência de não falar nada."
Clique no link para saber mais!
Portugal e os brasileiros - Radio Nederland, a emissora internacional e independente da Holanda - Português
Em entrevista à Radio Nederland, o diretor geral adjunto do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal, Francisco Alves, relatou a forma com que milhares de brasileiros, que já vivem em Portugal, poderão ter a sua situação legalizada oficialmente.
Enquanto algumas informações mencionavam as cifras de 14 mil, que tinham o direito a legalização, Alves disse que esses números não ultrapassavam a casa dos 11 mil.
Tudo isto devido ao acordo luso-brasileiro de Contratação Recíproca de Nacionais, conhecido em Portugal como o acordo Lula. Todos os brasileiros que entraram em território português, até a data de assinatura deste acordo, ou seja, até o dia 11 de julho de 2003, poderão se beneficiar dessas medidas.
No balanço das autoridades portuguesas, cerca de 29 mil pessoas já haviam feito um pré-registro que, na ocasião, não era obrigatório. Cerca de 18 mil já se encontram legalizadas, enquanto que os 11 mil restantes poderão, agora, pleitear pela sua regularização oficial em Portugal. Mas ele não garantiu que todos esses iriam conseguí-lo.
quinta-feira, outubro 04, 2007
segunda-feira, outubro 01, 2007
INMET - Horário de Verão
Estados que participam do horário de verão. São eles:
Distrito Federal
Espirito Santo
Goiás
Mato Grosso
Mato Grosso do Sul
Minas Gerais
Paraná
Rio de Janeiro
Rio Grande do Sul
Santa Catarina
São Paulo
quarta-feira, setembro 26, 2007
segunda-feira, setembro 24, 2007
Chuva no RS ficou entre as mais intensas no mundo
O volume de chuva no Rio Grande do Sul nos últimos sete dias ficou entre os mais altos do mundo. Os acumulados estimados por satélite da NASA indicam que apenas as regiões do subcontinente asiático que sofrem a influência das precipitações da temporada de monções tiveram acumulados superiores (clique sobre a imagem acima para ampliar). Os volumes estimados pelos satélites da NASA no Rio Grande do Sul ficaram acima, inclusive, dos acumulados pluviométricos estimados para o leste da China, onde a região de Xangai foi atingida na última semana pelo tufão (Wipha) que descrito como o mais intenso da última década na região.
Alexandre Amaral de Aguiar - 23/09/2007 22:18:29
Africom é pretensão dos EUA de controlar o petróleo do Continente
No artigo, Hunt compara a instalação do Africom com o Oriente Médio durante a década de 80, quando a transferência de petróleo do Golfo Pérsico para os EUA foi qualificada pelo governo norte-americano como de “interesse vital” ao país, chegando a afirmar que “os EUA empregaria qualquer meio necessário, inclusive força militar”, para superar qualquer tentativa de interferência na política de petróleo norte-americana.
As forças militares dos EUA aumentam o mais rapidamente possível na África Ocidental e no Sub-Saara, já que esta área se projeta como uma fonte de energia tão importante como a do Oriente Médio. Entretanto a dominação dos EUA na região é barrada devido a forte pressão do povo africano, principalmente na Nigéria, onde se encontra 70% do petróleo africano. O povo nativo da região do Delta do Níger não obtém nenhum tipo de benefício por viver em uma região de extensos depósitos de petróleo e de gás natural. O que os movimentos populares da Nigéria estão exigindo é a sua autodeterminação e que os benefícios do petróleo sejam eqüitativos para todos os nigerianos.
No primeiro semestre de 2006 foram feitos 19 ataques contra operações estrangeiras de extração de petróleo, que provocaram perdas de 2.187 milhões de dólares às multinacionais, representando 32% dos ingressos gerados neste ano no país. Os movimentos nacionalistas lutam por qualquer meio possível pelo objetivo político da autodeterminação.
As companhias petroleiras e o governo dos EUA qualificam estes grupos de resistência como “terroristas internacionais”, para legitimar o uso da força militar dos EUA e “estabilizar” a região, assegurando que a usurpação do petróleo continue.
