sexta-feira, julho 02, 2010

O discurso que permanece gravado nos corações e nas mentes dos congoleses

Patrice Lumumba

Oferecemos aos nossos leitores a íntegra, traduzida do texto em francês, do discurso de Patrice Lumumba no dia da independência do Congo, 30 de junho de 1960.
O Movimento Nacional Congolês (MNC), preocupado com a unidade política do país, estabelecera, para formar o governo após a independência, aliança com outros partidos - o principal deles era a ABAKO (Alliance des Bakongo), apesar de, ao contrário do MNC, que tinha como programa a superação das divisões tribais, esse outro partido, sempre bastante conciliador em relação ao colonialismo belga, ser, até mesmo no nome, um grupo tribal.
Ao líder da ABAKO, Joseph Kasavubu, caberia a Presidência do Congo, enquanto o MNC, com sua maioria parlamentar, indicaria o primeiro-ministro - Patrice Lumumba.
No entanto, o primeiro-ministro foi excluído da lista de oradores na cerimônia oficial, com a presença do rei Baudoin, da Bélgica. Apenas Kasavubu falaria – e, após o arrogante pronunciamento do rei, fez o que alguém já chamou de “discurso de lacaio”.
Então, Lumumba levantou-se e ninguém o impediu de falar. Pronunciou o que é um dos grandes monumentos oratórios da Humanidade. Ao contrário de Kasavubu, não dirigiu-se ao rei, exceto ao final, tratando-o pelo genérico “Sire”, ao invés de “Majestade”. Preferiu dirigir-se aos seus compatriotas.
O discurso de Lumumba não é, em nenhum momento, histérico ou inábil politicamente – inclusive, como o leitor verá, em relação à Bélgica. Mas, também, nem por um momento é submisso.
Nesta página, republicamos, ao lado desse discurso, o último escrito de Lumumba, sua carta à esposa, Pauline, quando já estava preso e sob quase constante tortura.
Não faremos mais comentários sobre estes documentos, pois o leitor poderá fazer por si próprio o seu julgamento.
Resta, ainda, contar, embora muito sucintamente, o final – até agora - desta epopeia:
1) Kasavubu pagaria muito caro pela traição a Lumumba: depois de ceder completamente aos colonialistas belgas e imperialistas norte-americanos, foi deposto em 1965 por Mobuto, apoiado e instrumentalizado pela CIA. Kasavubu passaria quatro anos numa terrível “prisão domiciliar” e morreria por falta de cuidados médicos.
2)  Pierre Mulele, ministro da Educação de Lumumba, terceiro nome na lista da CIA para ser eliminado, liderou, a partir do final de 1963 até 1968, a luta armada conhecida como a Revolta dos Simbas (leões, na língua swahili). Exilado em Brazzaville, na República do Congo (ex-Congo francês), foi obrigado a voltar a Kinshasa, depois que Mobuto assinou um acordo com esse país, garantindo “anistia” para Mulele e seus companheiros. O próprio ministro do Exterior de Mobuto foi a Brazzaville para acompanhar Mulele em seu retorno, como suposta demonstração de que a anistia seria respeitada. Ao chegar a Kinshasa, Mulele foi preso, torturado publicamente e, ainda vivo, esquartejado. Apesar dos sofrimentos inauditos, que nos poupamos de descrever, Mulele manteve até a morte aquela rara dignidade referida por todos aqueles que o conheceram. Hoje, a avenida principal de Kinshasa tem o nome de Pierre Mulele.
3) A ditadura de Mobuto foi derrubada em 1997, pelo levante liderado pelo presidente Laurent Kabila.
4) Pauline Lumumba e seus filhos voltaram ao Congo depois da derrubada da ditadura e hoje participam da vida política congolesa.
5) Antoine Gizenga, vice-primeiro-ministro de Lumumba e segundo na lista de eliminação da CIA, liderou a resistência logo após o assassinato, saindo do país após a queda de Stanleyville (hoje, Kisangani). Depois de derrubada a ditadura, Gizenga voltou ao Congo e foi primeiro-ministro do presidente Joseph Kabila; hoje é líder do Partido Lumumbista Unificado (PALU) e herói nacional do país.
6) As ideias de Lumumba são hoje a principal referência do movimento de independência nacional dos países africanos.
7)  O Congo, apesar de todas as dificuldades, após a derrubada de Mobuto, resistiu à recolonização – e continua a trajetória daquela “luta sublime” que Lumumba apontou em seu discurso do dia da independência.
C.L. - Hora do Povo
PATRICE LUMUMBA
Congoleses e congolesas,
Combatentes hoje vitoriosos da independência,
Eu vos saúdo em nome do governo congolês.
A todos vocês, meus amigos, que lutaram sem descanso ao nosso lado, peço que façam deste 30 de junho de 1960 uma data ilustre e que a guardem indelevelmente gravada em seus corações, uma data que vocês ensinarão, com orgulho, aos seus filhos o significado, para que eles façam conhecer aos seus filhos a história gloriosa da nossa luta pela liberdade.
Pois esta independência do Congo, se hoje é proclamada com a concordância da Bélgica, país amigo com quem tratamos de igual para igual, nenhum congolês digno deste nome jamais poderá esquecer, foi conquistada pela luta, uma luta de todos os dias, uma luta ardente e idealista, uma luta na qual não poupamos nem nossas forças, nem nossas privações, nossos sofrimentos, nem nosso sangue.
Desta luta, que foi de lágrimas, fogo e sangue, estamos orgulhosos até ao mais profundo de nós mesmos, pois foi uma luta nobre e justa, uma luta indispensável para por fim à humilhante escravidão que nos era imposta pela força.
Qual foi a nossa sorte durante 80 anos de regime colonial, as nossas  feridas estão ainda muito frescas e muito dolorosas para que nós possamos removê-las da nossa memória; nós conhecemos o trabalho exaustivo, exigido em troca de salários que não nos permitiam nem comer para matar a nossa fome, nem nos vestir ou morar decentemente, nem criar nossos filhos como seres amados.
Nós conhecemos as ironias, os insultos, as pancadas que devíamos suportar, de manhã, de tarde e de noite, porque éramos negros.
Quem esquecerá que a um negro se dizia “tu”, certamente não como se diz a um amigo, mas porque o respeitável “vous” era reservado somente aos brancos?
Nós conhecemos a pilhagem de nossas terras, espoliadas em nome de textos pretensamente legais que não faziam mais do que reconhecer o direito do mais forte.
Nós conhecemos o que era a lei não ser a mesma, caso se tratasse de um branco ou de um negro, confortável para uns, cruel e desumana para os outros.
Nós conhecemos os sofrimentos atrozes dos que foram degredados por opiniões políticas ou por crenças religiosas, exilados em sua própria pátria, com sorte pior do que a morte.
Nós conhecemos o que era haver casas magníficas para os brancos e palhoças miseráveis para os negros, ou, nas lojas ditas europeias, um negro nem poder entrar, ou, nas barcaças, um negro viajar como um galináceo, aos pés do branco em sua cabine de luxo.
Quem esquecerá, enfim, os fuzilamentos onde pereceram tantos de nossos irmãos, as masmorras onde foram brutalmente atirados aqueles que não queriam mais se submeter ao regime de injustiça, opressão e exploração?
Tudo isso, meus irmãos, nós temos sofrido profundamente. Mas, também, tudo isso, nós, que fomos escolhidos, pelo voto dos seus representantes eleitos, para governar o nosso amado país, nós, que sofremos em nosso corpo e em nosso coração a opressão colonialista, dizemos a vocês, em voz alta: tudo isso finalmente acabou.
A República do Congo foi proclamada e o nosso querido país está agora nas mãos dos seus próprios filhos. Juntos, meus irmãos, minhas irmãs, começaremos uma nova luta, uma luta sublime que levará o nosso país à paz, à prosperidade e à grandeza.
Juntos, nós vamos estabelecer a justiça social e assegurar que cada um receba a justa remuneração por seu trabalho.
Mostraremos ao mundo o que pode fazer o homem negro quando trabalha em liberdade, e faremos do Congo o centro de iluminação de toda a África.
Nós vigiaremos para que as terras de nossa pátria tragam benefícios verdadeiramente para seus filhos.
Nós vamos rever todas as leis de outrora e fazer novas, que serão justas e nobres. Nós vamos pôr fim à opressão do pensamento livre e fazer com que todos os cidadãos gozem plenamente das liberdades fundamentais previstas na Declaração dos Direitos do Homem.
Nós vamos suprimir eficazmente toda discriminação, seja ela qual for, e dar a cada um o justo lugar que merece sua dignidade humana, seu trabalho e sua dedicação ao país.
Nós faremos reinar, não a paz dos fuzis e das baionetas, mas a paz dos corações e da boa vontade.
Para tudo isto, queridos compatriotas, podem estar seguros de que poderemos contar não somente com as nossas enormes forças e as nossas imensas riquezas, mas também com a ajuda de numerosos países estrangeiros, cuja colaboração, sempre que for leal e não procurar nos impor uma política, seja ela qual for, aceitaremos sempre.
Nesse domínio, a Bélgica, que compreende enfim o sentido da História, não tentando opor-se à nossa independência, está disposta a conceder-nos sua ajuda e amizade, e um tratado foi assinado nesse sentido entre nossos dois países iguais e independentes.
Essa cooperação, estou seguro, será vantajosa para os dois países. De nosso lado, mantendo-nos alertas, saberemos respeitar os compromissos livremente consentidos.
Assim, tanto interna quanto externamente, o Congo, nossa querida república que meu governo irá criar, será um país rico, livre e próspero.
Mas, para que cheguemos sem atraso a esse objetivo, peço a todos, legisladores e cidadãos congoleses, que me ajudem com todas as suas forças.
Peço a todos que esqueçam as querelas tribais que nos esgotam e que nos fazem correr o risco de sermos desprezados no exterior. Peço à minoria parlamentar que ajude meu governo com uma oposição construtiva, ficando estritamente dentro das vias legais e democráticas.
Peço a todos que não recuem diante de nenhum sacrifício para assegurar o ressurgir da nossa grandiosa tarefa. Peço a todos, finalmente, que respeitem incondicionalmente a vida e os bens de seus concidadãos e dos estrangeiros estabelecidos em nosso país.
Se a conduta desses estrangeiros deixar a desejar, a nossa Justiça estará pronta a expulsá-los do território da República; se, pelo contrário, sua conduta é boa, é preciso deixá-los em paz, pois também eles trabalham para a prosperidade de nosso país.
A independência do Congo é um passo marcante para a libertação de todo o continente africano.
Eis o que, Sire, Excelências, minhas senhoras e meus senhores, meus queridos compatriotas, meus irmãos de minha raça, meus irmãos de luta, eu queria dizer-lhes, em nome do governo, neste dia magnífico de nossa independência completa e soberana.
Nosso governo forte, nacional, popular, será a salvação deste país. Convido todos os cidadãos congoleses, homens, mulheres e crianças, a irem resolutamente ao trabalho para criar uma economia nacional próspera que consagrará nossa independência econômica.
Homenageemos os combatentes da liberdade nacional!
Viva o Congo independente e soberano!

O testamento de Lumumba
Carta escrita da prisão à sua mulher Pauline Lumumba
Minha querida companheira, escrevo-te estas palavras sem saber se receberás e se ainda estarei vivo quando as receberes.
Durante toda a minha vida, pela independência do nosso país, nunca duvidamos um instante do triunfo final por causa sagrada a que os meus companheiros e eu consagramos a nossa vida. Mas o que queríamos para o nosso país, o direito a uma vida honrada, a uma dignidade sem compromissos, a uma independência sem restrições, o colonialismo belga e os seus aliados ocidentais, que encontraram apoio direto nas Nações Unidas, esse organismo em que depositamos toda a nossa confiança uma vez que tínhamos apelado para a sua assistência, nunca o quiseram.
Corromperam alguns dos nossos compatriotas, compraram outros, contribuíram para a deformação da verdade e para sabotar a nossa independência. Que mais posso fazer? Que eu esteja morto ou vivo, livre ou prisioneiro por ordem dos colonialistas, não é a minha pessoa que conta, mas o Congo, o nosso pobre país, cuja independência transformaram numa triste farsa. Mas a minha fé permanecerá inabalável.
Sei e sinto do fundo do meu ser que cedo ou tarde o meu povo se desembaraçará de todos os seus inimigos internos e externos, que levantará como um só homem para dizer «NÃO» ao colonialismo degradante e humilhante e para instaurar a sua dignidade sob um sol brilhante.
Nós não estamos sós. A África, a Ásia e os povos livres e libertados de todos os cantos do Mundo estarão sempre ao lado dos milhões de congoleses que não terminarão a sua luta enquanto os colonialistas e os seus mercenários se mantiverem no nosso país.
Aos meus filhos, que deixei, para talvez não os tornar a ver, quero que digam que o futuro do Congo é belo e que espera deles e de todos os congoleses a realização do seu dever sagrado de reconstruir a nossa independência e a sua soberania, porque sem dignidade não há liberdade; sem justiça não há dignidade e sem independência não há homens livres.
A brutalidade, as sevícias, as torturas nunca me levaram a implorar pela vida, porque prefiro morrer de cabeça levantada, com a fé indestrutível e a confiança profunda no destino do nosso país, a morrer na submissão, tendo renegado os princípios que nos são sagrados.
A história pronunciará um dia o seu julgamento, mas não será a história que se ensinará em Bruxelas, em Paris, em Washington ou nas Nações Unidas; será a que se ensinará nos países humilhados pelo colonialismo e pelos seus fantoches.
A África escreverá a sua própria história e esta será do norte ao sul do Saara, uma história de glória e de dignidade.
Não chores, companheira. Eu sei que o meu país que tanto sofre saberá defender a sua independência e liberdade.
VIVA O CONGO!
VIVA A ÁFRICA!
Prisão de thysville (Atual Mbanza–Ngungu).
Patrice Lumumba.



