terça-feira, abril 26, 2011

O Norte revolto e brutal

FIDEL CASTRO

Estava lendo materiais e livros em abundância para cumprir minha promessa de continuar a Reflexão de 14 de abril sobre a Batalha de Girón, quando dei uma olhada nas notícias frescas de ontem, que são abundantes como todos os dias. Podem-se acumular montanhas em qualquer semana, que vão desde o terremoto no Japão, até a vitória de Ollanta Humala sobre Keiko, filha de Alberto Fujimori, ex-presidente do Peru.

Peru é grande exportador de prata, cobre, zinco, estanho e outros minerais; possui grandes jazidas de urânio que poderosas transnacionais aspiram explorar. Do urânio enriquecido saem as armas mais terríveis que a humanidade conheceu, e o combustível das usinas termonucleares que, apesar das advertências dos ecologistas, estavam sendo construídas em ritmo acelerado nos Estados Unidos, na Europa e Japão.

Não seria justo, é claro, culpar o Peru por isso. Os peruanos não criaram o colonialismo, o capitalismo e o imperialismo. Também não se pode culpar o povo dos Estados Unidos, que também é vítima do sistema que tem engendrado ali os políticos mais atordoados que o planeta tem conhecido.

No dia 8 de abril os amos do mundo publicaram seu relatório anual de costume sobre as violações dos “direitos humanos”, o que motivou uma aguda análise no site Web Rebelión, assinado pelo cubano Manuel E. Yepe, baseada na resposta do Conselho de Estado da China, enumerando fatos que demonstram a desastrosa situação de tais direitos nos Estados Unidos.

“…os Estados Unidos são o país onde mais se agridem os direitos humanos, tanto em seu próprio país quanto no mundo todo, e é uma das nações que menos garante a vida, a propriedade e a segurança pessoal dos seus habitantes.

“Cada ano, uma em cada 5 pessoas é vítima de um crime, a taxa mais alta do planeta. Segundo cifras oficiais, as pessoas maiores de 12 anos sofreram 4,3 milhões de atos violentos.

“A delinqüência cresceu de forma alarmante nas quatro maiores cidades do país (Filadélfia, Chicago, Los Angeles e Nova Iorque), e registraram-se incrementos notáveis relativamente ao ano anterior em outras grandes urbes (Saint Louis e Detroit).

“O Tribunal Supremo resolveu que a posse de armas para a defesa pessoal é um direito constitucional que não pode ser ignorado pelos governos estaduais. Noventa dos 300 milhões de habitantes do país possuem 200 milhões de armas de fogo.

“No país se registraram 12.000 homicídios causados por armas de fogo, ao passo que 47% dos roubos foram cometidos igualmente com uso dessas armas.

“À sombra da seção de “atividades terroristas” do Ato Patriótico, a tortura e a extrema violência para obter confissões de suspeitos são práticas comuns. As condenações injustas ficam evidenciadas nas 266 pessoas, 17 delas já no corredor da morte, que têm sido absolvidas graças a provas de DNA.

“Washington advoga pela liberdade na Internet para fazer da rede de redes uma importante ferramenta diplomática de pressão e hegemonia, mas impõe estritas restrições no ciberespaço em seu próprio território, e tenta estabelecer um cerco legal para lidar com o desafio que representa Wikileaks e suas infiltrações.

“Com uma alta taxa do desemprego, a proporção de cidadãos estadunidenses que vive na pobreza atingiu um nível recorde. Um em cada oito cidadãos participou no ano passado nos programas de cupões para alimentos.

“O número de famílias acolhidas em centros para desamparados aumentou 7% e as famílias tiveram que permanecer mais tempo nos abrigos. Os delitos violentos contra essas famílias sem teto aumentam sem cessar.

“A discriminação racial permeia cada aspecto da vida social.  Os grupos minoritários são discriminados em seus empregos, tratados de maneira indigna e não são levados em conta para promoções, benefícios ou processos de seleção trabalhista. Um terço dos negros sofreu discriminação em seus lugares de trabalho embora só 16% se atrevesse a fazer uma queixa.

“A taxa de desemprego entre os brancos é de 16,2 %, entre hispanos e asiáticos de 22 %, e entre os negros é de 33 %. Os afro-americanos e os latinos representam 41% da população carcerária. A taxa de afro-americanos cumprindo prisão perpétua é 11 vezes mais alta do que a de brancos.

“90% das mulheres têm sofrido discriminação sexual de algum tipo em seu local de trabalho. Vinte milhões de mulheres são vítimas de estupro, quase 60.000 presas têm sofrido agressão sexual ou violência. Uma quinta parte das estudantes universitárias são agredidas sexualmente e 60% das violações em campus universitários acontece nos dormitórios femininos.

“Nove em cada dez estudantes homossexuais, bissexuais ou transexuais sofrem de assédio no centro escolar.

“O relatório dedica um capítulo a lembrar as violações dos direitos humanos de responsabiidade do governo dos Estados Unidos fora de suas fronteiras. As guerras do Iraque e do Afeganistão, dirigidas pelos EUA, têm causado cifras exorbitantes de vítimas entre a população civil desses países.

“As ações ‘anti-terroristas’ dos EUA têm incluído graves escândalos de abuso a prisioneiros, detenções indefinidas sem acusações ou julgamentos em centros de detenção como o de Guantánamo e outros lugares do mundo, criados para interrogar os denominados ‘presos de grande valor elevado’ onde se aplicam as piores torturas.

“O documento chinês também lembra que os EUA têm violado o direito a existir e a se desenvolver à população cubana sem acatar a vontade mundial expressada pela Assembléia-Geral da ONU durante 19 anos consecutivos sobre ‘A necessidade de pôr término ao bloqueio econômico, comercial e financeiro contra Cuba’.

“Os EUA não ratificaram convenções internacionais sobre os direitos humanos como o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas da Discriminação contra a Mulher; a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiências e a Convenção sobre os Direitos da Criança.

“Os dados fornecidos pela recontagem apresentada pelo governo chinês demonstram que o funesto histórico dos EUA neste terreno o desqualificam como ‘juiz dos direitos humanos no mundo’. Sua ‘diplomacia dos direitos humanos’ é pura hipocrisia de dois pesos e duas medidas a serviço de seus interesses imperiais estratégicos. O governo chinês aconselha ao governo dos EUA que tome medidas concretas para melhorar sua própria situação em direitos humanos, que examine e retifique suas atividades nesse terreno e pare com seus atos hegemônicos consistentes em utilizar os direitos humanos para interferir nos assuntos internos de outros países.”

O importante desta análise, em nossa opinião, é que se faça tal denúncia num documento assinado pelo Estado chinês, um país de 1.341 milhões de cidadãos, que possui 2 trilhões de dólares em suas reservas monetárias, sem cuja cooperação comercial o império se afunda. Considerei importante que nosso povo conhecesse os dados precisos contidos no documento do Conselho de Estado chinês.

Se Cuba o dissesse, careceria de importância; levamos mais de 50 anos denunciando esses hipócritas.

Martí disse há 116 anos, em 1895: “…o caminho que se há de fechar, e com nosso sangue estamos fechando, da anexação dos povos da nossa América, ao Norte revolto e brutal que os despreza…”

“Vivi no monstro, e conheço-lhe as entranhas”.

A GM no Rio Grande do Sul: notas sobre um negócio nada exemplar

O texto que publicamos hoje nesta página são extratos (não chega a ser uma condensação) do trabalho “Novos investimentos na indústria automobilística brasileira: o caso gaúcho”, dos economistas Flávio Benevett Fligenspan e Maria Lucrécia Calandro, que poderá ser lido na íntegra emhttp://revistas.fee.tche.br/index.php/indicadores/article/viewFile/1403/1765.

Trata-se de um estudo apresentado no III Seminário de Economia Industrial, Política Industrial e Desenvolvimento Econômico da UNESP/Araraquara, SP, em agosto de 2002, posteriormente publicado, em dezembro do mesmo ano, na revista “Indicadores Econômicos FEE”, da Fundação de Economia e Estatística, vinculada à Secretaria de Planejamento do Governo do Rio Grande do Sul.

Seu tema é o implante da General Motors no Rio Grande do Sul, com a constituição do chamado “Complexo Industrial Automotivo General Motors” (CIAG), em Gravataí, composto pela GM e mais 17 empresas “sistemistas”, isto é, fornecedoras e contratadas da multinacional norte-americana. Os autores entrevistaram representantes de todas as empresas e escrutinaram rigorosamente os números da Secretaria da Fazenda do Estado (Sefaz/RS) referentes ao CIAG.

Apesar dos nove anos que decorreram desde sua publicação, esse estudo é curiosamente atual, é verdade que, em parte, não por responsabilidade dos autores, mas pela incrível circunstância de que pouco mudou desde então.  Como se pode ler no site do CIAG, o “complexo” continua formado exatamente pela GM e suas 17 “sistemistas” e o número total de empregados da GM e das outras empresas, que era de apenas dois mil no ano de 2001, hoje é de 5.200 – em 10 anos, a GM e suas “sistemistas” ofereceram aos gaúchos a impressionante quantidade de mais 3.200 empregos, ou seja, 320 por ano.

Quanto às “sistemistas”, são quatro companhias norte-americanas, duas francesas, duas alemãs, uma inglesa, uma holandesa, uma com sede na Índia que foi fundada nos EUA, cinco empresas de São Paulo que há muitos anos tinham como único mercado a própria GM, e apenas uma empresa gaúcha.

Portanto, não é espantoso que os autores constatem que “é bem reduzida a integração das empresas do ClAG com fabricantes locais, seja de peças e componentes, seja de insumos e matérias-primas, não se estabelecendo vínculos de cooperação ou trocas tecnológicas”. A GM e suas “sistemistas” são, portanto, um enclave dentro da economia do Rio Grande do Sul.

