Creio que educar é basicamente habilitar as novas gerações no exercício de uma visão não ingênua da realidade, de maneira que seu olhar tenha em conta o mundo, não como uma suposta realidade objetiva em si mesma, mas como o objeto de transformação ao qual o ser humano aplica sua ação. Mario Luiz Rodrigues Cobos - o Silo, "A Paisagem Humana", capítulo 'A Educação'
quinta-feira, maio 11, 2006
terça-feira, maio 09, 2006
ONU elege membros do novo Conselho de Direitos Humanos
A eleição dos membros do novo Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) nesta terça-feira não conseguiu atenuar a polêmica gerada pela velha Comissão de Direitos Humanos, criticada por aceitar países com um histórico duvidoso em matéria de direitos humanos.
Depois do voto secreto dos 191 membros da Assembléia Geral, foram eleitos para a nova instância países como Tunísia, China, Arábia Saudita, Rússia e Cuba, alvos tradicionais das organizações de defesa dos direitos humanos.
Os outros oito assentos que correspondiam à região latino-americana serão ocupados por Argentina, Brasil, Equador, Guatemala, México, Peru e Uruguai. Ficaram de fora Nicarágua e Venezuela, além das três candidaturas apresentadas na última hora: Honduras, Colômbia e Costa Rica.
O conselho, no entanto, ainda não está completo, pois falta a eleição dos países do Leste Europeu.
Se na antiga comissão bastava o apoio dos países do grupo regional para conseguir a vaga, no conselho os membros devem obter um mínimo de 96 votos para serem eleitos.
"A boa notícia é que alguns dos governos que menos mereciam entrar no conselho não foram eleitos, como é o caso da Venezuela e do Irã", disse Kenneth Roth, diretor da organização Human Rights Watch.
"Há um certo número de governos que preferíamos não ter aqui, como China, Rússia, Arábia Saudita, Cuba, mas isso era quase inevitável e eles são a minoria", acrescentou.
A disputa pelos 47 assentos da instância que, como sua antecessora, se reunirá em Genebra, envolveu 63 Estados.
Além das oito vagas da América Latina, a África contará com 13, a Ásia com 13, a Europa Oriental com seis e a Europa Ocidental e "outros Estados" com sete.
Se um país integrante do conselho violar os direitos humanos, ele poderá ser expulso do conselho dentro de um ano se dois terços da Assembléia Geral votarem a favor da retirada. Essa regra foi lembrada por alguns diplomatas da ONU depois da votação.
O embaixador alemão, Gunter Pleuger, disse que o fato de que estarem no conselho "lhes dará a oportunidade de trabalhar construtivamente" em matéria de direitos humanos.
Os Estados Unidos decidiram não integrar o conselho, argumentando que se contentavam com as boas candidaturas apresentadas em seu grupo regional. Admitiram que talvez não fossem eleitos devido à boa qualidade das candidaturas de seu grupo.
"Vamos apoiá-lo política, diplomática e financeiramente, e manteremos uma posição de observador", declarou o porta-voz do Departamento de Estado americano, Sean McCormack.
Citando explicitamente Irã, Cuba, Zimbábue, Mianmar, Sudão e Coréia do Norte, McCormack afirmou que Washington trabalharia com o conselho no caso dos países em que os direitos humanos são mais vulneráveis.
Os sete assentos do grupo Europa Ocidental e outros países, ao qual pertencem os Estados Unidos, foram para Alemanha, Canadá, Finlândia, França, Holanda, Reino Unido e Suíça.
Especial
sexta-feira, maio 05, 2006
O recomeço da história
As novas condições materiais, base da globalização perversa, poderão alavancar a mutação filosófica do homem
(9/1/2000)
Vivemos em um mundo complexo, marcado na ordem material pela multiplicação incessante do número de objetos e na ordem imaterial pela infinidade de relações que aos objetos nos unem.
Nosso mundo é complexo e confuso ao mesmo tempo, graças à força com a qual a ideologia penetra nos objetos e ações. Por isso mesmo, a era da globalização, mais do que qualquer outra antes dela, exige uma interpretação sistêmica cuidadosa, de modo a permitir que cada coisa seja redefinida em relação ao todo planetário.