O assassinato de Patrice Lumumba 
“Nous ne sommes plus vos singes” (“Nós não somos mais vossos macacos”), disse o primeiro-ministro do Congo, Patrice Lumumba, ao rei Baudoin, da Bélgica, no dia da independência do país, 30 de junho de 1960.
Baudoin, nesse dia, proferira um dos mais arrogantes discursos já ouvidos de um colonizador. Na então Leopoldville (hoje, Kinshasa), o rei belga fizera uma elegia à “genialidade” de seu tio-avô, Leopoldo II – que em 1885, por cima até do Estado belga, tornara o Congo uma fazenda pessoal, com sua população como escravos.
O discurso de Lumumba foi um dos mais irrecorríveis libelos já pronunciados contra a escravidão, o racismo e o colonialismo – que em breve iremos publicar.
Assim nascia, há 50 anos, a República Democrática do Congo. Um país que teve a independência liderada por um homem como Patrice Lumumba – um dos maiores que já existiram – e que conseguiu sobreviver aos colonialistas belgas, aos imperialistas norte-americanos, e a Mobuto, está, certamente, destinado a um grande papel na História da Humanidade.
O texto que publicamos nesta página saiu originalmente em nossa edição de 7 de novembro de 2003. Para a republicação de agora, reescrevemos, para maior clareza, alguns trechos, revisamos a base documental, acrescentamos algumas informações e corrigimos um problema factual – a verdadeira identidade de Joseph Scheider, agente da CIA que depôs na Comissão Church, enviado a Leopoldville para envenenar Lumumba.


CARLOS LOPES 


Até hoje o conjunto dos documentos sobre a ação do governo dos EUA para assassinar o líder da independência do Congo e primeiro-ministro do país, Patrice Lumumba, não foram liberados. No entanto, em 1975, o relatório da comissão presidida pelo senador Frank Church revelou o conteúdo da maior parte deles.
Após Watergate e o arrombamento do consultório do psicanalista de Daniel Ellsberg - que havia divulgado a documentação secreta sobre o Vietnã conhecida como “Papéis do Pentágono” - o escândalo da ação ilegal da CIA dentro dos EUA fez com que Gerald Ford, que sucedera Nixon, instalasse uma comissão de inquérito, sob a chefia de Nelson Rockefeller. Era uma investigação de fancaria – Rockefeller, durante o governo Eisenhower, tinha sido o mentor das operações encobertas da CIA.
Porém, as informações começaram a vazar. Daí, a investigação do Congresso, que levou à demissão de William Colby, diretor-geral da CIA (e à nomeação de seu sucessor, George H. Bush, indicado por Nelson Rockefeller).
Colby fora um dos maiores assassinos da CIA durante quase 30 anos. Após sua demissão da CIA, tornou-se pacifista – em especial, ativista anti-guerra nuclear. Em 1996, Colby desapareceu, durante um trajeto de caiaque. Seu corpo foi encontrado nove dias depois – o inquérito subsequente concluiu que ele sofrera um infarto enquanto remava, caindo fora do caiaque e afogando-se.
No início de seus vários depoimentos no Congresso, Colby parecia querer reconhecimento pelos crimes da agência. Bem antes da Comissão Church, em 1971, ao lhe ser perguntado se era verdade que o Programa Phoenix - concebido e dirigido por ele no Vietnã - assassinara 60 mil “suspeitos” de serem “ativistas comunistas”, Colby respondeu que não, que os assassinados tinham sido “entre janeiro de 1968 e maio de 1971”, precisamente, 20.587 vietnamitas.
O deputado Ogden Reid, então republicano de Nova Iorque, um ex-embaixador dos EUA, perguntou: “Você está seguro de que sabemos distinguir uma pessoa leal ao Vietcong da coletividade de cidadãos do Vietnã do Sul?”.
Colby: “Não”.
Reid insistiu: “Você declararia peremptoriamente que o [Programa] Fenix nunca perpetrou matança premeditada de civis não-combatentes?”.
Resposta de Colby: “Não, eu não poderia dizer isso... Eu certamente jamais diria isso”.
Em suas memórias – que têm o título de “Homens de Honra” - Colby afirma que “a CIA nunca matou alguém por si própria”, isto é, sem ordem superior – sem ordem do presidente dos EUA, única autoridade acima da CIA. Todas as provas mostram que a afirmação é verdadeira. Naturalmente, com uma exceção: quando a vítima foi o próprio presidente. 

EISENHOWER

O assassinato de Lumumba é o primeiro dos assassinatos de líderes políticos pela CIA relatado pela Comissão Church:
“A comissão coletou sólida evidência de uma conspiração para assassinar Patrice Lumumba. A forte hostilidade para com Lumumba, proclamada pelos mais altos níveis do governo, pode ter tido a intenção de iniciar uma operação de assassinato; no mínimo, ela engendrou tal operação. A evidência indica que é provável que a forte inquietação que o presidente Eisenhower expressou sobre Lumumba na reunião do Conselho de Segurança Nacional de 18 de agosto de 1960 foi tomada por Allen Dulles[diretor da CIA e irmão do secretário de Estado de Eisenhower, Foster Dulles] como uma autorização para assassinar Lumumba. Nota da Comissão Church: “De fato, um membro do Conselho presente à reunião de 18 de agosto acredita que testemunhou uma ordem presidencial para assassinar Lumumba” (United States Senate, Select committee to study governmental operations with respect to intelligence activities, “Interim Report: III. Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders”, pág. 13).
Realmente, não se tratava de uma “autorização”, eufemismo adotado, como outros - segundo as memórias de Colby - devido à pressão da CIA. Todos os testemunhos constantes do relatório demonstram que Eisenhower ordenou o assassinato de Lumumba.
Patrice Lumumba viajara a Washington no mês anterior à ordem de Eisenhower. Recebera algumas “ofertas de ajuda” do governo americano. No entanto, o primeiro-ministro do Congo não estava disposto a ver - num dos países de maiores riquezas naturais do mundo, inclusive a maior reserva de urânio da Terra - a exploração belga, contra a qual lutara por longos anos, ser substituída pela dos norte-americanos.
Nos seus 67 dias de governo, Lumumba não fez nenhuma nacionalização ou restrição aos interesses americanos. No entanto, era óbvio que o negro - e pobre, líder de um povo pobre - Lumumba não era daqueles que se submetiam. Daí o ódio de Eisenhower, no qual era evidente o elemento racista.
“Na semana que se seguiu à reunião de 18 de agosto”, prossegue o relatório Church, “um conselheiro do presidente frisou ao Grupo Especial – a subcomissão do Conselho responsável por planejar as operações encobertas - ‘a necessidade de ação muito direta’ contra Lumumba e incitou a uma decisão que não descartasse a consideração de ‘qualquer tipo de atividade que possa contribuir para livrar-se de Lumumba’. No dia seguinte, Dulles telegrafou ao Funcionário da Base da CIA em Leopoldville, República do Congo, que ‘nos altos escalões’ a ‘remoção’ de Lumumba era ‘um urgente e prioritário objetivo’. Logo depois, o serviço clandestino da CIA formulou uma trama para assassinar Lumumba” (III. “Assassination Planning and the Plots, A. Congo”, pág. 13). 

DULLES 

O partido de Lumumba, o Movimento Nacional Congolês (MNC), vencera por ampla margem as eleições que precederam a declaração de independência, no dia 30 de junho de 1960.
Logo em seguida, a CIA enviou à sua base no Congo um novo membro, Victor Hedgman. É este que o relatório Church designa como o “Funcionário da Base”. A razão é que ele tinha contato direto com a direção da CIA, sem subordinar-se ao chefe da base, Larry Devlin.
Hedgman, ao depor na comissão Church “disse que o assassinato de Lumumba não foi discutido em seus comunicados à CIA anteriores à sua partida do Congo, nem durante seu breve retorno ao quartel-general em conexão com a visita de Lumumba a Washington em julho”.
Realmente, os telegramas entre a CIA e sua base em Leopoldville (atual Kinshasa) só começaram a se referir diretamente ao assassinato a partir de agosto, ou seja, depois da reunião em que Eisenhower “expressou” sua “forte inquietação”.
Mas a CIA já estava conspirando: um telegrama do mesmo dia da reunião, do Congo para a sede da CIA, depois de mostrar dúvidas sobre se Lumumba era ou não comunista, fala em “ação para evitar outra Cuba” e que “o objetivo operacional da base é substituir Lumumba pelo grupo pró-ocidental”.
No mesmo dia, o chefe da Divisão África da CIA, Bronson Tweedy, respondeu que “estava procurando a aprovação do Departamento de Estado para a operação proposta, baseada na ‘sua e nossa crença de que Lumumba deve ser removido’”.
Logo no dia seguinte, já depois da reunião com Eisenhower, “o diretor do ramo de operações encobertas da CIA, Richard Bissell, assinou um telegrama para Leopoldville, dizendo que ‘você está autorizado a prosseguir com a operação’” (rel. cit. pág. 15).
 Cinco dias depois, em 24 de agosto, Hedgman enviou o seguinte relatório ao diretor da CIA, Allen Dulles, sobre os congoleses que a CIA estava subornando: “abordaram Kasavubu [presidente do Congo] com plano de assassinar Lumumba. Kasavubu recusou concordar, dizendo-se relutante [quanto] ao recurso à violência[por] não existir outro líder com suficiente estatura para substituir Lumumba” (rel. cit. Pág. 15).
No dia posterior, Dulles foi a uma reunião do Grupo Especial. As minutas da reunião descrevem que depois de Dulles expor o “esboço de alguns planos da CIA para ações políticas contra Lumumba, tais como arranjar um voto de não-confiança no parlamento congolês, Gordon Gray, o Assessor Especial do Presidente para Assuntos de Segurança Nacional, relatou que o presidente ‘expressou sentimentos extremamente fortes sobre a necessidade de uma ação sem rodeios’”.
Dulles não tinha escrúpulos quanto a assassinatos. Mas não era um idiota. Evidentemente, ele sabia que os tais “planos de ação política” eram inviáveis, porque o MNC tinha maioria ampla no parlamento. Portanto, seu objetivo ao apresentá-los era obter uma confirmação explícita, por parte de Eisenhower (representado, na reunião, por Gray), da ordem de assassinato. E conseguiu.
No dia seguinte, ele mesmo enviou um telegrama à base da CIA em Leopoldville:
“Nos altos escalões aqui é agudamente clara a conclusão de que se Lumumba continua a ocupar alto cargo o inevitável resultado será no melhor dos casos o caos e no pior a pavimentação do caminho para a tomada do Congo pelos comunistas, com desastrosas consequências para o prestígio da ONU e para os interesses do mundo livre. Consequentemente, nós concluímos que sua remoção deve ser um primeiro e urgente objetivo e que sob as condições existentes isso deve ser uma alta prioridade de nossa ação encoberta”.
Sobre a suposta preocupação quanto à ONU, nesse momento ela (e, sobretudo, o seu secretário geral, Dag Hammarskjold) apoiava Lumumba, que exigia a saída das tropas belgas do país, enviando, a pedido do primeiro-ministro, forças de paz para o Congo. Hammarskjold seria morto um ano depois, num suspeito acidente aéreo, quando tentava um acordo na guerra civil que ensanguentou o Congo, após o assassinato de Lumumba.
No mesmo telegrama, Dulles dá à sua base no Congo “irrestrita autoridade (....)incluindo mesmo a mais agressiva ação se ela puder ser mantida encoberta. Nós imaginamos que os alvos de oportunidade devem estar presentes por si próprios a você”. (pág. 16). 

GOLPE 

Se é possível dúvida a respeito do significado desse telegrama, elas foram tiradas pelo depoimento, na Comissão Church, do então diretor de operações encobertas da CIA, Richard Bissell. Segundo Bissell, “o telegrama era um meio de indicar, através de um circunlóquio, que o presidente queria Lumumba assassinado (Nota da Comissão Church: Bissell depôs que Dulles teria usado a frase ‘altos escalões’ para referir-se ao presidente)”.
O mesmo disse Bronson Tweedy, o diretor da Divisão África da CIA. Tweedy – que redigiu a mensagem que Dulles assinou - disse que “o telegrama indicava que Dulles tinha recebido autorização do ‘nível político’”, isto é, Eisenhower.
No dia 5 de setembro de 1960, Kasavubu, a soldo da CIA, demitiu o primeiro-ministro Lumumba, passando por cima do parlamento. No dia 14, Mobutu, o cão de fila, perpetrou um sanguinário golpe de Estado, tramado e apoiado pela CIA.
Lumumba foi detido em sua residência. As tropas da ONU impediram o seu assassinato naquele momento.
No entanto, mostra a Comissão Church, “a evidência indica que o afastamento de Lumumba não aliviou as preocupações a respeito dele no governo dos Estados Unidos. Durante esse período, funcionários da CIA no Congo aconselharam e ajudaram contatos congoleses conhecidos pela intenção de assassinar Lumumba. Os funcionários também instaram alguns desses contatos congoleses ao ‘permanente descarte’ de Lumumba. Além disso, a CIA se opôs à reabertura do parlamento depois do golpe por causa da probabilidade de que o parlamento quisesse Lumumba de volta ao poder” (pág. 16).
Sete dias antes do golpe – e dois dias após a demissão de Lumumba - um telegrama de Leopoldville para Dulles dizia, ao relatar um encontro com “políticos congoleses de alto nível em estreito contato com a base da CIA”:
“Lumumba na oposição é quase tão perigoso quanto no cargo [o que] indica e implica a conclusão [que] deve ser eliminado fisicamente”.
No telegrama, a “conclusão” é atribuída aos congoleses. Mas era a CIA que “instava ao permanente descarte” de Lumumba. Na véspera do golpe, o diretor da Divisão África, Bronson Tweedy, telegrafou à sua base: “Talentos e dinamismo de Lumumba aparecem [como] fator esmagador no restabelecimento de sua posição a cada vez que parece meio perdido. Em outras palavras, a cada momento Lumumba tem a oportunidade de ter a última palavra. Ele pode influenciar os acontecimentos em seu proveito”. 