O escândalo é que se trata de um enclave espoliador: a GM instalou-se no RS às custas do dinheiro do povo gaúcho. No texto desta página, o leitor poderá tomar conhecimento dos favorecimentos quase inacreditáveis concedidos pelo governo Antonio Britto à GM, inclusive usando o dinheiro arrecadado nas privatizações de empresas públicas para financiar – mais correto seria dizer: doar - a multinacional, na época a maior empresa dos EUA. Perto disso, um dos maiores escândalos da ditadura, os favorecimentos à FIAT para sua implantação em Betim, MG, que rendeu algumas das melhores reportagens já publicadas no país, parece obra filantrópica. E nem falemos da profícua administração Yeda Crusius, aquela governadora que declarou: “mais do que brasileira, a GM é gaúcha”...

C.L.

FLÁVIO BENEVETT FLIGENSPAN * E MARIA LUCRÉCIA CALANDRO **

Tão logo foi anunciada a vinda da GM para o Rio Grande do Sul, teve início um amplo debate sobre as repercussões de tal investimento para a economia gaúcha, que subsidiou estudos com projeções de crescimento da renda, do emprego e da arrecadação tributária, em alguns casos, extremamente otimistas.

Dentre os fatores que pesaram na decisão da empresa de se localizar no Rio Grande do Sul, certamente um deles foi a localização estratégica do Estado diante da nova geografia do Mercosul. Os aspectos ligados à infraestrutura do Rio Grande do Sul (telecomunicações, água, energia elétrica, transporte), se não poderiam ser classificados como excelentes, em geral não eram de pior qualidade que os de outros estados da Federação, não se constituindo como pontos negativos.

Já no que se refere à qualificação da mão de obra, seja através da rede de ensino básico, seja através dos cursos técnicos, ou dos centros de treinamento especializados e dos cursos universitários, as condições eram tidas como superiores às dos demais estados.

Outro aspecto que influenciou a decisão da empresa foi a existência de uma organização sindical menos ativa que a de São Paulo. O diferencial de salários em relação ao centro do País, uma característica antiga da indústria gaúcha, também era tido como um fator de atração.

Além dos aspectos anteriormente considerados, a decisão da empresa de instalar sua planta especificamente no RS foi influenciada pelo amplo rol de incentivos oferecidos pelo Governo do Estado. Esses incentivos foram de toda ordem, compreendendo subsídio para aquisição de terreno, instalação de infraestrutura a cargo do Estado e suas companhias, empréstimo para construção das instalações físicas e compra de equipamentos e benefícios tributários diversos, envolvendo devolução ou desconto de ICMS.

Depois de várias especulações, ficou definido que era imprescindível para a empresa se instalar próxima ou na própria Região Metropolitana de Porto Alegre, com bom acesso à infraestrutura, principalmente em relação à rodovia que a ligasse ao centro do País e ao porto de Porto Alegre, o que lhe permitiria uma ligação fluvial com o porto de Rio Grande. Essa ligação era importante para viabilizar a importação de veículos da planta da GM na Argentina com benefícios fiscais. A escolha, então, recaiu sobre o Município de Gravataí, muito próximo de Porto Alegre e com acesso privilegiado por autoestrada (BR-290).

O passo seguinte, a cargo do Estado, foi a escolha e a desapropriação do terreno de 363,11 ha, o que implicou um desembolso de R$ 8,7 milhões pelo Estado até o ano de 1999, correspondendo a mais de 90% da área decretada para fins de desapropriação.

Quanto à infraestrutura a ser construída especificamente para o site em Gravataí e também para os portos de Rio Grande e Porto Alegre, o Governo do Estado comprometeu-se a fornecer uma ampla gama de itens:

- terraplanagem e urbanização do terreno;

- instalação de uma ligação de gás natural;

- garantia de fornecimento preferencial de energia elétrica e fibra ótica;
- instalação de linhas de efluentes sanitários e industriais;

- tratamento de efluentes e resíduos sólidos;

- construção e/ou modernização, em área próxima ao porto de Rio Grande, de um terminal marítimo privativo completo;

- diligência para a instalação de meios e equipamentos hábeis para permitir a navegação automática na Lagoa dos Patos, proporcionando a ligação entre Porto Alegre e Rio Grande;

- realização de melhoramentos e manutenção nas rodovias a serem utilizadas para o transporte, bem como providências para a construção de todos os acessos necessários ao Complexo Automotivo e de uma via marginal frontal pavimentada, com denominação proposta de “Avenida General Motors”;

- o Estado também viabilizará, junto à administração do Município de Gravataí, o fornecimento de sistemas de coleta de lixo comum do tipo doméstico e seu respectivo transporte até a área de despejo; a instalação de iluminação pública nas vias do Complexo Automotivo; o fornecimento de transporte público coletivo, com linhas ligando o Complexo Automotivo com o centro urbano do Município, com bairros residenciais e com o sistema de transporte urbano da Região Metropolitana de Porto Alegre, a ser reforçado nos horários de entrada e saída dos funcionários; reforço dos serviços de segurança pública prestados no CIAG [Complexo Industrial Automotivo General Motors].

Já no que se refere ao empréstimo para construção das instalações físicas e compra de equipamentos, o valor acordado em 1997 foi de R$ 253,3 milhões, com cinco anos de carência, 10 anos para amortização e juros de 6% a.a., sem correção monetária. Os recursos vinham do Fundo de Reforma do Estado (FRE) e eram oriundos de verbas geradas pela privatização completa ou parcial de empresas estatais. [NOTA DOS AUTORES: A ideia era usar a venda do patrimônio público para gerar recursos capazes de atrair empresas que mudassem a matriz produtiva do Estado, além de construir um fundo de aposentadoria pata os professores da rede estadual, o que nunca ocorreu.]

O Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) liberou os recursos em março de 1997, e o projeto começou a ser implantado efetivamente no meio daquele ano.

Quanto aos benefícios tributários estaduais concedidos, três modalidades podem ser relacionadas. A mais importante delas se refere ao Fundo de Fomento Automotivo do Estado do Rio Grande do Sul (Fomentar/RS), instituído em dezembro de 1996 e regulamentado em setembro de 1997 especificamente para o Complexo Automotivo de Gravataí, como o decreto de regulamentação o denomina. Trata-se de um benefício destinado a financiar o capital de giro das empresas do complexo, que pode ser concedido em forma de empréstimo mensal pelo Banrisul ou em forma de crédito fiscal presumido.

No montante do financiamento, inclui-se (…) o valor da CPMF. As condições do financiamento são: prazo máximo de fruição de 15 anos, carência de até 10 anos, prazo de amortização de até 12 anos e não incidência de juros ou qualquer mecanismo de correção monetária.

Assim, a amortização será feita em até 144 parcelas mensais, iguais e sucessivas, respeitado o período de carência, o que caracteriza praticamente a isenção completa do ICMS gerado.

O Protocolo do Governo do Estado com a GM prevê que os sistemistas não arrecadem ICMS, pois ele é diferido para a GM, isto é, somente ela é que paga o imposto. Contudo os créditos de ICMS dos sistemistas, que são contabilizados quando da compra de matérias-primas, podem ser comprados pela GM, que os utiliza para diminuir o valor do imposto a recolher, isto é, o valor que é objeto do Fomentar.

Faz parte do Protocolo do Governo do Estado com a GM a concessão de outro benefício fiscal, o Fundo de Operação Empresa (Fundopem), que está previsto para fruir somente após o término do Fomentar, portanto, a partir do 16º ano de operação do Complexo, por mais oito anos. O Fundopem é um tipo de benefício existente em vários estados da Federação, apresentando variações em cada um deles, mas, no geral, significando uma redução significativa do imposto a recolher, baseado na restituição do ICMS incremental gerado por novos investimentos. À época do Protocolo, o regulamento do Fundopem previa que esse benefício se constituiria a fundo perdido, mas, atualmente, ele está alterado, não mais funcionando dessa forma. O que valeria para a GM, nos moldes antigos, era a retenção, pela empresa, de 75% do ICMS devido, a título de restituição do investimento realizado, limitado a 100% dos investimentos fixos. Esse valor corresponde a, aproximadamente, 5,5% do faturamento bruto mensal da empresa. [N.HP:  Os autores acrescentam, em anexo, que o Fundopem, depois, passou a ser um “programa de incentivos que prevê a retenção de um percentual do ICMS para ser usado como capital de giro. Os recursos têm de ser restituídos, embora em condições muito vantajosas de financiamento. A taxa de juros varia de 0% a 6% a.a., e a correção monetária alcança, no máximo, 90% da variação da TR do período. O prazo de pagamento vai de quatro anos e meio a oito anos.”]

Um terceiro benefício fiscal concedido à GM refere-se à isenção do ICMS nos casos de importação de máquinas e equipamentos sem similar no RS. O valor total dessas importações, conforme o projeto inicial, corresponde a R$ 69,2 milhões.

O Município de Gravataí isentou a GM e seus sistemistas dos seguintes tributos: IPTU, ISSQN [Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza], inclusive sobre serviços prestados na construção civil das fábricas do Conjunto Industrial, Taxa de Limpeza Pública, taxas para obtenção de Alvará de Localização, Licença e Funcionamento, Taxas de Licença para Publicidade, Taxas para Obtenção de Alvará de Construção e Ocupe-se (habite-se), Contribuição de Melhoria, Taxa de Controle de Incêndio e outros tributos que vierem a ser criados e que estejam relacionados ao complexo automotivo e às atividades a serem desenvolvidas. A isenção é concedida pelo prazo de 20 anos, contado do primeiro vencimento de cada um dos tributos. Além disso, o Município de Gravataí garante à GM a devolução de parte do que lhe cabe do ITBI [Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis] incidente sobre a área onde se instalou o Complexo Automotivo.