No mês de junho, o governo dos EUA enviou uma comissão ao norte do continente africano com o intuito de encontrar um país onde o Africom possa se abriguar. Os países da África do Norte como Argélia, Líbia e Marrocos não viram a medida com bons olhos e rechaçaram a proposta norte-americana.
"Doença brasileira?" - 24/09/2007
A expressão "doença holandesa" surgiu no início dos anos 80, quando as fortes receitas de exportação de gás da Holanda valorizaram o florim, a então moeda local, derrubando as exportações dos demais produtos por falta de competitividade.
Alguns economistas acreditam que o Brasil venha passando por processo semelhante. Os preços valorizados das commodities básicas (grãos, metais, carne etc.) estariam compensando a queda das exportações nacionais de produtos industriais mais sofisticados.
Com o tempo, o risco é o Brasil, por falta de competitividade e ganhos, ir sucateando e abandonando a parcela de maior valor agregado de sua industria, que é também a que paga melhores salários.
Em tempo: na segunda-feira, uma ampla reportagem do jornal "Valor Econômico" mostrou que vários setores industriais vêm substituindo o mercado externo (de exportação) pelo interno, que está bastante aquecido. Algumas dessas companhias, no entanto, vêm diminuindo a qualidade dos produtos que fabricam para entrar com mais força entre os consumidores das classes D e E.
Em tempo 2: dados divulgados há duas semanas mostraram que, no segundo trimestre de 2007, o maior destaque do PIB foi a indústria, que cresceu 6,8%. A de transformação, mais sofisticada, liderou a alta, com evolução de 7,2%. Isso daria um sinal um tanto contraditório à tese da desindustrialização.
Durante o fórum da FGV, Bresser-Pereira disse acreditar que o governo Lula esteja praticando "populismo cambial" para segurar a inflação por meio do real valorizado, o que faz os preços de importados ficarem mais baratos. Com os juros ainda elevados atraindo dólares ao país e altos saldos comerciais sustentados pela commodities, o economista prevê um aprofundamento da "desindustrialização" em setores de maior valor agregado.
Dados do IBGE de fato mostram que ao longo dos últimos anos setores mais sofisticados da indústria perderam participação relativa no valor agregado do setor industrial, tanto internamente quanto nas exportações.
Já a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) apresentou estudo mostrando que a participação relativa do Brasil em relação ao PIB industrial de nove emergentes caiu de 15,1% para 11,8% entre 1990 e 2005. Os dados comprovariam que a desindustrialização relativa do Brasil é maior.
Mostrando as experiências de outros países, o economista André Rebelo, da Fiesp, afirmou que é normal a indústria perder terreno para outros setores, como os serviços, quando o PIB per capita atinge patamares superiores a US$ 11 mil/ano. "No Brasil, o processo começou precocemente, com o PIB per capita por volta de US$ 3.500", disse.
Uma voz discordante no debate foi a do economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário Política Econômica no governo FHC (de 1995 a 1998). Segundo ele, setores básicos como óleo, gás, minérios, grãos, carne e leite, entre outros, já representam 25% do PIB brasileiro. Na sua opinião, esses não são setores tão básicos como se poderia imaginar, já que têm agregado valor constantemente ao longo dos últimos anos.
Em um país que pratica metas de inflação e tem o câmbio livre, é muito difícil perseguir outro patamar para o dólar, diferente do estipulado pelo mercado (Bresser julga que deveria ser algo próximo de R$ 2,80, e não dos R$ 1,90 atuais). Medidas diferentes, consideradas por alguns "heterodoxas", teriam de ser adotadas para desvalorizar o real.
O assunto é interessante e complexo, além de ser fundamental para o país pensar a respeito do tipo de indústria, emprego e desenvolvimento que pretende ter no futuro.
Mas o fato é que ainda parecem existir muitos sinais trocados em relação ao tema. Especialmente neste momento, quando o mercado de consumo interno começa a ganhar novo fôlego, seja pela recuperação relativa da renda quanto pelo aumento do crédito.
Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha.
Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Escreve semanalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. E-mail: fcanzian@folhasp.com.br
domingo, setembro 16, 2007
GAÚCHOS OU GAUCHOS?
"Ele anda sempre fugindo. Sempre pobre e perseguido; não tem cova nem ninho como se fora um maldito, porque ser gaúcho....ser gaúcho é delito." José Hernández - Martín Fierro, 1872
Os versos de Martín Fierro demonstram a visão dominante sobre o gaucho pampeano nos idos de 1850. O gaúcho era o paria do campo. Aquele que não se curvava às mudanças econômicas e sociais advindas de um arremedo de capitalismo provinciano que se iniciava na pampa gaúcha neste momento.
Em razão disso, setores das oligarquias da época chegaram a dizer que para que houvesse civilização na América seria necessário, em primeiro lugar, derrotar o gaúcho. Iniciou-se assim uma disputa político-cultural sobre o modelo de civilização que seria adotado. Este embate deu-se de forma muita clara na Argentina através do personagem Martín Fierro e de seus opositores. No entanto, no Rio Grande do Sul o embate foi o mesmo, porém, talvez tenha tido contornos velados.
Os contrários aos gaúchos defendiam um modelo de civilização idêntico ao da Europa, ou seja, deveríamos ser "clones" da Europa. Um presidente argentino, Domingo Faustino Sarmiento, chegou a defender a idéia de que fossem importadas pessoas da Europa para que o país progredisse. É evidente que esse tipo de manifestação provocou a rebeldia dos setores populares, que encontraram na obra de José Hernández o personagem que representava os excluídos da época: Martín Fierro. Portanto, defender os gaúchos era defender aqueles que estavam alijados do processo político e despossuidos de propriedade.
Alisson Ferronato dos Santos
Sociedade Botucaraí Pró-Cultura
Renda do brasileiro cresce 7,2%, diz IBGE
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2006, divulgada ontem pelo IBGE, comprovou aumento na renda do brasileiro. De 2005 para 2006, chegou a 7,2%, representando uma renda média de R$ 883,00 por mês. Foi o maior crescimento desde 1995. Um dos fatores determinantes para esse crescimento foi o ganho real do salário mínimo, de 13,3% em 2006, frente a 2005. No Rio Grande do Sul, a média mensal chegou a R$ 946,00 em 2006. Em 2005, era de R$ 895,00.
Os homens continuam dominando o mercado de trabalho. A taxa de atividade - relação entre as pessoas economicamente ativas e as que estão ocupadas - chega a 72,9% entre os homens e fica em 52,6% entre as mulheres. O RS acompanha a tendência brasileira, com uma taxa de atividade de 75,3% entre os homens e de 58,6% entre as mulheres.
Segundo o supervisor estadual da pesquisa, Riovaldo Alves de Mesquita, também chama a atenção o fato de, no RS, 13,3% das pessoas com faixa etária entre 10 e 14 anos estarem ocupadas, o que é considerado trabalho infantil. 'No Rio Grande do Sul, o trabalho infantil está mais concentrado na área rural e tem a ver com a estrutura de ocupação do Estado. É uma questão cultural e não quer dizer que a criança não esteja estudando ou que trabalhe o dia inteiro', esclareceu. Além disso, no RS, como se repete na maioria dos outros estados, a taxa de atividade de 15 a 17 anos e 60 anos ou mais é menor do que em outras faixas etárias. Tanto homens quanto mulheres têm maior taxa de atividade de 25 a 29 anos e de 30 a 39 anos.
O estudo aponta que o desemprego no Brasil é maior entre mulheres em qualquer faixa etária analisada. Elas são maioria na população desocupada (57%). A sua inserção no mercado tem sido cada vez mais expressiva. Em 2006, elas somavam 42,6 milhões, com a participação crescendo de 43,5% em 2005 para 43,7% em 2006. Na região Sul, a participação subiu de 44,6% para 45% em 2006.