GOTTLIEB 

Transcrevemos um dos parágrafos do Relatório da Comissão Church:
“Um dia depois do golpe de Mobutu, o ‘funcionário da base’ [Hedgman] relatou que estava servindo como consultor de um esforço congolês para ‘eliminar’ Lumumba, devido ao seu ‘medo’ de que Lumumba podia, na verdade, ter se fortalecido ao colocar-se sob a custódia da ONU, o que permitia uma base segura de operações. Hedgman concluía: ‘A única solução é removê-lo da cena rapidamente’ (Leopoldville para o Diretor [Dulles], 15/09/60)”.
No entanto, os traidores congoleses não tinham coragem de assassinar Lumumba, o que fez com que a CIA redobrasse a instigação. No dia 17, o “funcionário da base” relatou outro encontro, com um “senador congolês”: “[o senador] relutantemente concordou que Lumumba deve ir permanentemente. Desconfia [de outro líder congolês] mas deseja fazer a paz com ele para os propósitos de eliminação de Lumumba (Leopoldville ao Diretor, 17/09/60)”.
Os traidores tinham medo de Lumumba, ou seja, do povo. A CIA, então, que tinha tramado o golpe de Mobutu, inventou um golpe de Estado... liderado por Lumumba: “o ‘funcionário da base’ advertiu a um líder-chave congolês sobre a trama de golpe articulada por Lumumba e dois correligionários, e ‘instou à prisão ou outro mais permanente descarte de Lumumba, Gizenga e Mulele’ (Leopoldville para o Diretor, 20/09/60).
Gizenga e Mulele eram os principais líderes do MNC, depois de Lumumba.
Nessa situação, Washington mandou um enviado ao Congo: “Bissell pediu a um cientista da CIA, Joseph Scheider, para fazer preparados para assassinar ou incapacitar um ‘líder africano’. De acordo com [o depoimento de] Scheider, Bissell disse que o encargo vinha da ‘mais alta autoridade’. Scheider procurou materiais biológicos tóxicos e recebeu ordem de Tweedy para entregar esses materiais ao funcionário da base em Leopoldville. Em setembro, Scheider entregou as substâncias letais ao funcionário da base em Leopoldville e instruiu-o para assassinar Patrice Lumumba. O funcionário da base testemunhou que foi dito por Scheider que o presidente Eisenhower tinha ordenado o assassinato de Lumumba”.
Joseph Scheider, sabe-se hoje, era um pseudônimo utilizado no relatório da Comissão Church para encobrir Sidney Gottlieb, o chefe do MKultra – o notório departamento de “controle de mentes” da CIA. Mais tarde, o chefe da base da CIA, Larry Devlin, relatou (ver seu depoimento no documentário “Who Killed Lumumba?”, de David Akerman, da BBC) que, quando Lumumba ainda estava sob a proteção da ONU, recebeu ordens para esperar um enviado, e que este era o sinistro Gottlieb, que entregou-lhe um tubo de pasta de dente envenenada, para que a introduzisse no banheiro da residência de Lumumba.
Scheider, aliás, Gottlieb, segundo o seu depoimento e o de Hedgman, partiu do Congo em 30 de outubro. A prisão domiciliar de Lumumba ainda duraria até 27 de novembro.
No entanto, baseado no fracasso das tentativas da CIA, o relatório Church conclui por sua inocência e a do governo americano.
Para chegar a essa conclusão, os membros da comissão ignoraram a ação da CIA na perseguição a Lumumba, quando este tentou chegar a Stanleyville, onde seus partidários se concentraram após o golpe de Estado, a ação americana para impedir que as tropas da ONU o protegessem e evitassem sua prisão e tortura pública e, sobretudo, o incitamento da CIA (documentado, entre outros, por Akerman) para que Mobutu o entregasse ao psicopata Moise Tshombe - e aos mercenários belgas que o sustentavam em Katanga.

Hora do Povo

quinta-feira, junho 24, 2010

Robert Fisk: Quem pode deter Israel

 

publicada quinta-feira, 24/06/2010 às 10:42 e atualizada quinta-feira, 24/06/2010 às 10:28

Por Juliana Sada

do site “Outras Palavras”

Quem pode deter Israel

Por Robert Fisk, no The Independent | Tradução: Caia Fittipaldi, de Vila Vudu

Israel perdeu? As guerras de Gaza em 2008-09 (com 1,3 mil mortos) e do Líbano, em 2006 (com 1.006 mortos); todas as outras guerras; e, agora, a matança da madrugada de segunda-feira significam que o mundo decidiu rejeitar os atos de Tel Aviv? Não se deve esperar tanto. Mas algo novo certamente aconteceu.

Basta ler a desfibrada declaração da Casa Branca – segundo a qual o governo Obama estaria “trabalhando para entender as circunstâncias que cercam a tragédia”. Condenação? Nem uma palavra. E pronto. Nove mortos. Mais uma estatística, na matança no Oriente Médio.

Não: não é só mais uma estatística.

Em 1948, nossos políticos – norte-americanos e britânicos – estabeleceram uma ponte aérea para abastecer Berlim. Uma população faminta (nossos inimigos, havia apenas três anos) estava cercados por um exército brutal, os russos, que havia sitiado a cidade. O levante do cerco de Berlim foi um dos momentos altos da Guerra Fria. Nossos soldados e aviadores arriscaram e deram a vida por aqueles alemães mortos de fome.

Parece incrível, não é? Naqueles dias, nossos políticos decidiam; muitas vezes decidiram salvar vidas. O primeiro-ministro bitânico, Clement Attlee, e o presidente dos EUA, Harry Truman, sabiam que Berlim importava, tanto em termos morais e humanos quanto em termos políticos.

Hoje é gente comum quem decide viajar até Gaza. Europeus, norte-americanos, sobreviventes do Holocausto. Viajaram porque seus políticos e governantes os abandonaram. Falharam. Fracassaram.

Onde estavam os políticos e governantes na madrugada da segunda-feira? OK, ok, apareceram o ridículo Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, a declaração patética da Casa Branca e o caríssimo Tony Blair, com cara de “profunda lástima e choque ante a tragédia de tantas mortes”. Mas… E o premiê britânico, James Cameron? E o ministro Nick Clegg, seu pareceiro de coligação?

Em 1948, claro, teriam ignorado os palestinos, não resta dúvida. Há aí, afinal, uma terrível ironia: o levante do cerco de Berlim coincidiu exatamente com a destruição da Palestina árabe.

Mas é fato irrecusável de que a multidão — gente comum, ativistas, deem-lhes o nome que quiserem — é hoje quem toma as decisões que mudam o curso dos acontecimentos. Nossos políticos são desfibrados, sem espinha dorsal, covardes demais, para decidir as decisões que salvam vidas. Por que? Como chegamos a isso? Por que, ontem, não se ouviu palavra saída da boca de Cameron e Clegg (dentre outros, claro)?

Claro, também, sim, que se fossem outros europeus (ora essa! Os turcos são europeus, não são?) os metralhados naqueles barcos, por outro exército árabe (ora essa! O exército de Israel é exército árabe!), então, sim, haveria ondas e ondas de indignação e ultraje.

E o que tudo isso diz sobre Israel? A Turquia não é aliada muito próxima de Israel? E, de Israel, os turcos recebem o que receberam? Hoje, o único aliado que restava a Israel, no mundo muçulmano, fala de “massacre” – e Israel parece não dar qualquer importância ao que diga a Turquia.

Israel tampouco deu qualquer importância quando Londres e Canberra expulsaram os diplomatas israelenses, depois de Israel forjar passaportes britânicos e australianos, para, com eles, perpetrar o assassinato do comandante Mahmoud al-Mabhouh do Hamas. Tampouco deu qualquer importância aos EUA e ao mundo, quando anunciaram a construção de novas colônias exclusivas para judeus em terra ocupada em Jerusalém Leste, durante visita de Joe Biden, vice-presidente dos EUA, aliado-supremo de Israel. Se Israel não deu qualquer importância a esses aliados, por que daria alguma importância a alguém, hoje?

Como chegamos a esse ponto? Talvez porque já nos tenhamos habituado a ver israelenses matando árabes; talvez os próprios israelenses tenham-se viciado em matar árabes, até cansarem. Agora, matam turcos. E europeus.

Alguma coisa mudou no Oriente Médio, nas últimas 24 horas – e os israelenses, se se considera a resposta política extraordinariamente estúpida, pós-matança, não dão qualquer sinal de ter percebido a mudança. O que mudou é que o mundo, afinal, cansou-se das matanças israelenses. Só os políticos ocidentais não têm o que dizer, hoje. Só eles estão calados.

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terça-feira, junho 22, 2010

Altamiro Borges: EUA conspiram ativamente na América Latina

 

publicada terça-feira, 22/06/2010 às 07:37 e atualizada terça-feira, 22/06/2010 às 08:39

Por Juliana Sada

do “Blog do Miro“, por Altamiro Borges

Para os que acham que a crítica às ações expansionistas dos EUA é coisa de “esquerdistas com mentalidade conspirativa”, sugiro a leitura do livro “Legado de cinzas: uma história da CIA”, publicado pelo jornalista estadunidense Tim Weiner em 2008. Já para os que se iludiram com a eleição de Barack Obama, sonhando que ela poderia aplacar a gula imperialista, indico a leitura dos artigos da escritora estadunidense-venezuelana Eva Golinger, uma atenta pesquisadora dos documentos desclassificados das várias “agências de ajuda” ianques.

No seu mais recente artigo, ela comprova que os EUA continuam bastante ativos na montagem de rede de conspiradores pelo mundo. “Durante o último ano, distintas agências de Washington têm financiado, promovido e organizado grupos de jovens e estudantes na Venezuela, Irã e Cuba, para criar movimentos de oposição contra seus governos. Os três países, considerados ‘inimigos’ pelo governo estadunidense, têm sido vítimas do incremento de agressões de Washington, que busca provocar mudanças de ‘regime’ favoráveis aos seus interesses”.
Recursos milionários das “agências”

Na semana passada, um dos líderes da oposição anti-chavista, Roderick Navarro, presidente da Federação de Centros Universitários da Universidade Central da Venezuela, esteve em Miami para organizar “uma rede internacional, que inclua estudantes do Irã e Cuba, para que o mundo saiba das violações dos direitos humanos em nossos países”, segundo confessou à imprensa. A sua principal visita foi Diretório Democrático Cubano, organização de gusanos cubanos que é financiada pela USAID e pela NED, duas das mais ativas agências imperialistas dos EUA.

“Desde 2005, Washington está reorientando recursos através da NED e da USAID para o setor estudantil da Venezuela. Dos 15 milhões de dólares invertidos e canalizados por estas agências neste país, mais de 32% são dirigidos a organizações ‘juvenis’. Seu programa principal está direcionado à ‘capacitação no uso de novas tecnologias e de redes sociais para se organizar de maneira política’, segundo afirmam os próprios informes da USAID”, denuncia Golinger.

Ingerência agressiva no continente

A escritora afirma que Barack Obama não só manteve estes planos ilegais de ingerência, como intensificou as ações. “Em agosto de 2009, Washington começou uma ofensiva mundial usando estudantes venezuelanos como porta-vozes da oposição. De agosto a setembro, o Departamento de Estado organizou a visita de oito jovens aos EUA para denunciar o governo Chávez e para estreitar os vínculos com jovens estadunidenses. Os oito foram selecionados pelo Departamento de Estado como parte do programa ‘A democracia para os jovens líderes políticos’”.

“Os jovens venezuelanos, pagos e acompanhados pelo Departamento de Estado durante a visita, deram declarações à imprensa tentando desacreditar o governo Chávez. Justamente depois desta visita, foi organizada uma manifestação através do Facebook, intitulada “No más Chávez”, que incitou o magnicídio [assassinato] de Chávez… Um mês depois, em outubro de 2009, a Cidade do México sediou o segundo encontro da Aliança de Movimentos Juvenis (AYM). Patrocinado pelo Departamento de Estado, o evento contou com a participação de Hillary Clinton” e de vários direitistas da América Latina – incluindo do Brasil, que não teve o seu nome revelado.

Investindo pesado na internet

Além dos debates políticos, com palestras de agentes do Instituto Republicano Internacional, do Banco Mundial e do Departamento Estado, os presentes tiveram vários cursos de “capacitação e formação” em Twitter, Facebook, MySpace, Flicker e Youtube. O império estadunidense tem investido pesado na utilização destas ferramentas da internet. Segundo a AYM, entidade criada em 2008, o uso destas “técnicas mais modernas tem resultado em coisas assombrosas”. Ela se jacta de várias manifestações direitistas organizadas através da internet.

Como alerta Eva Golinger, “as novas tecnologias – Twitter, Facebook, Youtube e outros – são suas principais armas nesta nova estratégia, e os meios tradicionais, como a CNN e as afiliadas, exageram o impacto real destes movimentos, promovendo opiniões falsas e distorcidas”. Para a escritora, o objetivo é criar uma “ciber-dissidência”, que desestabilize governos progressistas, apropriando-se de bandeiras como as da “liberdade de expressão e dos direitos humanos”.