RESULTADOS

Na avaliação preliminar dos impactos, examina-se, primeiramente, o grau de integração da GM e de seus sistemistas com empresas locais, através de entrevistas com representantes das empresas do ClAG.

As compras de firmas locais são muito reduzidas, isto porque, na opinião do entrevistado [representante da GM], os fabricantes locais não estão capacitados. Não fornecem grandes volumes, nem conseguem atender aos níveis de exigência em termos de preços e qualidade requeridos para entrar na cadeia de suprimentos da montadora. Contudo convém destacar que tanto a GM quanto seus sistemistas praticamente desconhecem a amplitude do parque industrial local.

As [outras] empresas visitadas vendem quase exclusivamente para a GM, e duas delas destinam uma pequena parte de sua produção para outras plantas da GM em São Paulo. De um modo geral, esses sistemistas realizam operações de montagem de peças e componentes provenientes, em grande parte, de suas plantas sediadas em São Paulo ou em outros estados e de outros fabricantes de partes e peças. As compras locais são realizadas principalmente dentro do próprio site, de sistemista para sistemista, restando para as empresas gaúchas o fornecimento de um volume pequeno de itens de baixo valor agregado.

Em termos de tecnologia, observou-se que os sistemistas possuem a certificação exigida pelas montadoras e são empresas com alta qualificação no processo produtivo que fabricam os componentes e conjuntos segundo projeto da matriz. Isto é, as plantas do site não fazem inovação — o produto é conhecido, as peças e componentes de maior valor agregado vêm da planta de São Paulo. O que fazem em Gravataí é processar matérias-primas em máquinas e equipamentos automatizados e montar componentes segundo projeto desenvolvido pela matriz.

A área de engenharia não existe nessas empresas, porque todo o desenvolvimento do produto e do processo de fabricação foi feito fora do site.

A relação com universidades e centros de pesquisa é quase ausente, o que pode ser explicado pelo fato de que a parte de engenharia é toda realizada nas plantas de São Paulo.

Os sistemistas possuem plantas bastante enxutas, que se caracterizam por pequena área física e reduzido número de empregados no chão-de-fábrica. Os que realizam apenas operações de montagem possuem unidades enxutas pela própria natureza da atividade; e os que transformam matéria-prima, porque operam com máquinas e equipamentos computadorizados.

No final de 2001, o número total de empregos diretos da GM e de seus 16 sistemistas instalados no site era de cerca de dois mil.

A avaliação dos impactos econômicos do ClAG também pode ser realizada mediante a análise das informações fornecidas pela Secretaria da Fazenda do Estado do RS (Sefaz) para 2001, o único ano completo de operação do complexo até o momento. Esses dados revelam que, do valor total das entradas [N.HP: indicativas de compras] da GM, apenas 28,5% correspondem às saídas [N.HP: indicativas devendas] do bloco dos 16 sistemistas estabelecidos no site para o próprio RS, entenda-se para a GM.

Examinando-se os números globais de entradas e saídas da Sefaz, sem abertura de origem e destino por região, verifica-se que, quando referidos ao valor total das entradas [compras] da GM, 30,7% correspondem ao valor das entradas [compras] dos 16 sistemistas, e apenas 33,0%, às saídas [vendas]. Chama atenção a pequena diferença entre o total das entradas [compras] e o total das saídas [vendas] dos 16 sistemistas, mostrando uma baixa agregação de valor, ou seja, indicando que eles trabalham com processos enxutos, poupadores de mão de obra, com salários baixos e margens de lucro estreitas no fornecimento para a GM.

Nas entrevistas, pôde-se constatar que as empresas do Complexo mantêm frágeis relações comerciais com as empresas locais, visto que compram a maioria das partes e componentes de suas matrizes ou de outras empresas estabelecidas principalmente em São Paulo. Um percentual pequeno é comprado de outros sistemistas, dentro do próprio ClAG, e poucas empresas locais estão inseridas na cadeia de fornecimento do Complexo. Praticamente todas as fabricantes de autopeças que participam do processo já eram parceiras antigas da GM, no Brasil ou no Exterior. Desse modo, é bem reduzida a integração das empresas do ClAG com fabricantes locais, seja de peças e componentes, seja de insumos e matérias-primas, não se estabelecendo vínculos de cooperação ou trocas tecnológicas. O mesmo se observa em termos de interação entre as empresas do site e as instituições de ensino e de pesquisa, onde as trocas praticamente não acontecem, com exceção do Senai, utilizado para treinamento de mão-de-obra. A demanda por esse tipo de treinamento, não específico, mostra que não são exigidos no ClAG requisitos muito diferentes dos já utilizados por firmas locais de outros setores.

* Professor da UFRGS.

** Economista da FEE e Professora da PUCRS.

quinta-feira, março 24, 2011

“Ajuda humanitária” mata civis na Líbia

Assaltantes de petróleo iniciam ataque aéreo

“Ajuda humanitária” mata civis na Líbia

Mísseis dos EUA, França e Reino Unido explodem hospital, pontes e casas

A operação “Odisséia do Amanhecer” assassinou, em três dias consecutivos de ataques, mais de 100 civis e feriu centenas – inclusive crianças e mulheres -; atingiu hospital, ônibus e casas; devastou estradas, pontes, aeroportos civis e até uma aldeia de pescadores; e incendiou um oleoduto. A residência de Kadafi no bairro de Bab el Azizia, na capital, que Reagan bombardeou em 1986, voltou a ser destruída 25 anos depois por míssil disparado de submarino inglês. Além de Trípoli, já foram bombardeadas Benghazi, Zuwarah, Sirta, Tarhuna, Misrata, Maamura, Jmeil, Sebha e outras cidades.

 

Coalizão dos EUA ataca Líbia com mísseis e mata mais de 100 civis

Sob o pretexto de “proteger civis”, EUA, França e Inglaterra já explodiram, desde o dia 19, hospitais, ônibus, casas, carros particulares, estradas, aeroportos, pontes e a residência do líder Kadafi

A operação “Alvorecer da Odisséia” assassinou, em três dias se-
guidos de ataques, mais de 100 civis líbios e feriu centenas – inclusive bebês e mulheres -; atingiu dois hospitais e uma clínica cardiológica; destruiu ônibus, automóveis e casas; devastou estradas, pontes, aeroportos civis e até uma aldeia de pescadores; e incendiou um oleoduto e vários depósitos de combustível. A residência de Kadafi no bairro de Bab el Azizia, na capital, que Reagan bombardeou em 1986, voltou a ser destruída 25 anos depois por míssil disparado de submarino inglês. Além de Trípoli, já foram bombardeadas Benghazi, Zuwarah, Sirta, Tarhuna, Misrata, Maamura, Jmeil, Sebha e outras cidades. O ataque, encabeçado pelos EUA, França e Reino Unido, começou na véspera de completar oito anos de invasão do Iraque, ex-Operação Tempestade no Deserto, rebatizada por Barack Obama como “Novo Amanhecer”.

B-52

Não foi apenas o governo líbio que denunciou o banho de sangue desfechado a partir de porta-aviões e submarinos norte-americanos, ingleses e franceses, e inclusive por bombardeiros de longo alcance B-2 desde os EUA. A Rússia denunciou que “ataques contra alvos não-militares [isto é, contra civis] nas cidades de Trípoli, Maamura e Jmeil”. Como consequência – acrescentou o porta-voz da chancelaria russa, Aleksandr Lukashevich, “morreram mais de 48 civis e mais de 150 ficaram feridos”. Ainda segundo a Rússia, “um centro de cardiologia ficou parcialmente destruído e estradas e pontes foram atingidas” pelos bombardeios. Em três dias, a carnificina já chegara a mais de 100 civis e centenas de feridos, o que reforçou a condenação, ou oposição aos bombardeios, da China, Índia, Brasil, Alemanha, Turquia, União Africana e muitos países latino-americanos.

Um quadro tal que o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, que articulara a proposta de “uma zona de exclusão aérea sem tropas terrestres”, se viu forçado condenar no domingo dia 20 os bombardeios. “Era para proteger civis, não para matar mais civis”, admitiu, para, no dia seguinte, se dizer “mal interpretado”.

Além dos EUA, França, e Reino Unido, outros satélites mandaram seus aviões e navios para a agressão à Líbia, como a Espanha, Canadá, Bélgica e Dinamarca, além do protetorado do Qatar. A Itália “sobrevoa mas não dispara”. Por causa da oposição da Alemanha e Turquia, segue emperrada a manobra para que a agressão passe a ser assumida, formalmente, pela Otan.

FUNERAL COLETIVO

Só no primeiro informe dos raides aéreos divulgado pelo Pentágono, 112 mísseis de cruzeiro Tomahawk “contra 20 alvos”; por sua vez a França deixava seu rastro de sangue e bombas na estrada para Benghazi e outros pontos do país. A televisão líbia, que exibira imagens de pessoas hospitalizadas após o bombardeio aéreo, mostrou também um funeral coletivo em Trípoli das vítimas civis da agressão estrangeira.

“O tio de um bebê de três meses, uma menina, ficou parado diante do recém-cavado túmulo, coberto com algumas rosas”, descreveu o correspondente na capital do jornal “China Daily”. “O tio, Muhamad Salim, relatou que o ataque aéreo que atingiu a casa do bebê também feriu sua mãe”. O jornal chinês registrou como o funeral coletivo se transformou em uma manifestação contra o agressor estrangeiro, com uma multidão percorrendo as ruas da capital, acompanhada de milicianos que disparavam para o alto.

“É isso que eles chamam de democracia? Isso não é senão a matança de gente inocente, bebês, gritou uma jovem, enquanto outros protestos espocaram e irromperam convocações para a guerra de libertação”.