A grande sorte dos que desejam pensar a nossa época é a existência de uma técnica planetária, direta ou indiretamente presente em todos os lugares, e de uma política planetária, que une e norteia os objetos técnicos.
Juntas, elas autorizam uma leitura ao mesmo tempo geral e específica, filosófica e prática, de cada ponto da Terra. Emerge, desse modo, uma universalidade empírica, de modo a ajudar na formulação de idéias que exprimam o que é o mundo e o que são os lugares.
Cria-se, de fato, um novo mundo. Para sermos ainda mais precisos, o que, afinal, se cria é o mundo como realidade histórica unitária, ainda que ele seja extremamente diversificado.
Ele é datado com uma data substantivamente única, graças aos traços comuns de sua constituição técnica e à existência de um único motor das ações hegemônicas, representado pelo lucro em escala global.
É isso, aliás, que, junto à informação generalizada, assegura a cada lugar a comunhão universal com todos os outros. Ao contrário do que tanto se disse, a história universal não acabou; ela apenas começa.
Antes o que havia era uma história de lugares, regiões, países. As histórias podiam ser, no máximo, continentais, em função dos impérios que se estabeleceram em uma escala mais ampla.
A vez da humanidade O que até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes.
O ecúmeno era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta. Somente agora a humanidade faz sua entrada na cena histórica como um bloco, entrada revolucionária, graças à interdependência das economias, dos governos, dos lugares.
O movimento do mundo conhece uma só pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo continentes, países, lugares, valorizados pela sua forma de participação na produção dessa nova história. Um dado importante de nossa época é a coincidência entre a produção dessa história universal e a relativa liberação do homem em relação à natureza.
A denominação de era da inteligência poderia ter fundamento nesse fato concreto: os materiais hoje responsáveis pelas realizações preponderantes são cada vez mais objetos materiais manufaturados e não mais matérias-primas naturais.
Na era da ecologia triunfante, é o homem quem fabrica a natureza, ou lhe atribui valor e sentido, por meio de suas ações já realizadas, em curso ou meramente imaginadas. As pretensões e a cobiça povoam e valorizam territórios desertos.
Todavia a mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.
A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas da informação, as quais, ao contrário das técnicas das máquinas, são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que o seu uso perverso atual seja subordinado aos interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão a serviço do homem.
Por outro lado, muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico. Isso, porém, ainda é do domínio da história da ciência e da técnica.
Pouco, no entanto, se fala das condições ainda hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e também do planeta.
Nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem descobre suas novas forças. Já que o meio ambiente é cada vez menos natural, o uso do entorno imediato pode ser menos aleatório. Aumenta a previsibilidade e a eficácia das ações.
Ampliam-se e diversificam-se as escolhas, desde que se possa combinar adequadamente técnica e política.
O próprio mundo se instala nos lugares, sobretudo nas grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas que ao mesmo tempo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim, o cotidiano de cada qual se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como pelas perspectivas de futuro.
As ricas dialéticas da vida nos lugares criam, paralelamente, o caldo de cultura necessário à proposição e o exercício de uma nova política.
Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a
Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória.
Aqui, não se trata de fixar datas para as etapas ou o início do processo e, nessa ordem de idéias, o ano 2000, o novo século, o novo milênio são apenas momentos da folhinha, marcos num calendário.
Ora, a folhinha e o calendário são outros nomes para o relógio, por isso são convencionais, repetitivos e historicamente vazios. O que conta mesmo é o tempo das possibilidades efetivamente criadas, a que chamamos tempo empírico, cujas mudanças são marcadas pela irrupção de novos objetos, de novas ações e relações e de novas idéias.
As condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas o seu destino vai depender de como serão aproveitadas pela política. O que, talvez, seja irreversível são as técnicas, porque elas aderem ao território e ao cotidiano.
Mas a globalização atual não é irreversível. Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana, finalmente, está começando.
Leia mais: Nação ativa, nação passiva
Os deficientes cívicos
Mundo do pragmatismo triunfante pode destruir o equilíbrio educacional entre a formação para uma vida plena e a formação para o trabalho
MILTON SANTOS
Em cada sociedade, a educação deve ser concebida para atender, ao mesmo tempo, ao interesse social e ao interesse dos indivíduos. É da combinação desses interesses que emergem os seus princípios fundamentais e são estes que devem nortear a elaboração dos conteúdos do ensino, as práticas pedagógicas e a relação da escola com a comunidade e com o mundo.