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domingo, junho 20, 2010

Merkel quer radicalizar arrocho a europeus para locupletar bancos

Premiê Merkel anunciou o maior programa de cortes desde a II Guerra Mundial para repassar bilhões de euros do Tesouro aos bancos privados em crise
A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, que enterrou 50 bilhões de euros na “salvação” do banco Hypo Real State e agora em maio mais 10 bilhões de euros; injetou 8,2 bilhões de euros no arrombado Commerzbank, o segundo maior do país, além de 15 bilhões em garantias; e escorou com 3 bilhões o combalido Banco Industrial Alemão – o que só é parte da derrama -, passou agora a dar aulas de “austeridade” à Europa, anunciando o maior arrocho no país desde a II Guerra Mundial. Também arrancou do presidente francês Nicholas Sarkozy, com quem se reuniu na segunda-feira dia 14, que o país da União Europeia que violar os 3% de déficit fiscal e os 60% do PIB de dívida pública – os números mágicos de Helmut Kohl - terá seu voto cassado.
Trata-se, insistiu Merkel, de “dar o exemplo à Europa” – apesar de, no momento, se aplicada a exigência, nem mesmo eles poderiam votar. São 80 bilhões de euros de arrocho até 2014, subtraídos do seguro-desemprego, das aposentadorias e até do auxílio-maternidade, entre outros setores, e através de medidas como a demissão de 15.000 servidores públicos. Aumento de 2,5% para os servidores públicos, já conquistado anteriormente, para vigorar em 2011, seria surrupiado. Aos bancos alemães pendurados na “dívida soberana” da Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália – além de o leste europeu e outras plagas -, tudo. À população, a “austeridade”, o aperto de cinto e a “vida pelos próprios meios”, como gosta de encenar.
NO CABIDE
Segundo o órgão regulador alemão BaFin (dados de março/2010), os bancos alemães estão pendurados em 522,4 bilhões de euros na Espanha, Itália, Portugal, Irlanda e Grécia – o que de acordo com o mesmo relatório é “cerca de 20% do total devido a bancos alemães por países estrangeiros” (o que dá mais de 1 trilhão de euros de exposição). Conforme essa mesma fonte, bancos alemães são “os principais credores na Espanha e na Irlanda, e os segundos mais importantes na Itália”. Os bancos franceses não estão em situação diferente; são, por exemplo, os maiores credores na Grécia.
Com seis meses de ataque especulativo contra o euro, a reunião Merkel-Sarkozy se deu em meio à boataria sobre iminente colapso da Espanha, após notas em dois jornais alemães e um jornal financeiro espanhol, e declaração do presidente do segundo maior banco espanhol (BBVA), Francisco Gonzalez, de que os “mercados internacionais de capital” não estavam mais dando crédito “à maioria das empresas e bancos espanhóis”. Rumores desmentidos quase em desespero pelo primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, e negados ainda pelo FMI e pelo Banco Central Europeu, mas reforçados a cada novo detalhe sobre o plano de arrocho.
ESPANHA
Os cortes de 50 bilhões de euros de janeiro foram ampliados por Zapatero em US$ 15 bilhões. A título de “reduzir o desemprego”- de 20% -, o governo espanhol tornou mais fácil demitir, ao reduzir os encargos sobre as demissões. Também são atacados salários, pensões e programas sociais. Esse arrocho foi aprovado com maioria de apenas um voto no parlamento. Nos demais países europeus, a cena se repete. Sarkozy tenta descarregar o aumento da idade mínima de aposentadoria, em dois anos, para 62 anos. Já a idade mínima para aposentadoria dos que não atingiram o tempo de contribuição exigido passará de 65 para 67 anos. A Grécia já raspou o tacho, e Portugal está sob ameaça de cair no mesmo desvão.
A “Der Spiegel” registrou a reunião como “toda sorrisos”, para acrescentar “cada vez mais forçados”. Há necessidade de um “governo econômico europeu forte”, concordaram Merkel e Sarkozy, para discordar no resto. O presidente francês quer priorizar a “coordenação” dos 16 países da zona do euro – antes que o euro acabe; e Frau Merkel, que chamou o FMI para impalar a Grécia, quer um mecanismo dos “27 países”. Ele teria dito à “kanzler” que o socorro à Grécia – entenda-se aos bancos – teria custado em fevereiro 15 bilhões de euros e agora já custa 1 trilhão.
Isso nos palácios. Nas ruas, onde a questão será decidida, a tensão se intensifica - e o repúdio ao arrocho e ao favorecimento dos banksters. Na semana passada, foi a vez de Merkel aturar manifestações em Berlim e Stuttgart, com dezenas de milhares. Pela Europa inteira, com greves e manifestações a população vai se erguendo contra o arrocho, a devastação e a supressão da soberania.
ANTONIO PIMENTA – Hora Do Povo -2873

terça-feira, junho 15, 2010

Premiê britânico desculpa-se por massacre de católicos irlandeses em 1972

 

David Cameron: 'Bloody Sunday foi injustificado e injustificável'

David Cameron: 'Bloody Sunday foi injustificado e injustificável'

O "Bloody Sunday" acirrou o conflito entre católicos e protestantes na Grã-Bretanha. Somente em 1998 Londres ordenou processo detalhado, em nome do processo de paz no país. Resultado está em relatório de 5 mil páginas.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, desculpou-se publicamente nesta terça-feira (15/06) pelo massacre conhecido como "Bloody Sunday" (Domingo sangrento). Por ocasião da divulgação do longamente esperado relatório, Cameron desculpou-se: "Em nome do governo, eu lamento profundamente".

"Bloody Sunday"

Em 30 de janeiro de 1972, durante uma passeata pelos direitos civis na cidade norte-irlandesa de Londonderry, para-quedistas das Forças Armadas britânicas dispararam contra um grupo de manifestantes católicos desarmados, matando 13 deles. Um 14º morreu devido aos ferimentos, meses depois.

Londonderry em 30/01/1972Londonderry em 30/01/1972

Em consequência, acirrou-se o conflito entre católicos e protestantes no país, com a ocorrência de diversos atentados terroristas do Exército Republicano Irlandês (IRA) nos meses seguintes, em represália. Todos os anos ocorre na cidade palco do massacre uma passeata em memória às vítimas. Por motivos políticos, os norte-irlandeses católicos retiraram o "London" do nome da cidade, denominado-a apenas "Derry".

Até então, a tragédia não teve quaisquer consequências jurídicas para os soldados responsáveis. Pouco depois do "Domingo sangrento", uma comissão convocada por Londres concluiu que os soldados haviam agido em legítima defesa. Um tribunal inglês igualmente definiu o ocorrido como ato de defesa dos militares de elite contra terroristas irlandeses.

Em 1998, o então premiê britânico Tony Blair decretou a abertura de um novo processo, em apoio ao processo de paz na Irlanda do Norte. Familiares das vítimas e o governo apresentaram novos indícios e iniciaram-se os primeiros inquéritos públicos com o fim de investigar detalhadamente os fatos.

Justiça custosa

O processo, em que foram ouvidas cerca de 900 pessoas, consumiu 12 anos e o equivalente a 230 milhões de euros. Ao anunciar o relatório conclusivo de 5 mil páginas, nesta terça-feira em Londres, o premiê David Cameron observou: "Não há dúvida, o que aconteceu no 'Bloody Sunday' foi injustificado e injustificável. Foi errado". Ele ressaltou que nenhuma das vítimas estava armada e que os soldados não fizeram qualquer advertência antes de abrir fogo.

Soldado britânico detém manifestante católico no 'domingo sangrento'Soldado britânico detém manifestante católico no 'domingo sangrento'

Havia temores de que o relatório reabrisse velhas feridas. Porém em Londonderry, segunda maior cidade da Irlanda do Norte, sua divulgação foi saudada pelos familiares das vítimas, ao lado de milhares de outros irlandeses.

O vice-premiê norte-irlandês Martin McGuinness disse não acreditar que o relatório reabra feridas. Na época do massacre, ele era o segundo comandante do grupo militante católico IRA em Londonderry. "Minha esperança é que esta seja uma exposição muito clara do terrível ato cometido naquele dia pelo Estado e pelas Forças Armadas britânicas. E que ela contribua para que nunca, nunca mais vejamos atos como esse, em nenhuma comunidade."

Em contrapartida, o partido DUP (Democratic Unionist Party), basicamente protestante e liderado pelo premiê norte-irlandês Peter Robinson, criticou o inquérito por criar uma "hierarquia das vítimas": "Mais de 3.500 pessoas foram mortas durante 'The Troubles' [período de conflitos sangrentos em torno do status constitucional da Irlanda, do final de 1960 até 1998], e há centenas de casos não resolvidos, aqui mesmo. E aí vemos centenas de milhões de libras serem gastas para investigar menos de duas dezenas dessas mortes".

AV/afp/rtr/dpa
Revisão: Roselaine Wandscheer

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5687584,00.html

terça-feira, junho 08, 2010

Nanotecnologia

A geopolítica da desaparição do Euro

 

Com a crise financeira européia, está se dando um passo a mais no avassalamento da Europa. Com o Tratado de Lisboa, a Europa entregou sua defesa à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN): acabou-se o velho sonho de uma defesa européia independente. E agora, com uma política financeira controlada pelo FMI, a UE renunciou a um pilar essencial de sua independência. Sem a defesa e a moeda, não lhe resta nada para afirmar sua independência dentro do bloco ocidental e frente ao resto do mundo.

Pierre Charasse - La Jornada

Na massa de informações que circula sobre a crise do euro, não é fácil detectar os fenômenos de fundo que se estão produzindo. Por isso, é importante adotar alguma distância, situar essa crise no curso dos acontecimentos dos últimos 20 anos, depois da queda da União Soviética, e projetar uma perspectiva geopolítica de médio a longo prazo. A crise grega confirmou, como se fosse necessário, que a Europa como união política não existe mais.
Nas últimas semanas, a União Européia (UE) revelou ao resto do mundo sua extrema debilidade. O euro não resistiu às ofensivas de todo tipo que sofreu nos últimos meses, apesar de ser a moeda de uma das regiões mais ricas e industrializadas do mundo.
A primeira grande crise financeira mundial da era da globalização evidenciou que a moeda européia não podia aguentar as turbulências do mercado e os ataques especulativos, exatamente porque não tinha um respaldo político sólido e coerente. Os ideólogos ultraliberais que inventaram a moeda européia decidiram aplicar com rigor o princípio dolaisser-faire, proibindo aos governos de intervirem nas políticas do Banco Central Europeu (BCE).
Os governos da zona do euro se auto-mutilaram, quando aceitaram o dogma da independência do BCE, renunciando a qualquer possibilidade de submeter as políticas financeiras a condições políticas. Depois de muitas discussões, apresentaram como um grande avanço a decisão de constituir um fundo de resgate de 440 bilhões de euros. E nenhum governo, vendo o desastre social que os planos de ajustes impostos pelo BCE e pelo FMI, quis opor políticas concorrentes à doxa ultraliberal.
O que o público europeu não vê em geral é que, com a intervenção do FMI, os Estados Unidos agora têm direito de intervir na economia européia. Todas as decisões do FMI requerem necessariamente a aprovação do governo estadunidense, se é que não vêm inspiradas diretamente por esse país. Na reforma dos direitos de voto no FMI, anunciada na última Cúpula do G20, os EUA conserva intacta a minoria de controle com 16% dos votos. Pediu-se a UE que reduzisse sua parte para que a cota de países emergentes aumentasse. O presidente Obama exerce plenamente o poder que lhe dá a nova arquitetura financeira internacional, chamada governança mundial, e exige da Grécia e de outros países europeus que baixem os salários de seus funcionários, que reformem o regime de aposentadorias e que diminuam o gasto público em geral. E os europeus obedecem.
Com a crise financeira européia, está se dando um passo a mais no avassalamento da Europa. Com o Tratado de Lisboa, a Europa entregou sua defesa à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN): acabou-se o velho sonho de uma defesa européia independente. E agora, com uma política financeira controlada pelo FMI, a UE renunciou a um pilar essencial de sua independência. Sem a defesa e a moeda, não lhe resta nada para afirmar sua independência dentro do bloco ocidental e frente ao resto do mundo.
Neste contexto, parece lógico que o euro tenda a se aproximar da paridade com o dólar. Fala-se, nos círculos financeiros, de uma possível dolarização da zona do euro. Tecnicamente convém aos países industrializados da Europa, para recuperarem sua competitividade econômica, castigada na última década por um euro forte. Politicamente convém aos Estados Unidos eliminar uma moeda rival do dólar frente a China e a outros países emergentes. Os novos membros da União Européia vêem com muito bons olhos a dolarização da Europa, que seria para eles uma garantia suplementar com que contar, um guarda-chuva estadunidense, como para sua defesa frente a Rússia, seu inimigo de sempre.
O diretor do FMI, Dominique Strauss Khan refere-se com frequência à necessidade de uma moeda mundial, consequência lógica da globalização econômica e financeira. Em Zurique, em 12 de maio, ele fez um chamado a favor da criação de um banco central mundial, com uma moeda mundial. Na França, o Secretário de Estado para a Europa, Pierre Lellouche, militante atlantista incansável, anunciou triunfalmente que no plano monetário se chegou a um mecanismo de solidariedade automática idêntico ao que prevê o artigo 5 do Tratado da OTAN. Com isso, dá-se o último toque à construção de um espaço europeu subsidiário do território estadunidense para formar um bloco perfeitamente homogêneo sob a liderança de Washington. Desde a sua eleição, o presidente Barack Obama pede a seus aliados que cerrem filas para enfrentar as novas ameaças mundiais.
Outro efeito da crise, os planos de ajuste estrutural impostos como remédio, terão como consequência a curto prazo a tatcherização da Europa continental, ou seja, o fim do modelo social europeu. A Grã Bretanha, aliado incondicional dos Estados Unidos, não membro da zona do euro com a libra esterlina, será o grande vencedor dessa crise, com a imposição de seu modelo econômico e financeiro a toda a Europa, e com o fortalecimento da City como praça financeira impermeável a todos os intentos de regulação que se sugere para prevenir novas catástrofes financeiras mundiais.
Com a dolarização da Europa vai se fechar um capítulo da história moderna aberto com a derrubada do campo socialista. Para a corrente atlantista européia, atualmente majoritária, a desaparição da Europa como ator político e financeiro autônomo é o preço a pagar para que o Ocidente continue controlando o mundo frente aos países emergentes.
(*) Pierre Charasse, diplomata de carreira, ex-embaixador, trabalhou no Ministério de Relações Exteriores da França, entre 1972-2009. Ocupou vários cargos nas Embaixadas da República Francesa em Moscou, na Guatemala, em Havana e no México. Foi conselheiro técnico no gabinete de Claude Cheysson, Ministro de Assuntos Exteriores, e de Pierre Joxe, Ministro do Interior entre 1984 e 1986. Foi Cônsul Geral em Nápoles e em Barcelona, embaixador no Uruguai, no Paquistão e no Peru, e embaixador itinerante encarregado da cooperação internacional contra o crime organizado e a corrupção, entre 2000 e 2003, assim como chefe da delegação francesa na Conferência das Nações Unidas sobre o comércio ilícito de armas leves e de pequeno calibre (Nova York, 200-2001), Secretário Geral da Conferência Ministerial “As Rotas da droga da Ásia Central a Europa” (abril de 2003) e Ministro Plenipotenciario desde 1998. Aposentou-se em agosto agosto de 2009.
Tradução: Katarina Peixoto

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16673&boletim_id=708&componente_id=11868

terça-feira, maio 18, 2010

Xenofobia

 

Este cartaz saiu da Espanha e está rodando o mundo (traduzido).