No sábado dia 19, a televisão líbia denunciou a investida da força de agressão estrangeira contra a cidade natal de Kadafi, Sirta, a 600 km da capital. “Vocês viram aquele lugar [o aeroporto da cidade]. É um aeroporto civil. Foi bombardeado e muitos morreram”, disse aos correspondentes estrangeiros o porta-voz do governo líbio, Mussa Ibrahim. “Também foram bombardeados portos”. Na segunda-feira dia 21, os ataques foram contra Sehba, cidade a 750 km que, para a mídia imperial, é um bastião da tribo Guededfa, a mesma de Kadafi. Nem mesmo um pequeno povoado de pescadores, a 27 km da capital, e sem qualquer importância militar, foi poupado.

ANTONIO PIMENTA

quarta-feira, março 23, 2011

Brasil, Líbia e a parafernália midiota


LEONARDO SEVERO
Em visita ao Brasil, o presidente Barack Obama – o que ia enquadrar os bancos, fechar Guatánamo e retirar as tropas do Iraque e do Afeganistão – anuncia covarde e solenemente a continuidade da política de terrorismo de Estado dos EUA e manda atacar a Líbia.
Claro, como se apressou a esclarecer o mentirapresentador Wiliam Waack e a Rede Globo de Televisão, tudo sem qualquer risco para os seres humanos. Para os verdadeiros, obviamente, não para aquela gente que vive no deserto cheio de petróleo.
O ataque seria “higiênico”, feito por mísseis “inteligentes” e vôos não tripulados contra alvos estritamente militares, tudo bem calculado. Assim, comemoram as agências desinformativas internacionais, em meio a imagens holliwoodianas dos tomahawk – nome dado às machadinhas pelas tribos indígenas Algonquin e Iroquois que habitavam o leste da América do Norte até serem dizimadas a mando dos governos dos cowboys. Lançados de “moderníssimos” porta-aviões, os novos tomahawk são remetidos em missão humanitária pelos que se crêem xerifes do mundo. Um sucesso tão grande que já ultrapassa 100% de êxito, conforme as agências que já tinham as fotos prontas antes de acertarem os alvos. Aliás, há sempre um fotógrafo das agências dos países agressores (EUA, França e Inglaterra), para mostrar um tanque de soldados leais a Kadafi em chamas. Uma cobertura impressionante, pois é certamente tão perfeita quanto isenta.
Como no Iraque? Quantos ainda lembram do menino sem braços – e sem família – considerado um pequeno “efeito colateral” dos bombardeios “cirúrgicos” sob Bagdá recebendo ajuda desinteressada nos EUA? No órfão de pais e país, foram colocadas próteses ultra modernas, membros de última geração, o primor da tecnologia, ao dispor para ajudar os necessitados.
É desta mesma forma que o “regime do coronel Kadafi” está sendo castigado em Trípoli, dizem, Nem uma palavra – ou imagem - sobre os bairros residenciais atingidos ou das centenas de civis vitimados na ação que teoricamente serviria para libertá-los. Que importa? Foi detido o avanço das tropas “bárbaras”, “sanguinárias” e “mercenárias” que estavam a ponto de chegar a Bengazi. A auto-proclamada capital dos “rebeldes”, a soldo dos que buscam secionar o país para o “ocidente” tomar de assalto suas imensas riquezas, foi finalmente colocada não muito sã, mas a salvo. Custe o que custar, é preciso parasitar esta incalculável energia para livrar o mundo da crise que abala os EUA e que se alastra impiedosa pela Europa, alavancando o desemprego, rebaixando salários e desaparecendo com direitos.
Os países da auto-intitulada “coalizão”, na verdade os neo-nazistas, como apontou o líder líbio, “querem fazer o tempo voltar atrás e tomar o petróleo que pertence e deve estar sob controle do povo”. “Gostaria que eles lembrassem da aventura em que estão se envolvendo. Esqueceram de como foram atingidos na Argélia, no Vietnã e querem ouvir novamente o clamor da batalha? O deserto da Argélia até hoje abriga os milhares de cadáveres dos aventureiros”, sentenciou Kadafi.
Mas afinal, que equação nacionalista é essa do governo líbio - que assim como o governo boliviano do “índio” Evo Morales fez com o gás -, põe 90% dos recursos arrecadados com o ouro negro nas mãos e bocas do país, reservando “apenas” 10% para as transnacionais? É preciso dar uma lição aos que ousam cometer tamanha blasfêmia contra o “deus mercado” e ensinam matemáticas altivas - cientificamente problemáticas ao neoliberalismo -, que se desdobram no caso líbio no maior IDH da região, em saúde e educação públicas. Imaginem se a moda pega num Oriente tão justo e democrático, tão cheio de bases ianques e regimes títeres? A lição do Iraque com os seus mais de um milhão de mortos já não é o suficiente? Esses árabes...
Recordo de um encontro internacional de comunicadores em Caracas em que o jornalista e professor belga Michel Colon descrevia como se faz uma campanha de demonização. E citou os passos da agressão midiática contra o Iraque, esmiuçando os passos da manipulação. Lembro de duas cenas. A primeira, de um pássaro coberto de petróleo, bico, olhos, asas, patas, tudo. O animalzinho se debatendo, todo tingido daquela gosma preta, morrendo intoxicado, agonizante, sem forças nem para levantar o pescoço. Em sincronia com o foco no olhar que se despedia da vida, a propaganda elevava os tristes acordes da música e os faziam alcançar o fúnebre. Então, Michel parou a exibição do vídeo. Ele já havia sido passado à exaustão na Europa e sei mais lá onde como peça publicitária pró-invasão. Pediu a todos que colocassem os neurônios para funcionar e para que fosse feita uma análise, individual e coletiva, mais pormenorizada sobre a “informação” recebida. A verdade é que nunca houve tal ave na região do Golfo.
A imagem havia sido captada após mais um destes desastres ambientais provocados por companhias petrolíferas dos EUA. No Alaska.

Logo depois, um vídeo que causou um impacto ainda maior. Uma jovem enfermeira descrevia a uma platéia de centenas de pessoas, como as tropas de Saddam Hussein agiram quando entraram no Kuwait. “Invadiram as incubadoras e jogaram os bebês no chão”, dizia, relatando entre soluços, que recordava do som seco das botas iraquianas pisoteando os bebês recém-nascidos, uma selvageria indescritível.
 
Da mesma forma, imagem e música confluíam para inebriar a atmosfera, capturando o plenário mergulhado em sangue e transe, inundando de lágrimas a assistência e evocando a Humanidade a reagir contra tamanha perversidade. Pausa. Michel Colon chama à razão, lembra que foi descoberta a farsa. A jovem não era enfermeira, nem mocinha. Era a filha do embaixador do Kuwait, de um governo bastante conhecido pela forma com que tratava “humanitariamente” a sua oposição.
 
Seriam tais “depoimentos” pró-invasão e zonas de exclusão aérea, escandalosamente repetidos à exaustão, uma mera projeção dos seus próprios crimes, cometidos pelas tropas ianques e seus cúmplices por todos os continentes, no Vietnã, em Abu Ghraib ou na Palestina ocupada? Afinal, o nascimento do estado fantoche dos EUA no Oriente Médio não se deu mergulhado em sangue árabe? Como a data está próxima, vamos nos ater a 9 de abril de 1948, em Deir Yassin, vila palestina próxima à Jerusalém.
 
Ali, as tropas de Israel estupraram de crianças a idosas, e abriram o ventre das mulheres grávidas com facas de açougueiro. Os requintes macabros são “do mais cruel barbarismo”. Estes sim, fartamente comprovados e documentados pela Cruz Vermelha Internacional. Diante dos duzentos e cinqüenta e quatro homens, mulheres e crianças massacrados em Deir Yassin, o Grande Rabino de Jerusalém amaldiçoou a todos os judeus sionistas que tinham tomado parte na carnificina.
 
Encarando a convocação de Bush Júnior e enfrentando a intensa campanha dos meios de comunicação pela agressão ao Iraque, “para proteger a segurança mundial das armas de destruição em massa”, o presidente Lula afirmou: “Nossa guerra é contra a fome”. Demarcando campo com a covardia, o oportunismo e a pusilanimidade, Lula lembrou que, caso algum ministro seu ousasse repetir os vergonhosos tempos de FHC e do amestrado Celso Lafer - que só entrou nos EUA após retirar os sapatos –, imediatamente deixaria o posto. Afinal, não serviria mais aos interesses do Brasil e do povo brasileiro. O vídeo pode ser facilmente acessado pelo youtube, mostra o sorriso de Celso Amorim, o aplauso da plateia, e lava a alma...
 
Nesta visita de Obama, segundo constam nos jornais – passadas 24 horas ainda sem desmentido por parte dos envolvidos-, não foram um, mas quatro ministros submetidos ao vexame, incluindo Guido Mantega, naturalmente. O fato é que as nossas autoridades deixaram ser revistadas pela segurança de Obama quando chegavam para participar da Cúpula Empresarial Brasil-Estados Unidos. Isso dentro do nosso próprio país. Sem aparelhos de tradução – aí também já é demais, devem ter pensado – deixaram o local, duplamente humilhados.
 
Será este o tipo e o nível de “interlocução” que deve buscar um governo de uma nação soberana, que tanto havia avançado no último período em termos de integração latino-americana, com os países africanos e com os próprios árabes? Mais cedo ou mais tarde a verdade aflora, bem como os desdobramentos das equivocadas opções adotadas, como o corte de recursos do Orçamento, a alta dos juros e a suspensão de concursos públicos.
 
A parafernália midiota, que sempre pressiona por recuos no campo da soberania e da auto-estima e dá sustentação a todo e qualquer retrocesso, tem sua pauta externa umbilicalmente ligada aos interesses dos Estados Unidos, das indústrias bélica e petrolífera. Isso torna mais do que necessária, inadiável, a democratização da comunicação.
 
A construção de instrumentos contra-hegemônicos, como a Telesul, ao dar voz e imagem ao considerado “outro lado’, isto é, o da grande maioria dos países e povos, começa a fazer água no barco da ideologia neocolonial da submissão e da mediocridade.
 