O interesse social se inspira no papel que a educação deve jogar na manutenção da identidade nacional, na idéia de sucessão das gerações e de continuidade da nação, na vontade de progresso e na preservação da cultura. O interesse individual se revela pela parte que é devida à educação na construção da pessoa, em sua inserção afetiva e intelectual, na sua promoção pelo trabalho, levando o indivíduo a uma realização plena e a um enriquecimento permanente. Juntos, o interesse social e o interesse individual da educação devem também constituir a garantia de que a dinâmica social não será excludente.
Em todos os casos a sociedade será sempre tomada como um referente, e, como ela é sempre um processo e está sempre mudando, o contexto histórico acaba por ser determinante dos conteúdos da educação e da ênfase a atribuir aos seus diversos aspectos, mesmo se os princípios fundamentais permanecem intocados ao longo do tempo. Foi dessa forma que se deu a evolução da idéia e da prática da educação durante os últimos séculos, paralelamente à busca de formas de convivência civilizada, alicerçadas em uma solidariedade social cada vez mais sofisticada.
As modalidades sucessivas da democracia como regime político, social e econômico levaram, no após guerra, à social-democracia. A história da civilização se confundiria com a busca, sempre renovada, e o encontro das formas práticas de atingir aqueles mencionados princípios fundamentais da educação, sempre a partir de uma visão filosófica e abrangente do mundo.
Esse esforço, para o qual contribuíram filósofos, pedagogos e homens de Estado, acaba por erigir como pilares centrais do sistema educacional: o ensino universal (isto é, concebido para atingir a todas as pessoas), igualitário (como garantia de que a educação contribua a eliminar desigualdades), progressista (desencorajando preconceitos e assegurando uma visão de futuro).
Daí, os postulados indispensáveis de um ensino público, gratuito e leigo (esta última palavra sendo usada como sinônimo de ausência de visões particularistas e segmentadas do mundo) e, dessa forma, uma escola apta a formar concomitantemente cidadãos integrais e indivíduos fortes. Aliás, foram essas as bases da educação republicana, na França e em outros países europeus, baseada na noção de solidariedade social exercida coletivamente como um anteparo, social e juridicamente estabelecido, às tentações da barbárie.
A globalização, como agora se manifesta em todas as partes do planeta, funda-se em novos sistemas de referência, em que noções clássicas, como a democracia, a república, a cidadania, a individualidade forte, constituem matéria predileta do marketing político, mas, graças a um jogo de espelhos, apenas comparecem como retórica, enquanto são outros os valores da nova ética, fundada num discurso enganoso, mas avassalador.
Em tais circunstâncias, a idéia de emulação é compulsoriamente substituída pela prática da competitividade, o individualismo como regra de ação erige o egoísmo como comportamento quase obrigatório, e a lei do interesse sem contrapartida moral supõe como corolário a fratura social e o esquecimento da solidariedade.
O mundo do pragmatismo triunfante é o mesmo mundo do "salve-se quem puder", do "vale-tudo", justificados pela busca apressada de resultados cada vez mais autocentrados, por meio de caminhos sempre mais estreitos, levando ao amesquinhamento dos objetivos, por meio da pobreza das metas e da ausência de finalidades. O projeto educacional atualmente em marcha é tributário dessas lógicas perversas. Para isso, sem dúvida, contribuem: a combinação atual entre a violência do dinheiro e a violência da informação, associadas na produção de uma visão embaralhada do mundo; a perplexidade diante do presente e do futuro; um impulso para ações imediatas que dispensam a reflexão, essa cegueira radical que reforça as tendências à aceitação de uma existência instrumentalizada.
É nesse campo de forças e a partir dessa caldo de cultura que se originam as novas propostas para a educação, as quais poderíamos resumir dizendo que resultam da ruptura do equilíbrio, antes existente, entre uma formação para a vida plena, com a busca do saber filosófico, e uma formação para o trabalho, com a busca do saber prático.