Muito bom para chacoalhar os países que estão discriminando estrangeiros,

mas bom também para todo mundo,

para uma reflexão sobre nossos preconceitos,

nossas escolhas e nossas rejeições...!

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As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
Fernando Pessoa.

" Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
Clarice Lispector

Pornland, Oregon Prostituição Infantil: em Portland EUA

http://www.huffingtonpost.com/dan-rather/pornland-oregon-child-pro_b_580035.html

segunda-feira, maio 17, 2010

Análise no The Guardian sobre acordo Brasil-Irã-Turquia

 

Por Marcel Moreira

O The Guardian fez uma boa análise da repercussão.

Do Viomundo
The Guardian: O acordo Brasil-Irã-Turquia

O acordo nuclear Brasil-Irã-Turquia

17/5/2010, Stephen Kinzer, The Guardian, UK

Tradução Caia Fittipaldi

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2010/may/17/iran-nuclear-brazil-turkey-deal

Os acontecimentos e notícias empolgantes que chegam de Teerã, de acordo afinal firmado, que pode ter evitado crise global em torno do programa nuclear iraniano é desenvolvimento altamente positivo para todos – exceto para os que, em Washington e Telavive, estavam à procura de qualquer pretexto para isolar ou atacar o Irã.

Também marca o nascimento de uma nova força altamente promissora no cenário mundial: a parceria Brasil-Turquia.

Semana passada, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e o presidente Luis Inácio Lula da Silva do Brasil adotaram, em conjunto, a abordagem clássica do “um gentil, outro durão”, para aproximarem-se dos líderes iranianos. Lula anunciou que iria a Teerã, o que deu aos iranianos esperança de algum acordo. Mas era indispensável também a presença da Turquia (onde o urânio será tratado), e Erdogan fez-se de difícil.

Na 3ª-feira, Ahmet Davutoglu, o muito experiente ministro das Relações Estrangeiras da Turquia, anunciou que Erdogan não iria ao Irã, a menos que os iranianos manifestassem algum interesse em firmar algum acordo. “Não é hora para encontros trilaterais sem objetivo preciso”, disse. “Queremos resultados. Sem perspectiva de resultados, não iremos ao Irã.”

Na 6ª-feira, Erdogan endureceu ainda mais. Disse que a planejada viagem a Teerã estava cancelada, porque o Irã “não se manifestara sobre a questão”.

Poucas horas depois, a secretária Hillary Clinton telefonou ao Chanceler turco e empenhou-se em desencorajar a iniciativa dos diplomatas brasileiros e turcos. Porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse que a sra. Clinton ‘alertou’ o ministro turco para não confiar nos iranianos, cujo único interesse seria “fazer qualquer coisa para impedir as sanções pelo Conselho de Segurança, sem dar qualquer passo para suspender seu programa nuclear militar.”

Depois do telefonema, um pouco precipitadamente, de fato, a secretária Hillary previu publicamente que o esforço dos presidentes Lula e Erdogan fracassaria.

O que se sabe hoje é que a secretária Clinton pode não estar trabalhando corretamente pela pauta política da Casa Branca. Enquanto ela falava em Washington, funcionários turcos anunciavam aos jornalistas em Ankara, off-the-record, que haviam recebido encorajamento do próprio presidente Obama, para insistir no trabalho de mediação e continuar pressionando em busca de algum acordo. Pode ser, é claro, ‘divisão’ planejada das forças nos EUA, para cobrir todas as posições, o que implica que EUA, sim, anteviram a possibilidade de serem derrotados no front diplomático: Clinton faria a parte mais difícil e preservaria a posição do presidente como ‘mediador’ e interessado mais em acordos que em confrontos. Seja como for, já sugere alguma fragilidade na posição da secretária de Estado, ou seu isolamento, no círculo mais alto dos estrategistas de Obama para as questões mundiais cruciais.

Alguns, em Washington, tentarão ver no acordo apenas um modo para salvar as aparências e livrar o Irã de confronto direto com EUA e União Europeia. Seja como for, outros verão de outro modo. Ali Akbar Salehi, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, vê perspectiva mais positiva. Semana passada, já havia anunciado que o Irã buscava um acordo, contando com a mediação política do Brasil e da Turquia “para dar aos EUA e outros países ocidentais um modo de escaparem da situação de impasse que criaram, com tantas ameaças.”

Em todos os casos, o que se viu foi que negociadores competentes em negociações bem encaminhadas por dois líderes mundiais, destruíram a versão, difundida por Washington, de que o Irã não faria acordos e teria de ser ‘atacado’, por sanções; antes, claro, de que os EUA considerassem “todas as opções” – inclusive o ataque militar, para impedir o progresso do programa nuclear do país.

Fato é que Turquia e Brasil, embora em pontos opostos do planeta, têm muita coisa em comum. São dois países territorialmente grandes que passaram longos anos sob ditadura, mas conseguiram alterar essa história e andar pacificamente na direção da plena democracia. Os dois países têm hoje, na presidência, políticos dinâmicos e experientes, que comandaram importante processo de recuperação econômica nos seus respectivos países. Os dois países, além do mais, já emergiram como potências regionais, mas aspiram ao nível de potências como Rússia, Índia ou mesmo a China. Nem Turquia nem Brasil podem sobreviver sozinhos entre esses gigantes. Mas, juntos, formam uma parceria que tem inúmeras possibilidades de sucesso.

Brasil e Turquia são os países que mais abriram novas embaixadas pelo mundo, nos dois últimos anos. Uma vez por ano, os principais diplomatas turcos voltam a Ancara para ampla reunião de trabalho. Na reunião de 2010, ocorrida em janeiro, o ministro das Relações Exteriores do Brasil Celso Amorim foi um dos principais conferencistas convidados.

Turquia e Brasil foram, por muitos anos, apoiadores ‘automáticos’ de Washington, mas agora começam a assumir o timão e determinar a própria rota. Preocupados com o que veem como violento unilateralismo norte-americano, que desestabiliza imensas regiões em todo o mundo, os dois países têm evitado todos os confrontos internacionais, ao mesmo tempo em que trabalham incansavelmente para promover acordos que visem à pacificação. Por muito feliz coincidência, os dois países são hoje membros não-permanentes do Conselho de Segurança. A posição deu-lhes os meios para intervir na questão iraniana; que os negociadores e presidentes de Turquia e Irã usaram com talento e competência excepcionais.

Durante a Guerra Fria, o Movimento dos Não-alinhados tentou converter-se numa “terceira força” na política mundial, mas fracassou, porque reunia países grandes demais, separados demais e diferentes demais. Turquia e Brasil emergem agora como a força global capaz e competente para diálogos e acordos que o Movimento dos Não-alinhados jamais antes conseguira ser.

quarta-feira, abril 07, 2010

Os Dez Mandamentos

 

Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. O artigo é de Ladislau Dowbor.