Diante da ingenuidade com que muitos ainda encaram a complexidade da batalha em curso, vale lembrar Lênin, numa obra já mais do que centenária, “Imperialismo, fase superior do capitalismo”: “Os capitalistas não partilham o mundo levados por uma particular perversidade, mas porque o grau de concentração a que se chegou os obriga a seguir esse caminho para obterem lucros: e repartem-no segundo o capital, segundo a força...”

Aclamado, líder Aristide chega ao Haiti e condena ‘eleições’ que excluem o Lavalas

Logo que desembarcou no aeroporto às 12:40 h do dia 18, o ex-presidente do Haiti (derrubado por um golpe norte-americano e obrigado a se exilar na África do Sul por sete anos) Jean Bertarnd Aristide fez um pronunciamento, ainda no interior do aeroporto, que afirma com clareza a importância de seu retorno ao Haiti e do qual reproduzimos partes:

“Minhas irmãs e meus irmãos, se vocês pudessem colocar suas mãos sobre o meu coração, sentiriam como ele bate mais forte para vos dizer: ‘Bravo! Obrigado! Bravo! Obrigado!’

Neste momento de reencontro não podemos esquecer as vítimas do desastre do Japão. Honra, respeito, honra a todos vocês e respeito pela memória das 300 mil vítimas do tremor de terra, agradecemos ao presidente Zuma, ao ex-presidente Mbeki, a Mandela, suas irmãs e irmãos da África.

Mesmo se o Haiti esteja longe da África nós não nos esqueceremos jamais das raízes de nossa culture, diremos sempre a nossos filhos que se lembrem de onde vieram nossos ancestrais. A união faz a força, a divisão a fraqueza, meus irmãos minhas irmãs como vocês sabem, a bela rosa do reconhecimento do Haiti florescerá sempre para os verdadeiros amigos estrangeiros que nós temos que estão aqui conosco e em diversos outros países.

Saúdo os irmãos e irmãs de Cuba, especialmente os médicos cubanos engajados aqui na luta contra a cólera.

Haiti nossa mãe, que precisa respirar o oxigênio da dignidade.
Se eu pudesse transformar as partes de meu coração em quartos de uma casa, a mesma quantidade de quartos de todos os que se encontram vítimas, para que deixassem de dormir na rua, na lama, na humilhação. A humilhação de um haitiano é a humilhação de todos os haitianos. Pois quando a dignidade de um haitiano é ferida é a dignidade de todos os haitianos que sangra.  Nosso sangue é sangue de Toussaint Louverture, não podemos trair nosso sangue. Minhas irmãs, meus irmãos hoje o parto do retorno foi feito sobre os ombros de Toussaint Louverture. Quando eles o seqüestraram para o exilarem no mês de junho de 1802, eles já havia dito que já existiam muitas raízes da liberdade e que elas estavam bem plantadas. Cortar o tronco da liberdade é uma coisa, mas nunca todas as raízes podem ser eliminadas.

"O problema está na exclusão. A exclusão do partido Fanmi Lavalas é a exclusão da maioria. A exclusão da maioria é como cortar um ramo de uma árvore sobre o qual estamos sentados. A solução é a inclusão de todos os haitianos sem precondições.

Para honrar Jean Jacques Dessalines viemos aportar nosso pequeno concurso. Para que a nova geração comece a se beneficiar das riquezas que dormem nas entranhas do Haiti. O ouro, o cobre, o urânio, a bauxita, a prata. O carbonato do cálcio que se encontra em Paillant, reservas estimadas em mais de 23 bilhões de dólares. As reservas de petróleo são sem dúvida maiores do que nós acreditamos.

Durante sete anos temos nos comunicado à distância, hoje estamos com vocês para semear a paz entre todos. Estamos aqui para ir onde haja a miséria, a fome, o desemprego, a insegurança...Desde 24 de fevereiro a doença se agravou. A maior esperança dos haitianos são os haitianos.

Meu papel é servi-los com amor, vosso papel é viver pelo Haiti, não o de morrer. O papel do patriota é amar seu país”.
Aristide deixou o aeroporto e atravessou as ruas de Porto Príncipe saudado por uma incontável multidão com faixas que diziam: “Feliz retorno ao presidente Aristide” ou “Presidente Aristide você é um símbolo para o povo haitianos”.

Bogossian alerta governo para cobiça estrangeira sobre pré-sal

Em carta à presidenta Dilma Rousseff, Clube de Engenharia afirma que a descoberta da gigantesca jazida “reorientou estratégias de países com pretensões hegemônicas, inclusive com a reativação da quarta frota dos Estados Unidos a pretexto de proteger o Atlântico Sul"

O Clube de Engenharia encaminhou à presidenta Dilma Rousseff carta na qual reafirma sua posição de “assegurar o Pré-sal para os brasileiros”. Segundo a entidade, “com uma longa trajetória de lutas em defesa da soberania nacional e o orgulho de ter participado ativamente dos debates sobre o Pré-Sal, com significativas vitórias no Congresso Nacional”, o documento, aprovado pelo Conselho Diretor, aponta como preocupante “as pressões internacionais e dos seus porta-vozes internos no país, quando recrudescem os conflitos pelo domínio do petróleo por potências estrangeiras”. A carta, de 15 de março de 2011, é assinada pelo presidente Francis Bogossian.

"Exma. Sra.

Dilma Rousseff

M.D. Presidenta da República Federativa do Brasil

Assunto: Defesa do Pré-Sal para os brasileiros

Excelentíssima Senhora Presidenta,

Em 2010, o Brasil garantiu o que deve ser um dos passaportes para um futuro grandioso enquanto nação, ao alterar o marco regulatório do petróleo e assegurar o Pré-Sal para os brasileiros.
Na nossa opinião, foram criadas por força de lei as condições básicas para que esta afirmativa se torne viável:

- ampliou-se a participação do Estado Brasileiro no controle do ritmo da produção e na renda gerada por este bem energético estratégico para as sociedades modernas;

- estabeleceu-se o compromisso da produção se fazer em sintonia com a expansão industrial necessária à exploração e produção do Pré-Sal;

- capitalizou-se a Petrobras e a ela foi determinado o papel preponderante de operadora única nas atividades de exploração e produção do Pré-Sal;

- e criou-se um fundo para utilizar as receitas geradas pelo petróleo para superar as mazelas sociais históricas da nossa sociedade.

O Clube de Engenharia se orgulha de ter participado ativamente dos debates sobre o Pré-Sal e visto consagradas muitas das suas teses, aprovadas que foram pelo Congresso Nacional. Não obstante, considera que a aplicação deste texto legal sob a égide do interesse nacional não se fará sem esforços do Governo Federal e da sociedade brasileira para superar uma vez mais as pressões internacionais e dos seus porta-vozes internos no país, quando recrudescem os conflitos pelo domínio do petróleo por potências estrangeiras.

Sob esse contexto, vimos com preocupação notícias vazadas na mídia sobre interesses dos EUA em buscarem no Pré-Sal a saída para sua dependência de petróleo em áreas onde já não conseguem mais controlar como outrora. Sabemos o quanto a descoberta desta gigantesca jazida reorientou estratégias de países com pretensões hegemônicas, inclusive com reativação da quarta frota norte-americana, a pretexto de “proteger o Atlântico Sul”.

Igualmente preocupante é o movimento intenso de grandes corporações internacionais no sentido de instalarem-se no Brasil em face da escala oferecida pelo Pré-Sal e diante de percentual de conteúdo local exigido. Apoiados num maior poder tecnológico, industrial e de financiamento no curto prazo nos seus países de origem, consolidam-se principalmente via aquisição de empresas de capital nacional, com vista a se tornarem os principais, quiçá únicos, fornecedores de bens e serviços no desenvolvimento do Pré-Sal. Ameaçam deste modo o aproveitamento integral das oportunidades de trabalho, em especial as com elevado conteúdo técnico, conhecimentos, tecnologias e expansão industrial que só são integrais se apoiadas em capital nacional, necessárias para colocar o país independente de saberes e decisões externas.

Nesse sentido, o Clube de Engenharia registra sua expectativa de que, nas interlocuções do Governo Brasileiro com o presidente Barack Obama que visitará o país proximamente, o Governo Brasileiro reafirme a diretriz de produzir o Pré-Sal sob orientação do planejamento energético brasileiro visando atender prioritariamente a demanda interna. Igualmente importante é a expansão plena e soberana das empresas de engenharia e serviços e das indústrias genuinamente nacionais pari passu à produção do Pré-Sal.

Estas posições são coerentes com as posições diplomáticas assumidas pelo Brasil nas Rodadas de Doha em defesa do mercado brasileiro as quais apoiamos.

Excelentíssima Senhora Presidenta, saiba que tem nesse Clube de Engenharia e certamente em milhares de outras entidades da sociedade brasileira o apoio necessário para pavimentar os caminhos do desenvolvimento nacional com aceleração do crescimento, que somente se darão em bases soberanas com o fim do subconsumo e da miséria.

Cordialmente,

Francis Bogossian

Presidente do Clube de Engenharia

Estados Unidos agem como caubói, afirma Celso Amorim

Ao comentar o acordo feito pelo Brasil e a Turquia com o Irã em relação ao programa nuclear, o ex-ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, declarou que os EUA querem resolver tudo com “atitude de caubói”.

“Os Estados Unidos têm historicamente como inimigo na região o Irã. Aí faz uma guerra no Iraque, que era um país mais distante do Irã. Hoje, o país com maior influência no Iraque não são os Estados Unidos, é o Irã. Porque os Estados Unidos acham que resolvem tudo numa atitude de caubói”, disse Amorim em entrevista à Rede Brasil Atual, na quinta-feira (17), dois dias antes da chegada de Barack Obama ao país. “Falando com o Irã não fizemos ameaças, mas advertimos, e advertimos não para o que iríamos fazer, mas para o que iria acontecer. E isso ajudou a aceitarem um acordo que não estavam aceitando”.