Há um alto índice da força de trabalho do país na informalidade. No RS, o índice de não-contribuintes da Previdência é menor entre os homens, 45,6% contra 49%. No Brasil, as mulheres somam 52,3%. Além disso, 41,3 milhões de trabalhadores contribuíram para a Previdência no país, ou seja, mais da metade da população ocupada não está sob as garantias previdenciárias. Outro dado significativo da pesquisa é que a participação da atividade agrícola na população ocupada caiu significativamente em todas as regiões. No Sul, o percentual caiu de 22,1% em 2005 para 21,2%.
31,9% das gaúchas chefiam as suas famílias
O número de mulheres chefes de família está aumentando no país e no Estado. O dado pode ser confirmado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2006, divulgada ontem pelo IBGE. No país, o percentual de mulheres responsáveis pela família chegava a 30,6% em 2005, já no ano passado esse índice saltou para 31,4%. No Rio Grande do Sul, o índice era de 31,9% em 2006 e 29,2% no ano anterior. Assim como no país, o número de homens chefes de família no Estado, apesar de ainda ser maior, está diminuindo ao longo dos anos. Em 2005 era de 70,8%, caindo para 68,1% em 2006.
Em relação aos domicílios brasileiros, a Pnad apontou o alto índice de residências com serviços, como rede geral de abastecimento de água (83,2%), rede coletora de esgoto ou fossa séptica (70,6%), coleta de lixo (86,6%), iluminação elétrica (97,7%) e telefone (74,5%). No RS, os índices são maiores, com destaque para iluminação elétrica (99,1%) e telefone (89,5%). Quanto aos bens das residências, o fogão é o que mais está presente nas casas brasileiras (97,7%), seguido da televisão (93%), geladeira (89,2%) e rádio (87,9%). O computador está restrito a 22,1% das casas do país a 25,5% das casas gaúchas.
Persiste a tendência de envelhecimento
A tendência de envelhecimento populacional persistiu no país em 2006, movimento acentuado nas regiões Sul e Sudeste. Nessas regiões, a diferença entre as participações das pessoas de zero a 9 anos e de 40 anos ou mais no total da população supera 20 pontos percentuais. Na média nacional, chega a 15,8 pontos. A taxa de fecundidade ficou em 2 nascimentos por mulher, ante 2,1 em 2005. O IBGE investigou 800 municípios no país e 75 no Rio Grande do Sul.
RS: apenas 3,8% dos habitantes de fora
A pesquisa do IBGE revela que, no Estado, a maioria da população residente se concentra na faixa etária dos 40 aos 59 anos (25,7%), seguida por pessoas entre 25 e 39 anos (21,9%). A população idosa (60 anos ou mais) é de 12,4%. O supervisor estadual da pesquisa, Riovaldo Alves de Mesquita, aponta que, no RS, só 3,8% dos habitantes não são naturais do Estado, ante 4,4% em 2005. A média nacional é de 16%. 'No Distrito Federal, mais da metade da população não é natural da região, com taxa de 51,8%', citou.
CORREIO DO POVO PORTO ALEGRE, SÁBADO, 15 DE SETEMBRO DE 2007
domingo, setembro 09, 2007
BUSH ESTÁ AFUNDANDO A GRANDE POTÊNCIA
JURANDIR SOARES
Não bastassem os ataques diários da insurgência, Bush sofreu mais um revés no Iraque - e mais significativo. O Reino Unido, seu principal aliado, acaba de determinar a saída de suas forças da província de Basra. Os 500 militares que estavam no palácio de Basra juntam-se aos outros 5,5 mil soldados britânicos em processo de retirada. Oficialmente, o controle de Basra será repassado às forças iraquianas. O primeiro-ministro Gordon Brown disse que a medida foi planejada havia meses e que as tropas britânicas estariam disponíveis para auxiliar as iraquianas. No entanto, relatório do International Crisis Group revela que os ataques incessantes contra os britânicos causaram, inicialmente, sua saída das ruas e, agora, marcam a saída da região. A passagem do controle para tropas iraquianas é considerada ficção, porque Basra ficará sob o domínio das milícias xiitas. Assim, diz o relatório, os moradores vêem isso não como uma retirada, mas como uma derrota vergonhosa. Outro problema para Bush: na quarta-feira, ele foi desmentido por um de seus mais importantes ex-assessores, Paul Bremer, o primeiro interventor dos EUA no Iraque. Tudo porque foi lançado o livro 'Dead certain' ou 'Absolutamente convicto', de Robert Draper, uma biografia autorizada do presidente. No livro, Bush afirma que o plano original 'era manter o Exército do Iraque intacto, mas isso não aconteceu'. Deu a entender que a ordem para desmantelar o Exército de Saddam não partiu dele. Bremer juntou cartas que trocara com Bush e as enviou para o The New York Times, mostrando que a Casa Branca sabia dos planos para dissolver as estruturas militares e de inteligência do Iraque. A decisão é apontada como um dos mais graves erros dos EUA e parcialmente responsável pela explosão de ataques sectários e rebeliões.