Esse equilíbrio, agora rompido, constituía a garantia da renovação das possibilidades de existência de indivíduos fortes e de cidadãos íntegros, ao mesmo tempo em que se preparavam as pessoas para o mercado. Hoje, sob o pretexto de que é preciso formar os estudantes para obter um lugar num mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a República, a cidadania e a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade.
Daí, a difusão acelerada de propostas que levam a uma profissionalização precoce, à fragmentação da formação e à educação oferecida segundo diferentes níveis de qualidade, situação em que a privatização do processo educativo pode constituir um modelo ideal para assegurar a anulação das conquistas sociais dos últimos séculos. A escola deixará de ser o lugar de formação de verdadeiros cidadãos e tornar-se-á um celeiro de deficientes cívicos.
É a própria realidade da globalização -tal como praticada atualmente- que está no centro desse debate, porque com ela se impuseram idéias sobre o que deve ser o destino dos povos, mediante definições ideológicas sobre o crescimento da economia, como a chamada competitividade entre os países. As propostas vigentes para a educação são uma consequência, justificando a decisão de adaptá-la para que se torne ainda mais instrumental à aceleração do processo globalitário. O debate deve ser retomado pela raiz, levando a educação a reassumir aqueles princípios fundamentais com que a civilização assegurou a sua evolução nos últimos séculos -os ideais de universalidade, igualdade e progresso-, de modo que ela possa contribuir para a construção de uma globalização mais humana, em vez de aceitarmos que a globalização perversa, tal como agora se verifica, comprometa o processo de formação das novas gerações.
Leia mais: Da cultura à indústria cultural
Pólo RS :: Fórum das AD's
The Economist
Os bravos marinheiros que abriram as fronteiras do mundo com suas grandes viagens de exploração são figuras marcantes na história européia. Colombo encontrou o Novo Mundo em 1492; Dias contornou o Cabo da Boa Esperança em 1488; e Magalhães circunavegou o mundo em 1519. Há, no entanto, um problema na confiante asserção sobre a maestria européia: ela pode não ser verdadeira.
Parece mais provável que o mundo e todos seus continentes tenham sido descobertos por um almirante chinês, Zheng He, cujas frotas rondaram os oceanos de 1405 a 1435. Suas navegações, bem documentadas nos registros históricos chineses, foram descritas em um livro que surgiu na China por volta de 1418: "As maravilhosas visões da Balsa Estrela".
Em Pequim e Londres, foram reveladas novas evidências que fortaleceram a posição favorável ao pioneirismo de Zheng He. É uma cópia de 1763 de um mapa datado de 1418, o qual tem notas que conferem substancialmente com as descrições do livro. "Revolucionará nossa forma de pensar a história do mundo no século XV", diz Gunnar Thompson, estudante de mapas antigos e de navegadores.
O mapa foi mostrado em Pequim e no Museu Marítimo Nacional, de Greenwich. Seis caracteres chineses no canto direito superior do mapa indicam ser um "mapa do mundo integrado". Num canto inferior, uma nota diz que o mapa foi desenhado por Mo Yi Tong, imitando um mapa feito em 1418, que mostrava bárbaros pagando tributos ao imperador Zhu Di, da dinastia Ming. O cartógrafo distingue o que copiou do original e o que ele adicionou.
O mapa foi comprado por cerca de US$ 500 de um pequeno comerciante de Xangai em 2001. O comprador, Liu Gang, é um dos mais eminentes advogados comerciais da China e coleciona mapas e pinturas. Liu diz que ele sabia ser algo importante, mas pensava que podia ser uma falsificação moderna. Mas cinco colecionadores experientes concordaram que o mapa tinha mais de cem anos, por causa da despigmentação e dos traços de insetos sobre o papel de bambu.
Incerto de seu significado, Liu pediu a opinião de vários especialistas em história chinesa antiga, mas nenhum, diz, estava disponível. Então, no outono passado, ele leu 1421: The Year China Discovered the World ("1421: o ano em que a China descobriu o mundo"), de Gavin Menzies, o qual diz que Zheng He circunavegou o mundo, descobrindo a América no caminho. Menzies, que era tripulante de submarino da Marinha britânica e funcionário de banco, é um historiador amador e sua teoria teve pouca aprovação entre profissionais. Mas seu livro virou sucesso de vendas. Seus argumentos convenceram Liu de que seu mapa era uma relíquia das primeiras viagens de Zheng He.