Quando o acordo assinado com o presidente Mahmoud Ahmadinejad, com as exigências apresentadas pelos EUA, foi anunciado, Obama e a chefe do Departamento de Estado, Hillary Clinton, rejeitaram o resultado dizendo que o país queria produzir armas nucleares e trabalharam pela imposição de novas sanções contra o país.

O ex-chanceler defende que o "Itamaraty tenha um papel importante junto aos países árabes”.

“Hoje em dia, todos falam que Mubarak era um ditador, mas para Israel e para Washington era um líder árabe moderado, era o modelo. Não vou discutir se era ou não era. O povo egípcio disse o que pensava sobre ele, e é isso o que interessa”, disse.

segunda-feira, março 21, 2011

Convite

 

Na próxima terça-feira, dia 22/03, a UGES em parceria com o Instituto Estadual do Cinema(IECINE-RS), o Conselho Nacional de Cineclubes(CNC) e a Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre, promove Comemoração pelo dia do Cinema Gaúcho(27 de março) com a exibição do filme gaúcho "Em teu nome" do diretor Paulo Nascimento, e logo após a exibição será realizado debate com:

Diretor do Filme "Em teu Nome" Paulo Nascimento

Cineasta e Diretor do Centro Popular de Cultura (CPC) Caio Plessman

Diretor do IECINE-RS e Presidente do CNC Luis Alberto Cassol

Atores do Filme

O Evento será realizado no Teatro Glênio Peres da Câmara Municipal de Vereadores:

DATA: 22 de março
LOCAL: TEATRO GLÊNIO PERES - CMPA
AV. LOUREIRO DA SILVA, 255 - CENTRO

ENTRADA FRANCA

18:00h – Oficina sobre cineclubismo com Luiz Alberto Cassol
Público-alvo – pessoas interessadas em cineclubismo
19:00h – Abertura: conversa com o público:
- O que é cineclubismo – por Luiz Alberto Cassol
- O filme “Em teu nome”
19:15h – EXIBIÇÃO DO FILME “EM TEU NOME”
21:15h – Debate com o público – com:
- Paulo Nascimento (diretor do filme)
- Caio Plessman (Cineasta e Diretor do Centro Popular de
Cultura - CPC)
- Luiz Alberto Cassol (Diretor do Instituto Estadual do
Cinema (IECINE) e presidente do Conselho Nacional
de Cineclubes (CNC)

Concordo!! Líbia Livre!!!!!!!!!!!!

Quero refutar esta postura sofrível do Brasil, em se abster nesta questão do bombardeio, mais uma vez covarde, que está sendo feito pelo imperialismo sobre a "pobre" Líbia, que se fosse realmente pobre como alguns paises da Africa, ninguém da elite se lembraria em gastar bilhões em artefatos bélicos para subjugar o direito livre de um povo decidir seu destino.
Mas em se tratatndo de um país, que é o 9º produtor mundial de petróleo e na hora em que o império está dando os doces e precisa de uma guerrinha para encher as burras de sua indústria bélica, sempre vem os liberais de plantão para defender uma grave ofensa ao direito de livre arbítrio dos povos. Nosso país sempre foi pacífico e deveria ter se posicionado frontalmente contra esta desgraçada tentativa de apoderamento descarado de alguns poços de petróleo sob um manto de mais uma vez defesa de uma democracia criada nos corredores imundos de salas onde se reune o consenso de Washington.

Fora Brasil do esconderijo sujo que fica embaixo da saia dos americanos.

Duca Maradona

quarta-feira, março 16, 2011

Maior terremoto do Japão expõe falha de projeto em usina nuclear

 

O caos estabelecido após o maior terremoto já registrado no Japão nos últimos 140 anos foi agravado pela insegurança nuclear provocada por falha de projeto dos reatores construídos pela GE

A região nordeste do Japão foi atingida por um terremoto de magnitude 8,9 na escala Richter, seguido de um Tsunami com ondas de mais de 10 metros. Foi o maior terremoto no país desde que começaram a ser registrados, há 140 anos e o sétimo pior da história. O tremor principal teve o epicentro a 130 quilômetros de Sendal, na ilha de Honshu, e com profundidade de 24,4 quilômetros.

O ministério da Defesa do informou de início que o forte abalo sísmico deixou mais de mil mortos. Segundo a agência Kyodo, a cidade de Sendai, com 1 milhão de habitantes, foi a mais afetada pelo tremor, sentido em diversos pontos do país.

Foi informado também que apenas na cidade de Minamisoma, no distrito de Fukushima, 1,8 mil casas foram destruídas. Balanço da polícia nas primeiras horas após o desastre já contabilizava 384 mortos, 947 feridos e 707 desaparecidos. Em Sendai, ao menos 200 mortos foram encontrados afogados após o Tsunami.
O governo japonês declarou estado de emergência na usina nuclear de Fukushima e outras três centrais atômicas foram fechadas. Ao menos 2 mil pessoas foram retiradas de áreas próximas após as autoridades não terem conseguido resfriar o combustível nuclear.

Em entrevista ao R7, o titular do Programa de Engenharia Nuclear e vice-diretor geral da Coppe/UFRJ, o professor Aquilino Senra, disse que o vazamento de material nuclear na usina de Fukushima 1, pode ter sido causado por uma falha no projeto. Segundo Senra, o local onde ficam os geradores a diesel, que deveriam entrar em funcionamento para resfriar a usina, foi inundado pelo Tsunami.

“Os geradores deveriam ter entrado em funcionamento, mas foram inundados e isso não deveria acontecer. O projeto é feito para que não pare em caso de explosão, terremoto, Tsunami ou queda de avião. Sem alimentação, o sistema torna-se inoperante.
Senra explicou que, se o sistema de resfriamento tivesse funcionado corretamente, o vazamento não teria acontecido, uma vez que todo o material ficaria “preso” no que os engenheiros chamam de prédio de contenção.

“Quando houve o terremoto, a usina foi desligada automaticamente e parou a geração de calor. No entanto, ela precisa ser resfriada. O sistema de refrigeração faz o papel da ventoinha [de um carro], só que os geradores a diesel não funcionaram, o que pode ter causado a fundição parcial ou total do reator”, acrescentou Aquilino Senra.

A engenharia civil japonesa alcançou progressos notáveis na edificação de prédios que resistem a grandes e numerosos terremotos, reduzindo o número de vítimas e de perdas materiais durante os constantes abalos sísmicos. É estranho que exatamente na construção de usinas nucleares, onde há a mais imperiosa necessidade de segurança, exatamente aí ocorreram falhas tão simplórias como o alagamento dos geradores que garantem o resfriamento da unidade em caso de emergência, rapidamente com o Tsunami.

Como os reatores da usina Fukushima1 foram projetados pela norte-americana General Electric-GE, espera-se que o conglomerado tenha algo a dizer sobre a grave situação de insegurança nuclear estabelecida no país.

O Japão tem 54 usinas nucleares em operação, das quais, 16 localizam-se na região mais afetada pelo terremoto e pelo Tsunami. A matriz nuclear fornece 35% da energia no país.

Fábricas e refinarias foram fechadas e milhões de pessoas ficaram sem energia elétrica. Nas primeiras horas após o sismo 80 incêndios foram contabilizados, um deles numa refinaria. O aeroporto de Narita, o maior do país, chegou a ser fechado, mas já foi reaberto. O terremoto também paralisou em todo o país os serviços do trem-bala, segundo a companhia ferroviária JR East. Um trem com passageiros desapareceu na área afetada pelo tremor.

Apesar de ter ocorrido a quase 400 quilômetros de distância de Tóquio, o tremor também foi sentido na capital, onde 4 milhões de casas e prédios ficaram sem energia elétrica. O serviço telefônico também foi cortado em boa parte do país.

Wisconsin: 120 mil nas ruas de Madison repudiam lei de arrocho salarial e ataque a direitos sindicais

 

  Mais de 120.000 pessoas tomaram as ruas de Madison, capital do estado norte-americano de Wisconsin, na maior manifestação que já houve na região, segundo informações da central sindical AFL-CIO. A enorme concentração realizou-se depois que o governador republicano Scott Wal-ker sancionou, na sexta-feira um projeto de lei que reduz os direitos dos funcionários públicos e cassa o seu direito de negociação coletiva.

  As mobilizações contra a lei acontecem há mais de um mês, crescendo semana após semana, e se espraiando por outros estados dos EUA, sustentadas por legisladores democratas e sindicatos, que advertiram que continuarão a luta na justiça para que a lei seja declarada inconstitucional.

  Entre os oradores do ato se encontravam os catorze senadores que tinham se retirado do Estado semanas antes, na tentativa de impedir a aprovação da lei pela maioria republicana. Scott Walker (da corrente Tea Party), eleito em novembro passado, tenta reduzir o salário dos funcionários públicos em 7%, diminuindo também as suas pensões, e obstaculizando, além do mais, a sindica-lização dos trabalhadores no sector público. O governador quer cortar US$ 137 bilhões a curto prazo para diminuir o déficit projetado em US$ 3,6 bilhões nos próximos dois anos.