Correio do Povo Porto Alegre - RS - Brasil
Soja transgênica: tudo contra
Autorizar soja transgênica só pode trazer prejuízo ao Brasil. Contas mirabolantes e dados confusos: este é o balanço da argumentação favorável à liberação do produto no Brasil. Nada autoriza a pensar que ela seja mais produtiva ou econômica do que a soja tradiiconal.
Jean Marc von der Weid*
O jornal "O Estado de São Paulo" publicou há algumas semanas, com grande destaque, matéria onde afirmava que o Brasil perdeu 26 bilhões de reais desde 1996 por não ter liberado a produção comercial de transgênicos já a partir daquele ano. A matéria está baseada em estudo da empresa de consultoria econômica Céleres, de Minas Gerais, e causou total incredulidade a quem acompanha o tema, pois nem os propagandistas mais ferrenhos ousaram, até então, afirmar cifras tão gigantescas.
domingo, setembro 02, 2007
Terra incógnita
A solidão de Bush, o fracasso dos falcões e o desinchar das bolhas econômicas norte-americanas redefinem a política norte-americana e mundial.
Ainda que lhe falte mais de um ano para abandonar a Casa Branca, a situação atual de Bush é a de um presidente em estado terminal. O fustigamento parlamentar da oposição aumenta a cada semana, seus aliados republicanos vão-no abandonando um após o outro, seu assessor estrela Karl Rove desertou, a bolha imobiliária continua a desinchar assinalando um futuro obscuro para a economia norte-americana e provocando sucessivas sacudidas bursáteis globais. O seu companheiro de aventuras, Tony Blair, deixou o cargo de primeiro-ministro na Grã-Bretanha – o que em Washington gera crescentes temores acerca de um possível deslizamento dos ingleses em direção à União Europeia, enfraquecendo seus laços atlânticos e tomando distância da estratégia euro-asiática dos falcões [1]. Além disso, começaram a circular declarações de funcionários e "filtrações" midiáticas quanto a cenários elaborados no Pentágono de retirada rápida das tropas estado-unidenses do Iraque [2]. Nesse nível e no conjunto do sistema de poder dos Estados Unidos já quase ninguém põe em dúvida o fracasso da aventura iraquiana e enquanto o setor mais extremista dos falcões sonha com algum ”golpe de força” milagroso dentro do Iraque ou por meio de um ataque contra o Irã, o Império esboça recuos que lhe permitam preservar a sua presença no Oriente Médio. As vendas maciças de armas aos regimes amigos da região é um dos meios empregados. O governo estado-unidense acaba de acordar vendas de 20 bilhões de dólares aos estados do Golfo (incluídos 10 bilhões para a Arábia Saudita), 30 bilhões de dólares para Israel e 13 bilhões de dólares para o Egito. Combinando ”interesses estratégicos” dos Estados Unidos e interesses comerciais das empresas beneficiadas com essas vendas [3], obviamente os funcionários envolvidos no negócio receberão as "recompensas" correspondentes (curiosa mistura de corrupção e fanatismo imperialista).
Também poderíamos abordar o tema na óptica da deformação "financeira" da realidade, que gera imagens fantasiosas em que enormes massas de fundos derrubam todos os muros culturais e políticos.
27/Agosto/2007
Notas(1) John Bolton, "Britain can't have two best friends",Financial Times,July 31 2007.