Os detalhes na cópia do mapa são notáveis. Os perfis da África, da Europa e da América podem ser reconhecidos instantaneamente. Mostra o Nilo com duas fontes. A passagem entre norte e oeste parece não ter nenhuma área com gelo. As imprecisões também são evidentes. A Califórnia é mostrada como uma ilha; as ilhas britânicas não aparecem. A distância entre o mar Vermelho e o Mediterrâneo é dez vezes maior do que a verdadeira. A Austrália está no lugar errado (embora os cartógrafos não tenham mais dúvidas de que a Austrália e Nova Zelândia foram descobertas por navegadores chineses séculos antes do capitão Cook).
Os comentários no mapa, que parecem ter sido copiados do original, estão escritos em claros caracteres chineses, que ainda podem ser lidos facilmente. Da costa oeste da América, o mapa diz: "A pele da raça nesta área é preta-vermelha e penas são amarradas ao redor de suas cabeças e cinturas". Dos australianos, assinala: "A pele do aborígine também é preta. Todos estão nus e usam peças de ossos ao redor de suas cinturas".
É a notável precisão, e não os erros, que os críticos da teoria de Menzies deverão usar para questionar a autenticidade do mapa de 1418. Menzies e seus seguidores tendem a estabelecer a cópia de 1763 como representante fiel do original de 1418, o que traria respaldo à tese de que a China descobriu a América por volta de 1421. Análises espectrográficas de massa para datar o mapa estão sendo feitas na Universidade Waikato, na Nova Zelândia. Mesmo se confirmarem a antiguidade do mapa, a análise terá uma importância limitada, já que só determina a data de tintas e papel do copista.
Cinco especialistas em mapas antigos destacaram que o mapa de 1418 compila informações que estavam disponíveis aos poucos em mapas náuticos anteriores da China, que datam desde o século XIII e de Kublai Khan, que não era de forma nenhuma um navegador. Eles crêem na autenticidade da cópia.
O mapa tem boas estimativas de latitude e longitude de grande parte do mundo e vê a Terra redonda. "Os chineses tinham noção de longitude antes de Zheng He", diz Robert Cribbs, da Universidade da California. Eles presumiram que o mundo era redondo. "O formato do mapa é totalmente consistente com o nível de conhecimento que poderíamos supor dos cartógrafos reais chineses, após as viagens de Zhen He", diz Thompson.
E alguns dos erros do mapa de 1418 logo apareceram nos mapas europeus, o mais gritante sendo a Califórnia como uma ilha. Os portugueses têm conhecimento de um mapa de antes de 1420 feito por um cartógrafo chamado Abertin di Virga, que mostrava a África e a América. Como os portugueses não haviam descoberto esses lugares, as fontes mais óbvias da informação parecem ser cópias européias de mapas chineses.
A visão, porém, está longe de ser unanimidade entre os especialistas, com muitos dos críticos mais vorazes sendo da própria China. O jornalista Wang Tai-Peng, em Vancouver, que atesta as navegações chinesas pelo mundo no século XV (ele escreve sobre uma visita de embaixadores chineses a Florença em 1433), tem dúvidas de que os navios de Zheng He tenham chegado à América do Norte. Wang também argumenta que as cartas de navegação de Zheng He eram feitas de uma forma diferente da tradição chinesa de mapas.
A maioria das falsificações é motivada por fins monetários, especialmente com o mercado de mapas em alta. A Biblioteca do Congresso dos EUA pagou recentemente US$ 10 milhões por uma cópia de um mapa-múndi de 1507, do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller. Liu, no entanto, diz que não vende. "O mapa faz parte de minha vida", assegura.
As conseqüências da descoberta do mapa poderiam ser consideráveis. Se provar, de fato, ser o primeiro mapa-múndi, a" história da descoberta do Novo Mundo terá de ser reescrita", avalia Menzies. O que isso importa? Mostrar que o mundo foi explorado antes por navegadores chineses em vez de europeus significaria um grande dose de revisionismo histórico. Mas há mais do que história na questão. Não deixaria de ser menos interessante que os chineses, tendo descoberta a real extensão do mundo, não o tenham explorado comercialmente e politicamente. Afinal, a descoberta da América por Colombo levou à exploração e desenvolvimento do continente pelos europeus, algo que 500 anos depois tornou os EUA mais poderosos do que a China nunca foi.