Ladislau Dowbor

Como sociedade, desejamos não somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque não, com felicidade. E isto implica elencarmos de forma ordenada os resultados mínimos a serem atingidos, com os processos decisórios correspondentes. Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. Não temos a ilusão relativamente à distância entre a realidade política de hoje e as medidas sistematizadas abaixo. Mas pareceu-nos essencial, de toda forma, elencar de forma organizada as medidas necessárias, pois ter um norte mais claro ajuda na construção de uma outra governança planetária. Não estão ordenadas por ordem de importância, pois a maioria tem implicações simultâneas e dimensões interativas. Mas todos os mandamentos deverão ser obedecidos, pois a ira dos elementos nos atingirá a todos, sem precisar esperar a outra vida.
Considerando que a obediência à versão original dos Dez Mandamentos foi apenas aleatória, desta vez o Autor teve a prudência de acrescentar a cada Mandamento uma nota de explicação, destinada em particular aos impenitentes.
I – Não comprarás os Representantes do Povo
Resgatar a dimensão pública do Estado: Como podemos ter mecanismos reguladores que funcionem se é o dinheiro das corporações a regular que elege os reguladores? Se as agências que avaliam risco são pagas por quem cria o risco? Se é aceitável que os responsáveis de um banco central venham das empresas que precisam ser reguladas, e voltem para nelas encontrar emprego?
Uma das propostas mais evidentes da última crise financeira, e que encontramos mencionada em quase todo o espectro político, é a necessidade de se reduzir a capacidade das corporações privadas ditarem as regras do jogo. A quantidade de leis aprovadas no sentido de reduzir impostos sobre transações financeiras, de reduzir a regulação de banco central, de autorizar os bancos a fazerem toda e qualquer operação, somado com o poder dos lobbies financeiros tornam evidente a necessidade de se resgatar o poder regulador do estado, e para isto os políticos devem ser eleitos por pessoas de verdade, e não por pessoas jurídicas, que constituem ficções em termos de direitos humanos. Enquanto não tivermos financiamento público das campanhas, políticas que representem os interesses dos cidadãos, prevalecerão os interesses econômicos de curto prazo, os desastres ambientais e a corrupção.
II – Não Farás Contas erradas
As contas têm de refletir os objetivos que visamos. O PIB indica a intensidade do uso do aparelho produtivo, mas não nos indica a utilidade do que se produz, para quem, e com que custos para o estoque de bens naturais de que o planeta dispõe. Conta como aumento do PIB um desastre ambiental, o aumento de doenças, o cerceamento de acesso a bens livres. O IDH já foi um imenso avanço, mas temos de evoluir para uma contabilidade integrada dos resultados efetivos dos nossos esforços, e particularmente da alocação de recursos financeiros, em função de um desenvolvimento que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justo e ambientalmente sustentável. As metodologias existem, aplicadas parcialmente em diversos países, setores ou pesquisas.
A ampliação dos indicadores internacionais como o IDH, a generalização de indicadores nacionais como os Calvert-Henderson Quality of Life Indicators nos Estados Unidos, as propostas da Comissão Stiglitz/Sen/Fitoussi, o movimento FIB – Felicidade Interna Bruta – todos apontam para uma reformulação das contas. A adoção em todas as cidades de indicadores locais de qualidade de vida – veja-se os Jacksonville Quality of Life Progress Indicators – tornou-se hoje indispensável para que seja medido o que efetivamente interessa: o desenvolvimento sustentável, o resultado em termos de qualidade de vida da população. Muito mais do que o produto (output), trata-se de medir o resultado (outcome).
III – Não Reduzirás o Próximo à Miséria
Algumas coisas não podem faltar a ninguém. A pobreza crítica é o drama maior, tanto pelo sofrimento que causa em si, como pela articulação com os dramas ambientais, o não acesso ao conhecimento, a deformação do perfil de produção que se desinteressa das necessidades dos que não têm capacidade aquisitiva. A ONU calcula que custaria 300 bilhões de dólares (no valor do ano 2000) tirar da miséria um bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. São custos ridículos quando se considera os trilhões transferidos para grupos econômicos financeiros no quadro da última crise financeira. O benefício ético é imenso, pois é inaceitável morrerem de causas ridículas 10 milhões de crianças por ano. O benefício de curto e médio prazo é grande, na medida em que os recursos direcionados à base da pirâmide dinamizam imediatamente a micro e pequena produção, agindo como processo anticíclico, como se tem constatado nas políticas sociais de muitos países. No mais longo prazo, será uma geração de crianças que terão sido alimentadas decentemente, o que se transforma em melhor aproveitamento escolar e maior produtividade na vida adulta. Em termos de estabilidade política e de segurança geral, os impactos são óbvios. Trata-se do dinheiro mais bem investido que se possa imaginar, e as experiências brasileira, mexicana e de outros países já nos forneceram todo o know-how correspondente. A teoria tão popular de que o pobre se acomoda se receber ajuda, é simplesmente desmentida pelos fatos: sair da miséria estimula, e o dinheiro é simplesmente mais útil onde é mais necessário.
IV – Não Privarás Ninguém do Direito de Ganhar o seu Pão
Universalizar a garantia do emprego é viável. Toda pessoa que queira ganhar o pão da sua família deve poder ter acesso ao trabalho. Num planeta onde há um mundo de coisas a fazer, inclusive para resgatar o meio ambiente, é absurdo o número de pessoas sem acesso a formas organizadas de produzir e gerar renda. Temos os recursos e os conhecimentos técnicos e organizacionais para assegurar, em cada vila ou cidade, acesso a um trabalho decente e socialmente útil. As experiências de Maharashtra na Índia demonstraram a sua viabilidade, como o mostram as numerosas experiências brasileiras, sem falar no New Deal da crise dos anos 1930. São opções onde todos ganham: o município melhora o saneamento básico, a moradia, a manutenção urbana, a policultura alimentar. As famílias passam a poder viver decentemente, e a sociedade passa a ser melhor estruturada e menos tensionada. Os gastos com seguro-desemprego se reduzem. No caso indiano, cada vila ou cidade é obrigada a ter um cadastro de iniciativas intensivas em mão de obra.
Dinheiro emprestado ou criado desta forma representa investimento, melhoria de qualidade de vida, e dá excelente retorno. E argumento fundamental: assegura que todos tenham o seu lugar para participar na construção de um desenvolvimento sustentável. Na organização econômica, além do resultado produtivo, é essencial pensar no processo estruturador ou desestruturador gerado. A pesca oceânica industrial pode ser mais produtiva em volume de peixe, mas o processo é desastroso, tanto para a vida no mar como para centenas de milhões de pessoas que viviam da pesca tradicional. A dimensão de geração de emprego de todas as iniciativas econômicas tem de se tornar central. Assegurar a contribuição produtiva de todos, ao mesmo tempo que se augmenta gradualmente o salário mínimo e se reduz a jornada, leva simplesmente a uma prosperidade mais democrática.
V – Não Trabalharás Mais de Quarenta Horas
Podemos trabalhar menos, e trabalharemos todos, com tempo para fazermos mais coisas interessantes na vida. A sub-utilização da força de trabalho é um problema planetário, ainda que desigual na sua gravidade. No Brasil, conforme vimos, com 100 milhões de pessoas na PEA, temos 31 milhões formalmente empregadas no setor privado, e 9 milhões de empregados públicos. A conta não fecha. O setor informal situa-se na ordem de 50% da PEA. Uma imensa parte da nação “se vira” para sobreviver. No lado dos empregos de ponta, as pessoas não vivem por excesso de carga de trabalho. Não se trata aqui de uma exigência de luxo: são incontáveis os suicídios nas empresas onde a corrida pela eficiência se tornou simplesmente desumana. O stress profissional está se tornando uma doença planetária, e a questão da qualidade de vida no trabalho passa a ocupar um espaço central. A redistribuição social da carga de trabalho torna-se hoje uma necessidade. As resistências são compreensíveis, mas a realidade é que com os avanços da tecnologia os processos produtivos tornam-se cada vez menos intensivos em mão de obra, e reduzir a jornada é uma questão de tempo. Não podemos continuar a basear o nosso desenvolvimento em ilhas tecnológicas ultramodernas enquanto se gera uma massa de excluídos, inclusive porque se trata de equilibrar a remuneração e, consequentemente, a demanda. A redução da jornada não reduzirá o bem estar ou a riqueza da população, e sim a deslocará para novos setores mais centrados no uso do tempo livre, com mais atividades de cultura e lazer. Não precisamos necessariamente de mais carros e de mais bonecas Barbie, precisamos sim de mais qualidade de vida.
VI – Não Viverás para o Dinheiro
A mudança de comportamento, de estilo de vida, não constitui um sacrifício, e sim um resgate do bom senso. Neste planeta de 7 bilhões de habitantes, com um aumento anual da ordem de 75 milhões, toda política envolve também uma mudança de comportamento individual e da cultura do consumo. O respeito às normas ambientais, a moderação do consumo, o cuidado no endividamento, o uso inteligente dos meios de transporte, a generalização da reciclagem, a redução do desperdício – há um conjunto de formas de organização do nosso cotidiano que passa por uma mudança de valores e de atitudes frente aos desafios econômicos, sociais e ambientais.
No apagão energético do final dos anos 90 no Brasil, constatou-se como uma boa campanha informativa, o papel colaborativo da mídia, e a punição sistemática dos excessos permitiu uma racionalização generalizada do uso doméstico da energia. Esta dimensão da solução dos problemas é essencial, e envolve tanto uma legislação adequada, como sobretudo uma participação ativa da mídia.
Hoje 95% dos domicílios no Brasil têm televisão, e o uso informativo inteligente deste e de outros meios de comunicação tornou-se fundamental. Frente aos esforços necessários para reequilibrar o planeta, não basta reduzir o martelamento publicitário que apela para o consumismo desenfreado, é preciso generalizar as dimensões informativas dos meios de comunicação. A mídia científica praticamente desapareceu, os noticiários navegam no atrativo da criminalidade, quando precisamos vitalmente de uma população informada sobre os desafios reais que enfrentamos. A pergunta a se fazer a cada ato de conusmo, não é só se “é bom para mim”, mas se é bem para o planeta e o bem comum, e buscar um equilíbrio razoável. A opção individual é essencial, mas não suficiente.
Grande parte da mudança do comportamento individual depende de ações públicas: as pessoas não deixarão o carro em casa (ou deixarão de tê-lo) se não houver transporte público, não farão reciclagem se não houver sistemas adequados de coleta. Precisamos de uma política pública de mudança do comportamento individual.
VII – Não Ganharás Dinheiro com o Dinheiro dos Outros
Racionalizar os sistemas de intermediação financeira é viável. A alocação final dos recursos financeiros deixou de ser organizada em função dos usos finais de estímulo e orientação de atividades econômicas e sociais, para obedecer às finalidades dos próprios intermediários financeiros. A atividade de crédito é sempre uma atividade pública, seja no quadro das instituições públicas, seja no quadro dos bancos privados que trabalham com dinheiro do público, e que para tanto precisam de uma carta-patente que os autorize a ganhar dinheiro com dinheiro dos outros. A recente crise financeira de 2008 demonstrou com clareza o caos que gera a ausência de mecanismos confiáveis de regulação no setor. Nas últimas duas décadas, temos saltado de bolha em bolha, de crise em crise, sem que a relação de forças permita a reformulação do sistema de regulação em função da produtividade sistêmica dos recursos. Enquanto não se gera uma relação de forças mais favorável, precisamos batalhar os sistemas nacionais de regulação financeira. O dinheiro não é mais produtivo onde rende mais para o intermediário: devemos buscar a produtividade sistêmica de um recurso que é público.
A Coréia do Sul abriu recentemente um financiamento de 36 bilhões de dólares para financiar transporte coletivo e alternativas energéticas, gerando com isto 960 mil empregos. O impacto positivo é ambiental pela redução de emissões, é anti-cíclico pela dinamização da demanda, é social pela redução do desemprego e pela renda gerada, é tecnológico pelas inovações que gera nos processos produtivos mais limpos. Tem inclusive um impacto raramente considerado, que é a redução do tempo vida que as pessoas desperdiçam no transporte. Trata-se aqui, evidentemente, de financiamento público, pois os bancos comerciais não teriam esta preocupação, nem esta visão sistêmica. (UNEP,Global Green New Deal, 2009). Em última instância, os recursos devem ser tornados mais acessíveis segundo que os objetivos do seu uso sejam mais produtivos em termos sistêmicos, visando um desenvolvimento mais inclusivo e mais sustentável. A intermediação financeira é um meio, não é um fim.
Particular atenção precisa ser dada aos intermediários que ganham apenas nos fluxos entre outros intermediários – com papéis que representam direitos sobre outros papéis – e que têm tudo a ganhar com a maximização dos fluxos, pois são remunerados por comissões sobre o volume e ganhos, e geram portanto volatilidade e pro-ciclicidade, com os monumentais volumes que nos levaram por exemplo a valores em derivativos da ordem de 863 trilhões de dólares em junho de 2008, 15 vezes o PIB mundial. A intermediação especulativa – diferentemente das intermediação de compras e vendas entre produtores e utilizadores finais – apenas gera uma pirâmide especulativa e insegurança, além de desorganizar os mercados e as políticas econômicas (1).
VIII – Não Tributarás Boas Iniciativas
A filosofia do imposto, de quem se cobra, e a quem se aloca, precisa ser revista. Uma política tributária equilibrada na cobrança, e reorientada na aplicação dos recursos, constitui um dos instrumentos fundamentais de que dispomos, sobretudo porque pode ser promovida por mecanismos democráticos. O eixo central não está na redução dos impostos, e sim na cobrança socialmente mais justa e na alocação mais produtiva em termos sociais e ambientais. A taxação das transações especulativas (nacionais ou internacionais) deverá gerar fundos para financiar uma série de políticas essenciais para o reequilíbrio social e ambiental. O imposto sobre grandes fortunas é hoje essencial para reduzir o poder político das dinastias econômicas (10% das famílias do planeta é dono de 90% do patrimônio familiar acumulado no planeta). O imposto sobre a herança é fundamental para dar chances a partilhas mais equilibradas para as sucessivas gerações. O imposto sobre a renda deve adquirir mais peso relativamente aos impostos indiretos, com alíquotas que permitam efetivamente redistribuir a renda. É importante lembrar que as grandes fortunas do planeta em geral estão vinculadas não a um acréscimo de capacidades produtivas do planeta, e sim à aquisição maior de empresas por um só grupo, gerando uma pirâmide cada vez mais instável e menos governável de propriedades cruzadas, impérios onde a grande luta é pelo controle do poder financeiro, político e midiático, e a apropriação de recursos naturais.
O sistema tributário tem de ser reformulado no sentido anti-cíclico, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas; no sentido do maior equilíbrio social ao ser fortemente progressivo; e no sentido de proteção ambiental ao taxar emissões tóxicas ou geradoras de mudança climática, bem como o uso de recursos naturais não renováveis(2).
O poder redistributivo do Estado é grande, tanto pelas políticas que executa – por exemplo as políticas de saúde, lazer, saneamento e outras infra-estruturas sociais que melhoram o nível de consumo coletivo – como pelas que pode fomentar, como opções energéticas, inclusão digital e assim por diante. Fundamental também é a política redistributiva que envolve política salarial, de previdência, de crédito, de preços, de emprego.
A forte presença das corporações junto ao poder político constitui um dos entraves principais ao equilíbrio na alocação de recursos. O essencial é assegurar que todas as propostas de alocação de recursos sejam analisadas pelo triplo enfoque econômico, social e ambiental. No caso brasileiro, constatou-se com as recentes políticas sociais (“Bolsa-Família”, políticas de previdência etc.) que volumes relativamente limitados de recursos, quando chegam à “base da pirâmide”, são incomparavelmente mais produtivos, tanto em termos de redução de situações críticas e consequente aumento de qualidade de vida, como pela dinamização de atividades econômicas induzidas pela demanda local. A democratização aqui é fundamental. A apropriação dos mecanismos decisórios sobre a alocação de recursos públicos está no centro dos processos de corrupção, envolvendo as grandes bancadas corporativas, por sua vez ancoradas no financiamento privado das campanhas.
IX – Não Privarás o Próximo do Direito ao Conhecimento
Travar o acesso ao conhecimento e às tecnologias sustentáveis não faz o mínimo sentido. A participação efetiva das populações nos processos de desenvolvimento sustentável envolve um denso sistema de acesso público e gratuito à informação necessária. A conectividade planetária que as novas tecnologias permitem constitui uma ampla via de acesso direto. O custo-benefício da inclusão digital generalizada é simplesmente imbatível, pois é um programa que desonera as instâncias administrativas superiores, na medida em que as comunidades com acesso à informação se tornam sujeitos do seu próprio desenvolvimento. A rapidez da apropriação deste tipo de tecnologia até nas regiões mais pobres se constata na propagação do celular, das lan houses mais modestas. O impacto produtivo é imenso para os pequenos produtores que passam a ter acesso direto a diversos mercados tanto de insumos como de venda, escapando aos diversos sistemas de atravessadores comerciais e financeiros. A inclusão digital generalizada é um destravador potente do conjunto do processo de mudança que hoje se torna indispensável.
O mundo frequentemente esquece que 2 bilhões de pessoas ainda cozinham com lenha, área em que há inovações significativas no aproveitamento calórico por meio de fogões melhorados. Tecnologias como o sistema de cisternas do Nordeste, de aproveitamento da biomassa, de sistemas menos agressivos de proteção dos cultivos etc., constituem um vetor de mudança da cultura dos processos produtivos. A criação de redes de núcleos de fomento tecnológico online, com ampla capilaridade, pode se inspirar da experiência da Índia, onde foram criados núcleos em praticamente todas as vilas do país. O World Economic and Social Survey 2009 é particularmente eloquente ao defender a flexibilização de patentes no sentido de assegurar ao conjunto da população mundial o acesso às informações indispensáveis para as mudanças tecnológicas exigidas por um desenvolvimento sustentável.
X – Não Controlarás a Palavra do Próximo
Democratizar a comunicação tornou-se essencial. A comunicação é uma das áreas que mais explodiu em termos de peso relativo nas transformações da sociedade. Estamos em permanência cercados de mensagens. As nossas crianças passam horas submetidas à publicidade ostensiva ou disfarçada. A indústria da comunicação, com sua fantástica concentração internacional e nacional - e a sua crescente interação entre os dois níveis - gerou uma máquina de fabricar estilos de vida, um consumismo obsessivo que reforça o elitismo, as desigualdades, o desperdício de recursos como símbolo de sucesso. O sistema circular permite que os custos sejam embutidos nos preços dos produtos que nos incitam a comprar, e ficamos envoltos em um cacarejo permanente de mensagens idiotas pagas do nosso bolso. Mais recentemente, a corporação utiliza este caminho para falar bem de si, para se apresentar como sustentável e, de forma mais ampla, como boa pessoa. O espectro eletromagnético em que estas mensagens navegam é público, e o acesso a uma informação inteligente e gratuita para todo o planeta, é simplesmente viável. Expandindo gradualmente as inúmeras formas alternativas de mídia que surgem por toda parte, há como introduzir uma cultura nova, outras visões de mundo, cultura diversificada e não pasteurizada, pluralismo em vez de fundamentalismos religiosos ou comerciais.
O fato que mais inspira esperança é a multiplicação impressionante de iniciativas nos planos da tecnologia, dos sistemas de gestão local, do uso da internet para democratizar o conhecimento, da descoberta de novas formas de produção menos agressivas, de formas mais equilibradas de acesso aos recursos. O Brasil neste plano tem mostrado que começar a construir uma vida mais digna para o “andar de baixo”, para os dois terços de excluídos, não gera tragédias para os ricos. Inclusive, numa sociedade mais equilibrada, todos passarão a viver melhor. Tolerar um mundo onde um bilhão de pessoas passam fome, onde 10 milhões de crianças morrem anualmente de causas ridículas, e onde se dilapidam os recursos naturais das próximas gerações, em proveito de fortunas irresponsáveis, já não é possível.
Nesta época interativa, o Altíssimo declarou-se disposto a considerar outros Mandamentos. Sendo o Secretariado do Altíssimo hoje bem equipado, os que por acaso tenham sugestões ou necessitem consultar documentos mais completos, poderão se instruir com outros Assessores, em linha direta sob www.criseoportunidade.wordpress.com. Críticas, naturalmente, deverão ser endereçadas a Instâncias Superiores. Apreciações positivas e sugestões de outros Mandamentos poderão ser enviadas ao blog acima citado, ou no e-mail ladislau@dowbor.org
NOTAS
(1) BIS Quarterly Review, December 2008, Naohiko Baba et al., www.bis.org/publ/qtrpdf/r_qt0812b.pdf p. 26: “In November, the BIS released the latest statistics based on positions as at end-june 2008 in the global over-the-counter (OTC) derivatives markets. The notional amounts outstanding of OTC derivatives continued to expand in the first half of 2008. Notional amounts of all types of OTC contracts stood at $863 trillion at the end of June, 21% higher than six months before”. São 863 trilhões de dólares de derivativos emitidos, frente a um PÌB mundial de cerca de 60 trilhões.
(2) Susan George traz uma ilustração convincente: um bilionário que aplica o seu dinheiro com uma conservadora remuneração de 5% ao ano, aumenta a sua fortuna em 137 mil dólares por dia. Taxar este tipo de ganhos não é “aumentar os impostos”, é corrigir absurdos.