  O presidente da maior central sindical americana, a AFL-CIO, Richard Trumka, foi a Madison para se juntar ao protesto. “É um momento de auge das mobilizações populares. O governo faz tudo para cortar o peso dos trabalhadores organizados. Somos ameaçados, mandam embora os trabalhadores que manifestam interesse em se sindicalizar, tentam cortar os direitos de negociação coletiva, mas chegou a hora de irmos para a rua, e essa força é que pode levar os EUA a superar a crise. Não podemos aceitar que joguem para cima dos trabalhadores o desastre causado pelos bancos”, assinalou Trumka.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Governo da Nigéria processa Halliburton e Dick Cheney por crimes de corrupção

Sob a presidência de Cheney, a Halliburton distribuiu US$ 180 milhões em propinas e pegou contrato de 6 bilhões de dólares

A Comissão de Crimes Econômicos e Financeiros do governo da Nigéria entrou com uma ação na Suprema Corte em Abuja (capital do país), no dia 8, contra a Halliburton e seu presidente na época, Dick Cheney, que foi também vice-presidente dos EUA.  O governo nigeriano acusa a Halliburton, através de sua subsidiária KBR, de haver corrompido integrantes do governo para obtenção de um contrato bilionário para a construção de um gasoduto.
  Segundo a acusação, a quantidade de dinheiro distribuída pelas empresas sob comando de Cheney chega a US$ 180 milhões e o contrato que foi concedido à subsidiária da Halliburton foi no montante de US$ 6 bilhões.
  A Halliburton e a KBR já confessaram a prática criminosa e firmaram um acordo com o governo dos EUA, que havia detectado a corrupção (a lei torna passível de pena empresas de americanos que pratiquem corrupção – e sejam flagradas - em outros países; a lei é usada muito raramente mas, como o governo dos EUA soube das investigações pelo governo nigeriano, resolveu se antecipar). Pelo acordo, foi pago ao governo para que a ação criminal fosse arquivada nos EUA o montante de US$ 579 milhões.
  Mas agora que – findas as investigações na Nigéria – o caso chega aos tribunais deste país, as múltis do petróleo dizem que não fizeram nada. O advogado de Cheney, Terrence O’Donnell, disse à Associated Press que o Departamento de Justiça dos EUA “não encontrou qualquer sugestão de ato impróprio por Dick Cheney em sua função de executivo-chefe da Halliburton”. A Halliburton também negou ter feito “qualquer coisa errada”.  Então por que o acordo? Por que as empresas teriam pago milhões para fugir de penas como prisão dos seus executivos? As questões foram levantadas pela repórter ghanense Ofeibea Quist-Arcton.
  As acusações dão conta de que a corrupção para conseguir o contrato se estendeu de 1994 a 2004. Além de Cheney, são réus no processo, Albert Stanley, ex-presidente da KBR Inc.; o atual diretor da Halliburton, David Lesar. O procurador encarregado da ação na Nigéria, Godwin Obla, declarou que “nomes, posições, postos ou geografia não têm qualquer efeito nas decisões da procuradoria”.
  O governo deteve 23 funcionários de empresas, incluindo 11 da Halliburton, todos liberados posteriormente sob fiança. Um ex-assessor do ex-presidente, Olusegun Obasanjo, também foi indiciado.

 

26 líderes da UE exigem sanções para Israel por ampliar assentamentos

“Os assentamentos de Israel são uma ameaça à existência de um Estado Palestino soberano, contínuo e viável”, diz o documento

Vinte e seis líderes europeus firmaram um documento exigindo que a União Europeia realize sanções contra Israel por ampliar os assentamentos judaicos em terras subtraídas aos palestinos nos territórios ocupados.
  O documento destaca que Israel, “como qualquer outro país, deve sofrer as consequências” e “pagar um preço por romper com as leis internacionais”.
  Entre os signatários estão Javier Solana, ex-chefe do departamento de Relações Internacionais da EU, os ex-primeiros-ministros da Itália, Romano Prodi e Giuliano Amato; da Alemanha, Hel-mut Schmidt e da Espanha, Felipe González e ainda o ex-ministro do Exterior da Noruega, Thorvald Stolten-berg, além dos ex-presidentes da Alemanha, Richard von Weizsaecker e da Irlanda, Mary Robinson.
  A carta exige que os ministros do Exterior da União Europeia reafirmem que “nenhum país da UE vai reconhecer quaisquer mudanças nas fronteiras de junho de 1967” e que “deixem claro que um Estado Palestino deve ter o controle soberano sobre 100% do território ocupado em 1967, incluindo sua capital em Jerusalém Oriental”.
  O documento pede que a UE informe a Israel que se até abril de 2011 não se tenha chegado a nenhum resultado negociado que leve à sua retirada dos territórios ocupados e do estabelecimento do Estado Palestino que vai apoiar uma solução através da ONU e não mais uma intermediada pelos EUA.
  “Todos os produtos israelenses obtidos em terras palestinas ocupadas devem ser banidos”, destacam os signatários e pedem que a UE ligue qualquer avanço de relações diplomáticas com Israel ao congelamento dos assentamentos.
  O documento propõe que a UE envie uma delegação de alto nível a Jerusalém para prestar solidariedade aos palestinos diante de suas exigências de soberania sobre a cidade e que classifique a relação com a Palestina de “apoio à construção nacional”.
Deixa claro que “a continuação da atividade de assentamentos por parte de Israel coloca uma ameaça às perspectivas de estabelecimento de um Estado Palestino soberano, contínuo e viável”.
  A chefe de Relações Internacionais da EU, Catherine Ashton respondeu ao documento destacando que “a União Europeia vai continuar na linha de frente nos esforços para fazer avançar a paz”.
  Em declaração anterior ela já havia afirmado que “a posição da EU sobre os assentamentos é clara: eles são ilegais sob a lei internacional e um obstáculo à paz. O recente desenvolvimento de assentamentos incluindo em Jerusalém Oriental, contradizem os esforços pela paz da comunidade internacional”.

WikiLeaks revela plano de ataque da Otan contra Rússia

Um dos telegramas é assinado pela chefe do Departamento de Estado dos EUA, Hillary Clinton. “O Plano é secreto”, enfatizou Hillary aos astutos diplomatas dos EUA na Otan

O jornal inglês The Guardian estampou no dia 7 mais um telegrama reproduzido pelo site WikiLeaks, desta vez um plano da Otan de ataque massivo à Rússia.
  O plano de guerra em larga escala contra os russos prevê o deslocamento de nove divisões militares dos EUA, Inglaterra, Alemanha e Polônia.
  Segundo o Guardian, o ataque prevê, inclusive os portos da Alemanha e da Polônia a serem utilizados para receber as unidades navais de assalto vindas dos EUA e da Inglaterra.
Membros do governo russo protestaram contra o plano – assim que o mesmo foi revelado através das publicações de telegramas entre embaixadas e governo dos EUA, pelo WikiLeaks.
  “Temos que receber garantias de que tais planos vão ser cancelados e de que a Otan não considera a Rússia um país inimigo”, afirmou o enviado da Rússia ao último encontro da Otan, realizado em Lisboa.
  Um dos telegramas é assinado pela própria chefe do Departamento de Estado dos EUA, Hillary Clinton, datado de 26 de janeiro, aos diplomatas americanos na Otan. Ela enfatiza que o plano tem que ser mantido em estrito segredo. “Os Estados Unidos acreditam fortemente que este plano não deve ser discutido em público. São classificados como de “nível secreto da Otan”, diz o telegrama.
  “A discussão pública de planos de contingência minam o seu valor militar”, acrescenta, “permitindo que se exponha os processos de planejamento da Otan. Isto enfraquece a todos os aliados”.
  Hillary também orienta os diplomatas americanos a mentirem para a imprensa, no caso de vazamento de informações. Sugere respostas evasivas tais como: “A Otan não discute planos específicos”. Os agentes são instruídos a dizer também que “os planejamentos da Otan, não são direcionados a qualquer país”.
  O representante russo Rogozin questionou especificamente este ultimo trecho do telegrama de Hillary. “A quem mais este plano militar seria direcionado? Contra a Suécia, Finlândia, Groen-lândia, Islândia, contra os ursos polares ou contra o urso russo?”, ironizou. Um membro do Ministério do Exterior, que pediu anonimato ao Guardian, foi mais direto dizendo que “este e outros documentos provocaram atordoamento e muitas questões”.
  Além disso, o Guardian destaca sua estupefação de que nos telegramas os diplomatas ianques tratem o assunto com total leviandade pois “não há uma só menção ou preocupação sobre as implicações potencialmente catastróficas de tal choque armado entre as duas maiores potências nucleares do mundo”.
  O pretexto para o plano de ataque é de defender os novos integrantes bálticos da Otan, que por acaso cercam a Rússia. A saber Letônia, Lituânia e Eslovênia. Para isso os telegramas sugerem “expandir o plano que já existe de defesa da Polônia”.  Acontece que os russos não projetaram nenhum cinturão de mísseis especificamente direcionados contra o solo e o ar da Polônia ou quaisquer outros países, mas construíram suas próprias defesas, ao contrário do que fizeram os EUA com o “escudo de mísseis” projetados pelo governo Bush.
  Em um telegrama datado de outubro de 2009 o embaixador dos EUA na Otan, Ivo Dalder, afirma que tanto Hillary quanto Obama expressaram seu apoio ao desenvolvimento do plano militar contra a Rússia.
  Daalder sugere, para não deixar claro que a Rússia é um alvo potencial, a adoção de um “plano genérico” de deslocamento de tropas para os países bálticos sem mencionar no mesmo contra quem estas tropas estariam direcionadas para assim – em caso de vazamento – não provocar constrangimentos com Moscou. Como bem desconfiou o russo Rogozin: “se vamos caçar coelho, por que vocês estão com armas para matar urso?”

terça-feira, dezembro 07, 2010

Abril aumenta açambarcamento de verbas do MEC para livros didáticos

Apenas 4 grupos editoriais ficam com 81,49% do valor gasto pelo ministério com livros didáticos

Em 2009 e 2010, o grupo Abril, ou grupo Civita, recebeu 26,06% do valor gasto pelo Ministério da Educação com livros didáticos – R$ 358.843.893,25 (358 milhões, 843 mil, 893 reais e 25 centavos), segundo os dados sobre “valores negociados com as editoras”, fornecidos pelo próprio MEC (ver primeira tabela desta página).

De acordo com os registros no Portal da Transparência do governo federal, até outubro a Abril recebera 24,55% da despesa prevista nos Orçamentos de em 2009 e 2010 (ver segunda tabela desta página) para livros e material didático – R$ 268.363.942,30 (268 milhões, 363 mil, 942 reais e 30 centavos).
A discrepância entre as cifras pode ser um problema de carregamento do Portal (pois ele é transparente, mas não é instantâneo) ou de imprecisão do MEC, mas o que importa aqui são as percentagens, que são próximas – um quarto ou mais do gasto público com as compras de livros didáticos foram remetidos para os cofres da Abril.

CARTEL

   Há cerca de um ano (HP, 4/09/2009, pág. 8), nós constatamos que a Abril, isto é, o grupo Civita, de 2004 a 2008, havia recebido R$ 719.630.139,55 (719 milhões, 630 mil, 139 reais e 55 centavos), “o maior repasse de recursos públicos destinados a livros didáticos dentre todos os grupos editoriais do país. Nenhum outro recebeu, nesse período, tanto dinheiro do MEC - desde 2004, o grupo da ‘Veja’ ficou com mais de um quinto dos recursos (22,45%) do MEC para compra de livros didáticos”.

Todos os dados dessa reportagem, estão na terceira tabela desta página.
Evidentemente, a Abril receber mais de um quinto do gasto do Ministério da Educação com livros didáticos não podia e não pode ser considerada uma situação normal. Na mesma matéria notávamos que “apenas quatro editoras ou grupos editoriais (Abril, Santillana, FTD e Saraiva) ficaram com 70,63% dos recursos do FNDE destinados à compra de livros didáticos” - o que, evidentemente, se não era um cartel, era algo muito parecido com um cartel...

PIOR

Infelizmente, a situação piorou. Em 2009/2010, a Abril levou cerca de um quarto – e não mais um quinto – do valor dispendido com livros didáticos. Como dissemos há um ano, “quando não há nada que se aproxime de uma política nacional para o livro didático, não é espantoso que picaretas do tipo Civita, e até os de além-mar, sejam os beneficiados na compra de livros didáticos pelo MEC”.

Aliás, na lista do Ministério (tabela 1), os mesmos quatro grupos editoriais (Abril, Santillana, FTD e Saraiva) ficaram com 81,49% do valor – e não mais com 70,63%.

Nos registros do Portal da Transparência (tabela 2), onde a soma do valor recebido por essas quatro editoras é 67% do total, portanto mais próximo do período 2004-2008, a Abril é a única das grandes editoras que aumentou sua parcela - de 22,45% (2004-2008) para 24,55% (2009-2010).

Usaremos, em seguida, somente os dados do Portal da Transparência, apesar de seu montante ser menor e desses dados irem somente até outubro:

1) A Abril - uma espécie de conluio entre os americanos da Viacom, os racistas pró-apartheid sul-africanos do grupo Naspers e os testas de ferro golpistas da família Civita, que até 2004 nem sabia o que era livro didático, recebeu, de 2004 a 2010, cerca de um bilhão de reais (R$ 987.994.081,85) ou 22,98% de todos os recursos do MEC para livros didáticos, aumentando sua parcela no total nos últimos dois anos, quando superou o Santillana, que desde 2007 era o maior vendedor de livros ao Ministério.

2) O Santillana, um grupo editorial espanhol, proprietário das editoras Moderna, Objetiva, Salamandra, Richmond e Fontanar (todas vendedoras de livros ao MEC) - e, por sua vez, pertencente ao grupo Prisa, o maior monopólio de mídia (escrita, falada e televisada) da Espanha - ficou com 17,26% do que o MEC gastou nesse item em sete anos (R$ 742.053.445,14).

3) O grupo Escala, vinculado ao Hachette, francês, superou a Editora do Brasil, a Nova Geração e o IBEP, e agora é o sexto maior vendedor de livros didáticos ao MEC.

ACHAQUE

O maior comprador de livros do país é o Ministério da Educação. Aliás, o maior comprador de livros didáticos do mundo é o Ministério da Educação brasileiro.  Portanto, em princípio, não haveria melhor situação para democratizar o movimento editorial – e para o Estado deixar de ser vítima de parasitas e aventureiros. No entanto, não é o que vem acontecendo.

Em princípio, nada impediria que o MEC reunisse professores, especialistas nas diversas áreas, para fazer seus próprios livros didáticos. Aliás, essa seria a coisa mais lógica a fazer, tanto do ponto de vista pedagógico, quanto econômico. Pelo menos seria mais lógico do que entregar a escolha ao “mercado”, isto é, ao monopólio de algumas editoras.

Quando publicamos nosso primeiro artigo, em setembro de 2009, apareceram algumas objeções, segundo as quais não seria o MEC nem as editoras quem escolhem os livros didáticos, mas... os professores. Aqueles que apresentaram tais alegações esqueceram que os professores não fazem essa escolha livremente – sua escolha é a de livros que constam de uma lista, que não foi feita pelos professores. Pior ainda, essa escolha é feita sob intensa propaganda das editoras maiores. E não vamos nos referir aos lobistas das grandes editoras, que estão encastelados dentro do poder público. No governo Fernando Henrique, um deles, representante do grupo espanhol Santillana, era ministro da Educação – depois, Serra o nomeou para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, onde permanece.

No caso da Abril, além da desqualificação moral (quem edita a “Veja” tem alguma condição de fazer livros didáticos para as nossas crianças e jovens?), há outro elemento: o uso das revistas do grupo, em especial seu carro-chefe pseudo-jornalístico, a “Veja”, para difamar e destruir concorrentes. Por exemplo, o seguinte caso, bastante conhecido, que Luiz Nassif assim relatou:

“No dia 13 de junho de 2007, a revista [‘Veja’] investiu contra o curso apostilado da COC – sistema privado de ensino. A matéria era sobre a mãe de um aluno que denunciava ‘conteúdo subversivo’ no material do COC. O trecho de maior impacto era uma lição sobre ‘como conjugar um empresário’, efetivamente de baixo nível. Quando li a matéria, percebi que o tom não era de uma reportagem convencional. Estava mais no campo das disputas comerciais. No dia 13 de junho publiquei uma nota no Blog estranhando o tom da matéria: ‘Faltou à matéria informar que a Editora Abril, através de duas editoras que adquiriu nos últimos anos, é concorrente direta do COC no fornecimento de material didático às escolas, que a matéria favorece a Abril nessa disputa, que a defesa do COC aparece em apenas uma frase do proprietário. Eis aí uma das facetas mais perigosas dessa concentração de poder na mídia. Pode-se utilizar a notícia como ferramenta empresarial para sufocar concorrentes, sem o risco desse tipo de posição ser questionada por outros veículos’.

“No dia 19 de junho, conversei com Chaim Zaher, dono do COC, que me deu o seguinte depoimento: ‘Pouco tempo atrás fui procurado por uma repórter de Veja, que resolveu fazer uma matéria sobre o material didático do COC, pelo fato de termos sido premiados pela qualidade do material. A matéria saiu com muitos elogios. Pelo que me parece, a revista não estava informada sobre a entrada da Abril nesse mercado. Não sei o que aconteceu internamente, mas na edição seguinte da revista Cláudia, a Abril anunciava sua entrada no mercado, mencionava o Anglo e o Objetivo, e não fazia nenhuma menção ao COC, que, segundo a matéria da “Veja”, era o mais premiado. Aí, a denúncia da jornalista, mãe de uma aluna, caiu em seu colo e fizeram aquele carnaval. Jamais declarei à repórter que o COC errou nos trechos mencionados, como saiu publicado. O que lhe disse é que todo material didático está sujeito a erros, e isso acontece com o nosso material e com os de todos nossos concorrentes. E que nosso trabalho é ir corrigindo os erros, quando identificados. Ela colocou que eu teria admitido os erros’. O material ‘Conjugando o Empresário’ não consta das apostilas do COC. Foi um professor do ‘Pentágono’ que copiou esse texto do vestibular da UFMG e distribuiu para seus alunos, na sua classe. Tanto que nenhuma outra escola tem esse material. Expliquei para a repórter, mas colocaram na reportagem de tal maneira que ficou parecendo que o material era do COC. Mandei uma carta para a revista, pedindo que retificassem o que me foi atribuído. Não publicaram a carta.  Muitos pais de alunos do COC mandaram cartas à revista com cópia para mim.  Nenhuma saiu, só as cartas contrárias, e que se basearam na matéria da Veja. Recebi muitos telefonemas de solidariedade, mas ninguém quer dar a cara para bater, temendo retaliação da revista’”.

ENLATADOS

Há alguns dias o poeta Sidnei Schneider, em excelente artigo nas nossas páginas (HP, 24/11/2010), denunciou o monopólio – inclusive estrangeiro – que tomou conta do (mal) chamado mercado editorial brasileiro.
Como diz Sidnei, a situação é absolutamente crítica – e inédita, além de insólita, em qualquer outro país mais ou menos civilizado do mundo. Basta olhar para a Argentina ou Portugal.

Esses monopólios editoriais especializaram-se na publicação de lixo – ou “livros enlatados” que, com sua “tiragem gigantesca barateiam o custo gráfico-editorial unitário do produto para bem menos do que 10% do preço de capa, sem nenhum reflexo para o consumidor. Ao contrário, quanto mais dominam a área, mais livres se sentem para colocar o preço que quiserem, nunca transferindo a isenção de impostos a que o livro faz jus. Na verdade, encarecem o custo de produção e o preço final de todos os outros livros editados no país”.

O tema de Sidnei Schneider eram as nocivas repercussões desse monopólio na literatura brasileira, com os escritores sem ter como publicar os seus livros.
A principal sustentação desse monopólio está, hoje, nas compras de livros didáticos do MEC.

CARLOS LOPES