domingo, março 14, 2010

Entrevista com Jean-Bertrand Aristide:

 

“O que está em jogo no Haiti é a dignidade de todo o povo ou a dependência servil” (1)

A entrevista que hoje começamos a publicar apareceu originalmente na revista “London Review of Books”, em fevereiro de 2007. Apesar da data, ela é, até hoje, a mais extensa e mais reveladora entrevista do presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide. O entrevistador não foi um jornalista, mas o filósofo canadense Peter Hallward – o que é visível na forma de suas perguntas, que mantivemos na íntegra – e realizada em Pretoria, África do Sul, onde Aristide encontra-se asilado desde o golpe de Estado patrocinado pelos EUA – e, em verdade, executado por tropas norte-americanas, que invadiram o Haiti em 2004.

Jean-Bertrand Aristide é a figura central da história do Haiti após o fim da alucinada ditadura dos Duvalier e seus tonton macoutes, como, de resto, da vida política atual do país. Se é lícito assim expressarmo-nos, sua ausência é a presença mais marcante da vida do país. Há seis anos, o retorno de Aristide é a principal questão política que mobiliza o povo haitiano.

Formado em filosofia e psicologia, Aristide foi um padre salesiano até 1988, quando sua adesão à Teologia da Libertação e ao lema “lapè nan tèt, lapè nan vant” (em créole: “não há paz na mente, se não há paz na barriga”) fez com que os superiores da ordem tornassem impossível sua permanência. Mas continuou um católico romano e adepto da não-violência no mesmo sentido de Gandhi.

Em 1990, candidato a presidente pela Frente Nacional pela Mudança e Democracia, foi eleito com 67% dos votos. Posteriormente, fundou o partido Fanmi Lavalas. Em créole, a palavra “fanmi” significa “família” e “lavalas” pode ser traduzido como “avalanche”, “dilúvio”, mas também “todos juntos”.

A história de Aristide após essa eleição é mais conhecida: o golpe de Estado em 1991, sua volta ao Haiti e à presidência, em 1994, e, depois do primeiro mandato de René Préval, sua vitória na eleição de 2000 com 92% dos votos e o golpe de Estado de 2004, com a invasão das tropas norte-americanas, a perseguição, inclusive assassinatos e torturas, dos partidários de Aristide e a subsequente proibição do Fanmi Lavalas de concorrer às eleições.

O fato é que a volta de Aristide ao Haiti é a condição política mais importante para que aquele país encontre, com  a unidade de seu povo, a paz baseada na justiça. A situação atual, sobretudo depois do terremoto de janeiro, tornou mais urgente ainda que essa condição política seja cumprida.

C.L.

O Haiti é um país profundamente dividido e você tem sido sempre um personagem profundamente conflituoso. Para a maioria dos numerosos observadores simpatizantes dos anos 90 era fácil entender essa divisão mais ou menos em função de critérios de classe: você foi demonizado pelos ricos e idolatrado pelos pobres. Então, as coisas começaram a ficar mais complicadas. Certos ou errados, ao final da década, muitos dos que originalmente o apoiavam passaram a ficar mais céticos e seu segundo governo (2001 - 2004), do início ao fim, foi implacavelmente perseguido por acusações de violência e corrupção. Apesar de, em todas as medidas possíveis, você permanecer folgadamente como o político mais confiável e popular entre o eleitorado haitiano, parece que você tem perdido muito do apoio que gozava entre partes da classe política, dos trabalhadores, ativistas, intelectuais e outras, tanto no país como no exterior. Muitas de minhas questões referem-se a essas acusações, especialmente a de que, com o passar do tempo, você fez concessões ou abandonou muitos de seus ideais originais. Para começar, gostaria de retornarmos brevemente a um território familiar e perguntar sobre o processo que o conduziu ao poder em 1990. O final dos anos 80 foi um período muito reacionário na política mundial, especialmente na América Latina. Como você explica a considerável força e resistência do movimento popular contra a ditadura no Haiti, movimento que passou a ser conhecido como “Lavalas” – palavra que em creóle significa “inundação”, ou “avalanche”, assim como “multidão”, ou “todos juntos”? Como você explica que, apesar das circunstâncias, e certamente contra os interesses dos EUA, dos militares e de todo o poder que dominava o Haiti, você conseguiu vencer as eleições de 1990?

Jean-Bertrand Aristide - Grande parte do trabalho já tinha sido feito por pessoas antes de mim. Refiro-me a pessoas como o padre Antonio Adrien e seus companheiros, e Padre Jean Marie Vincent, que foi assassinado em 1994. Eles haviam desenvolvido uma visão teológica progressista que refletia as esperanças e expectativas do povo haitiano. Já em 1979, eu estava trabalhando no contexto da Teologia da Libertação. Há uma frase em particular que ficou marcada em minha mente e que pode ajudar a resumir meu entendimento da situação naquela época. Você deve lembrar-se de que a Conferência de Puebla aconteceu no México, em 1979, e naquele tempo muitos teólogos da libertação estavam trabalhando sob severas restrições, ameaçados e impedidos de participar. O slogan ao qual estou me referindo dizia algo como “si el pueblo no va a Puebla, Puebla se quedara sin pueblo” – se o povo não vai a Puebla, Puebla ficará sem povo.

Em outras palavras, o povo é para mim o próprio centro de nossa luta. Não se trata de lutar pelo povo, em nome do povo, à distância do povo; é o povo, ele mesmo, que está lutando. Trata-se de lutar com o povo e no meio do povo. Isso leva a um segundo princípio teológico, que Sobrinho, Boff e outros entenderam muito bem. A teologia da libertação somente pode ser uma etapa de um processo mais abrangente. Esta etapa, na qual nós temos que começar falando em nome dos pobres e oprimidos, tem fim assim que eles comecem a falar com sua própria voz e com suas próprias palavras. O povo começa a assumir seu próprio lugar na cena pública. A teologia da libertação dá lugar, então, à libertação da teologia. O processo completo leva-nos longe do paternalismo, de toda noção de um “saber” que poderia vir a conduzir o povo e resolver seus problemas. Os padres que eram inspirados pela teologia da libertação naquele tempo entendiam que nosso papel era acompanhar o povo, e não tomar o lugar dele.

No Haiti, a emergência do povo como força pública organizada, como consciência coletiva já tinha começado nos anos oitenta, e, por volta de 1986, essa força era forte o suficiente para afastar a ditadura Duvalier do poder. Foi um movimento da base popular, e não um projeto piramidal, dirigido por um único líder ou uma só organização. Também não foi apenas um movimento político. Ele tomou forma, sobretudo através da construção de numerosas pequenas comunidades eclesiais de base, ou “ti legliz”, por todo o país. Foram essas comunidades que desempenharam um papel histórico decisivo. Quando fui eleito presidente, não se tratava somente de um cargo estritamente político, da eleição de um político, de um partido político convencional. Não! Tratava-se da expressão de um grande movimento popular, da mobilização do povo como um todo. Pela primeira vez o Palácio Nacional tornou-se um lugar não só de políticos profissionais, mas para o povo, ele mesmo. O simples fato de permitir-se a pessoas comuns entrarem no palácio, o simples fato de serem bem vindas pessoas das camadas mais pobres da sociedade haitiana no coração central do poder tradicional – isto já foi um gesto profundamente transformador.

Você hesitou por algum tempo antes de aceitar colocar-se como candidato naquelas eleições de 1990. Você estava perfeitamente consciente de como, considerando-se as relações das forças existentes, a participação nas eleições poderia enfraquecer ou dividir o movimento. Olhando para trás agora, você ainda pensa que foi a coisa certa a fazer? Haveria alguma alternativa viável àquela de seguir a via parlamentar?

Aristide - Eu sou inclinado a pensar a história como um processo de cristalização de diferentes tipos de variáveis. Algumas delas são conhecidas, outras não. As variáveis que nós conhecíamos e entendíamos naquele tempo eram bastante claras. Nós tínhamos uma idéia do que éramos capazes e também sabíamos que aqueles que buscavam manter o status quo tinham inúmeros meios à disposição. Eles tinham toda sorte de estratégias e mecanismos – militares, econômicos, políticos... – para desorganizar qualquer movimento que desafiasse sua continuidade no poder. Mas nós não podíamos saber exatamente como eles se serviriam destes meios. Eles mesmos não poderiam saber. Estavam acompanhando atentamente a forma como o povo lutava para inventar modos de organizar a si mesmo, modos de promover efetivamente este desafio. Isso é o que eu penso acerca de variáveis desconhecidas: o movimento popular estava em processo de ser inventado e desenvolvido, sob pressão, no campo de batalha, e não havia meios de saber de antemão que contra-ataque eles iriam provocar.

Agora, dado o equilíbrio desses dois tipos de variáveis, eu não podia voltar atrás. Não recuei em nada. Em 1990, fui convocado por outros no movimento a aceitar a cruz que tinha caído sobre mim. Foi nesses termos que o Padre Adrien descreveu isso e foi assim que eu entendi: eu deveria aceitar o fardo daquela cruz. “Você está no caminho do Calvário”, ele disse, e eu sabia que ele estava certo. Quando recusei isso, no início, Monsenhor Willy Romélus, em quem eu depositava muita confiança, como conselheiro, insistiu que eu não tinha escolha. “Sua vida não pertence mais a você”, ele disse, “Você a ofereceu em sacrifício ao povo. E agora que uma missão concreta se apresenta a você, agora que você se encontra frente a essa convocação especial, de seguir Jesus e carregar sua cruz, reflita cuidadosamente antes de voltar atrás”. Isto era o que eu sabia, e sabia muito bem, então. Foi uma espécie de caminho do Calvário. E assim que decidi, aceitei este caminho tal como ele seria, sem ilusões, sem enganar-me a mim mesmo. Nós sabíamos perfeitamente bem que não seríamos capazes de mudar tudo, que não seríamos capazes de corrigir cada injustiça, que iríamos trabalhar sob severas restrições, e assim por diante.

Suponha que eu dissesse não, que não aceitasse ser candidato, como as pessoas iriam reagir? Entendo agora o eco de certas vozes que perguntavam: “Vamos ver agora se você tem a coragem de tomar essa decisão. Vamos ver agora se você não passa de um covarde para aceitar essa tarefa. Você, que tem proferido os mais belos sermões, o que vai fazer agora? Vai nos abandonar, ou vai assumir essa responsabilidade de modo que juntos possamos seguir em frente?” E eu pensei sobre isso. Qual a melhor maneira de colocar em prática a mensagem do evangelho? O que eu deveria fazer? Eu lembro como respondi a essa questão, quando, alguns dias antes da eleição de 1990, fui a uma manifestação pelas vítimas do massacre da Viela de Vaillant, no qual vinte pessoas foram mortas pelos Macoutes, no dia das eleições canceladas de 1987. Um estudante me perguntou: “Padre, o senhor pensa que poderá mudar sozinho essa situação tão corrupta e injusta?” E eu, em resposta, disse-lhe: “Para chover, é necessária uma, ou muitas gotas de chuva? Para uma inundação, basta um fiozinho de água, ou a torrente de um rio?” E eu agradeci a ele por me dar a chance de apresentar nossa missão coletiva na forma dessa metáfora: não será sozinhos, como gotas de chuva, que você e eu conseguiremos mudar essa situação, mas juntos, como uma inundação ou uma torrente, “lavalassement”, que iremos transformá-la, saná-la, sem ilusão de que isso será fácil ou rápido.

Então, haveria alternativas? Acho que não. No entanto, estou seguro de que havia uma oportunidade histórica, e de que nós demos uma resposta histórica, uma resposta que transformou a situação, um passo na direção certa. Naturalmente, fazendo isso, provocamos uma reação. Nossos oponentes responderam com um golpe de estado. Primeiro, a tentativa de golpe de estado de Roger Lafontant, em janeiro de 1991, e, como ele falhou, o golpe de 30 de setembro de 1991. Nossos oponentes tinham sempre meios desproporcionalmente poderosos de reprimir o movimento popular. Nenhuma simples ação ou decisão poderia mudar isso. O que importa é que nós tínhamos dado um passo adiante, um passo na direção certa, seguido de outros passos. O processo que começou naquele época ainda é forte, apesar de tudo, ainda é forte, e eu estou convencido de que ele virá somente a se fortalecer, e que, no fim, ele irá prevalecer.

O golpe de setembro de 1991 aconteceu apesar do fato de as políticas concretas que você aplicou, quando estava no poder, terem sido muito moderadas, muito prudentes. Teria sido um golpe inevitável, então? Apesar do que você fez ou não fez, bastaria que a simples presença de alguém como você no Palácio Presidencial fosse inaceitável para a elite haitiana? E, neste caso, o que mais poderia ser possível fazer para prever e resistir aos violentos contra-ataques?

Aristide - Bom, essa é uma boa questão. Eu entendo a situação do seguinte modo: o que aconteceu em setembro de 1991 aconteceu também em fevereiro de 2004 e poderia facilmente ocorrer novamente no futuro, sempre que a oligarquia que controla os meios de repressão venha a empregá-los para manter uma versão oca de democracia. Essa é sua obsessão: manter uma situação que poderia ser chamada de democrática, mas que, de fato, consiste em uma democracia importada e superficial, controlada de cima para baixo. Eles têm sido capazes de manter essa situação por um longo tempo. O Haiti é independente há 200 anos, mas nós agora vivemos num país onde um por cento da população controla mais que a metade da riqueza. Para a elite, trata-se de estarmos nós contra eles, de procurar um modo de preservar as desigualdades massivas que afetam cada faceta da sociedade haitiana. Nós estamos submetidos a uma espécie de apartheid. Mesmo depois de 1804, a elite tem feito o possível para manter as massas à margem, no outro lado dos muros que protegem seus privilégios. É a isso que nós somos contra. É a isso que qualquer democracia genuína é contra. A elite fará tudo que puder para certificar-se de que controla um presidente fantoche, que controla um parlamento fantoche. Ela fará o que for preciso para proteger o sistema de exploração do qual seu poder depende. A sua questão deve ser colocada em relação a esse contexto histórico, em relação a essa profunda e considerável permanência.

Continua

CARTA ABERTA DE MICHAEL MOORE

Presidente Obama, coloque-me no lugar de Rahm

 

O5 de Março de 2010

Caro presidente Obama,

Entendi que está buscando colocar alguém no lugar de Rahm Emanuel como seu chefe de equipe. Gostaria de, humildemente, oferecer-me para substituí-lo.

Estarei em Washington e arrumarei a bagunça que tem sido criada em torno de você. Trabalharei por US$ 1 ao ano. Vou ajudar os democratas no Capitol Hill (Congresso Americano) a se encontrarem e os ensinarei como derrotar os republicanos e, sem violência, transformá-los em pasta.

E vou lhe ajudar a dar conta daquilo que o povo Americano o enviou aí para fazer. Não preciso muito, uma cama no porão da Casa Branca será suficiente.

Mas não fique alegre demais com minha oferta, porque você e eu vamos estar de pé às 5 da manhã, 7 dias por semana e vou fazê-lo criar músculos para a batalha todos os dias (veja foto). A cada manhã você e eu vamos fazer 100 polichinelos e você vai repetir comigo:

“O POVO AMERICANO ME ELEGEU, NÃO OS REPUBLICANOS, PARA GOVERNAR O MEU PAÍS! EU ESTOU NO COMANDO! VOU TIRAR TODOS OS OBSTRUCIONISTAS FORA DO MEU CAMINHO! SE O POVO AMERICANO NÃO GOSTAR DO QUE ESTOU FAZENDO PODE ME DAR UM PÉ NA BUNDA EM 2012. ENQUANTO ISSO, TOMO AS DECISÕES EM SEU NOME, FAÇA 50 FLEXÕES!!”

GINÁSTICA

Depois vamos colocar os casacos de ginástica e correr até Capitol Hill. Vamos anotar nomes, dar alguns chutes e depois anotar mais nomes. Se tiver que dar algumas gravatas, que seja. Em nossos bolsos vamos levar pedaços de papel para mostrar aos pançudos democratas quanto eles ganharam em 2008 – e resultados de pesquisas que mostram que a maioria dos americanos se opõem às guerras do Afeganistão e do Iraque e querem ver os banqueiros punidos. Como sargentos em exercícios militares, vamos chegar junto e, nas suas caras, perguntar a eles “QUE PARTE DO MANDATO PÚBLICO VOCÊS NÃO ENTENDERAM, SOLDADOS?!! FAÇAM 50 FLEXÕES!”

Sei que este é o trabalho que Rahm Emanuel deveria estar fazendo.

Agora, não me entenda mal. Sempre admirei Rahm Emanuel (se não for levado em conta seu apoio ao NAFTA no Congresso nos anos 90, que destruiu cidades como Flint, no Estado de Michigan). Ele é o que precisávamos há muito tempo – uma máquina de combate sem pedidos de desculpas, sem poupar prisioneiros. Alguém que não tenha medo de sujar as mãos e faça a direita se submeter. Longe de ser o fanfarrão de boca cheia – como tem sido retratado – Rahm é aquele que BATEU os fanfarrões para nos proteger dela.

Isso foi seguramente o que ele fez em 2006. Depois de seis longos e miseráveis anos com a classe média sendo dizimada e os pobres sendo jogados descarga abaixo, Rahm Emanuel assumiu o trabalho de trazer o Congresso de volta aos Democratas. Ninguém achava que isto pudesse ser feito.

Mas ele o fez. Um grande momento. Ele colocou o medo a Deus no partido de Rush e Newt. Eles nunca tiveram tanto medo. De forma mais importante, instilou senso de esperança nos democratas de que eles poderiam atingir o pódio em 2008 – e com você, um afro-americano, nada menos, na pole position!

Funcionou. A escuridão acabou. A grande maioria da nação chorou de alegria na noite da eleição (os que não estavam chorando, saíram e compraram uma quantidade recorde de armas e munição). Diferente do último presidente, você não ‘venceu’ por 537 votos na Flórida (ainda que Gore tenha vencido no voto popular por mais de meio milhão), você derrotou McCain nacionalmente por 9.522.083 votos! Os democratas na Câmara (House) obtiveram uma galopante margem de 79 votos. Os democratas no Senado reuniriam uma supermaioria de 60 votes, não vista em mais de 30 anos. As guerras acabariam. A América teria saúde universal. Wall Street e os bancos seriam, no mínimo, tratados com rédea curta. Os cidadãos que trabalham duro não seriam despejados. Supunha-se que seria a aurora de uma nova era.

Porém os republicanos não iriam em silêncio noite a dentro. Veja, ao invés de terem apenas um Rahm Emanuel, eles todos são Rahm Emanuels. Por isso normalmente vencem. Diferente da maioria dos democratas, eles são incansáveis e não dá para pará-los. Quando eles acreditam em algo (que é normalmente neles mesmos e no serviço da K Street [avenida em Washington onde se concentram os escritórios de lobistas] pelo qual esperam ser remunerados algum dia), eles vão lutar por aquilo até a morte. São leais aos erros uns dos outros (nunca foram capazes de denunciar Bush, ainda que soubessem que estava destruindo o partido). Eles atolam suas rodas fundo, não importa no que. Se você os exilasse em um bloco de gelo polar em derretimento, eles seguiriam insistindo de que se trata de um “degelo normal de janeiro”, ainda que as frígidas águas árticas chegassem acima de seus pescoços tementes a Deus (“Vejam o que estou dizendo – a água está GELADA! Qual ‘aquecimento global’?! Adão e Eva montavam em dinossauros … qual é!!!...gulp, gulp gulp”).

LOUCURA

Pensávamos que estávamos todos livres desta loucura, mas estávamos errados. Como uma besta que simplesmente não se pode enjaular, os republicanos convenceram não apenas a mídia, mas VOCÊ e seus colegas democratas, de que 59 votos seria uma ‘minoria’! Tempo precioso foi gasto tentando chegar a um “consenso” e tentando ser “bipartidário”.

Bem, você e os democratas estão no comando por mais de um ano e não há uma regulamentação bancária reposta. Não temos plano de saúde universal. A Guerra no Afeganistão entrou em escalada. E dezenas de milhares de americanos continuam a ser jogados para fora de suas casas. Para muitos de nós, simplesmente não é suficientemente bom que Bush tenha ido embora. Woo hoo. Bush se foi. Yippee. Isso não criou nenhum novo emprego.

Você é um cara tão legal, Mr. President. Chegou a Washington com sua mão estendida aos republicanos e eles simplesmente a cortaram. Você quis ser respeitoso e eles decidiram que iriam dizer “não” a tudo que você sugerisse. E ainda assim você se manteve dizendo acreditar no bipartidarismo.

Bem, se você realmente quer bipartidarismo, vá em frente e deixe os republicanos vencer em novembro. Aí vai ter todo o bipartidarismo que deseja.

CONSERTO

Deixe-me ser claro sobre uma questão: os democratas, no dia da eleição de 2010, vão gestar uma decepção de proporções bíblicas se as coisas não mudarem agora, já. E depois que a nova maioria republicana retomar o poder, eles, junto com uns poucos democratas conservadores vão chegar ao bipartidarismo e promover seu impeachment por você ser um socialista e um cidadão do Quênia. Como será bom ver os dois lados do corredor juntos novamente!

E a pequena janela que tínhamos para consertar o país terá se afastado.

Ido embora.

Ido embora, baby, ido.
Não sei no que a sua equipe andou metida, mas não o serviram bem. E Rahm, pobre Rahm, tornou-se um lutador – não contra os republicanos, mas contra a esquerda. Ele chamou aqueles de nós que querem saúde pública de “retardados fud...”. Veja, não sei se o problema é Rahm ou se é Gibbs ou Axelrod ou alguma das grandes pessoas às quais você deve agradecimentos por ter sido eleito. Tudo que sei é que tudo aquilo que serviu de combustível para levá-lo à Casa Branca está virando fumaça. É hora de chacoalhar as coisas! É hora de me chamar para bombá-lo toda manhã! Vai Barack! Vamos Obama! Lute, equipe, lute!

MALAS

Estou de malas prontas e pronto para ir a Washington amanhã mesmo. Se isso ajuda não vou perder Rahm inteiramente por que estarei trazendo seu irmão comigo – meu agente, Ari Emanuel. Cara, você devia vê-lo fazendo um negócio! Você já pensou em ver Mitch McConnell [líder da bancada republicana no Senado] andando em volta de Capitol Hill carregando sua própria cabeça nas mãos depois que ela lhe foi entregue pelo infame Ari? Oh, baby, não vai ser nada bonito – mas rapaz – vai ser doce!
O que você diz, Barack? Você e eu contra o mundo! Sim, nós podemos! Vai ser engraçado – e nós poderemos conseguir fazer alguma coisa. O que você tem a perder? A esperança?
Retardadamente seu,
Michael Moore
MMFlint@aol.com
MichaelMoore.com
P.S. Só para lhe dar uma idéia do novo estilo que estarei trazendo comigo, quando um miolo mole como o senador Ben Nelson tentar segurá-lo da próxima vez, eis o que eu direi para conseguir o seu voto: “Você tem exatamente 30 segundos para rescindir sua demanda ou eu vou pessoalmente garantir que Nebraska não consiga nenhum dólar federal pelo resto do mandato de Obama. E depois vou fazer com que todo mundo em seu Estado saiba que você usava calças curtas, para trás. Agora faça 50 flexões” 

“Greve de fome não pode ser pretexto para liberar bandidos”, diz presidente

 

As declarações de presidente Lula à Associated Press de que o Brasil respeita as decisões do sistema judiciário de Cuba como quer ver respeitado o do Brasil gerou alvoroço e histeria na mídia colonizada local. “A greve de fome não pode ser um pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em SP entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”, ponderou o presidente. Nada mais justo. Lugar de bandido é na cadeia. No entanto, os serviçais do império para tentar atingir a figura de Lula, estão transformando delinqüentes comuns, ladrões, assaltantes e traficantes cubanos em paladinos dos direitos humanos e em “dissidentes políticos”. Senão vejamos.

Guillermo Fariñas, atualmente em greve de fome, apesar de estar solto, foi integrante do bando do traficante Arnaldo Ochoa, e tem sobre si várias condenações criminais. Segue uma pequena ficha corrida do marginal: primeira condenação em 1995, quando agrediu uma funcionária do posto de saúde onde trabalhava como psicólogo. A segunda, em 2002, quando agrediu outra pessoa idosa usando um bastão, tão fortemente que tiveram de extrair-lhe o baço. Por isso, ele foi condenado a 5 anos e 10 meses de prisão, por um tribunal da cidade de Santa Clara. Desde então, vem usando greves de fome para “libertar presos”. Mesmo assim, ele ganhou, em dezembro de 2003, licença para cumprir a pena em liberdade.

O outro, Orlando Zapata, morto há alguns dias em consequência de uma greve de fome também nunca foi ativista político. Ele era um preso comum que iniciou a sua atividade criminosa em 1988. Foi julgado e condenado pelos delitos de “violação de domicílio” (1993), assalto a mão armada e “lesões com posse de arma branca”. Saiu em liberdade condicional no mês de março de 2003 e dez dias depois já cometeu um novo delito e voltou para a cadeia.
S.C.