Autor: The Economist
quarta-feira, maio 03, 2006
terça-feira, maio 02, 2006
Folha Online - Dinheiro - Uruguai se prepara para deixar o Mercosul, diz Vázquez - 01/05/2006
O Uruguai está se preparando para renunciar à sua condição de membro pleno do Mercosul e passar a ser um parceiro comercial do bloco, anunciou neste domingo o presidente do país, Tabaré Vázquez.
Em uma entrevista ao "Canal 10" de Montevidéu, Vázquez, que está em Washington em visita oficial, disse que o Mercosul "é mais um problema que uma solução para o Uruguai".
O presidente declarou que seu país invocará os artigos 20 e 21 do Tratado de Assunção --sobre a carta de renúncia ao acordo-- para se "tornar um simples associado". Para Vázquez, o modelo que o Uruguai seguirá "é o do Chile, um país moderno e aberto ao mundo".
O presidente disse ainda que o Uruguai terá apenas um acordo de livre comércio com o Mercosul e "nenhum outro compromisso com o bloco"
Vázquez criticou o fato de as relações dentro do bloco, integrado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, serem permanentemente fontes de problemas.
Ele citou como exemplo o "fechamento das pontes" que ligam Argentina e Uruguai por ambientalistas argentinos, que protestam contra a construção de duas fábricas de papel na cidade uruguaia de Frei Bentos, às margens do rio Uruguai. Os bloqueios são "retrocessos no processo de integração", assim como as "negociações dos países grandes (Brasil e Argentina), que excluem o Paraguai e o Uruguai", disse Vásquez.
Segundo declarações de Vázquez ao "Canal 10", em contraste a tudo isso, "um leque de oportunidades representado pelo resto do mundo se abre ao Uruguai".
O anúncio do presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, de que seu país se prepara para deixar o Mercosul, gerou nesta segunda-feira um clima de incerteza, apesar de não surpreender os uruguaios.
Vázquez anunciou a decisão pela TV, de Washington, onde está em visita oficial. Ele explicou que está estudando uma renúncia à condição de membro pleno do bloco, fundado há 15 anos com Brasil, Argentina e Paraguai. Ele pretende adotar o status de país associado, como Chile, Bolívia e Peru, além da Venezuela, que está em processo de integração plena.
O presidente adiantou que, quando voltar para Montevidéu, vai se reunir com todas as forças políticas do país, para que a saída seja resultado de um amplo consenso. Câmaras empresariais e sindicatos de trabalhadores também serão ouvidos, segundo ele.
Vázquez anunciou a saída numa entrevista ao enviado do Canal 10 de Montevidéu a Washington. No entanto, outros meios disseram que membros da delegação presidencial foram mais cautelosos ao comentar a retirada do Mercosul.
Por outro lado, ninguém no país parece se surpreender. Governo, oposição, imprensa, industriais, exportadores e importadores concordam que o Mercosul "não funciona", "não serve" e que só existe para que "Argentina e Brasil o usem como bem entendem".
O próprio Vázquez disse hoje ao Canal 10 que o Mercosul "é um problema, e não uma solução para o Uruguai".
O conflito com a Argentina por causa das fábricas de celulose e o fato de que o governo de Néstor Kirchner, que preside temporariamente o bloco, não tenha atendido a um pedido uruguaio para tratar o assunto no Mercosul, contribuíram para uma visão negativa.
O Uruguai pediu a convocação do Conselho do Mercosul, mas a Argentina decidiu que o assunto era "bilateral". Na última reunião do Mercosul, os representantes uruguaios receberam o apoio dos outros membros para que o conflito fosse resolvido pelo bloco.
A Argentina desmentiu o Uruguai e disse que brasileiros e paraguaios rejeitaram a proposta. O governo de Vázquez contestou com a publicação da ata da reunião. No documento, Brasil e Paraguai aprovam a convocação do Conselho.
Uma semana depois, uma reunião dos presidentes da Argentina, Brasil e Venezuela, em São Paulo, levou a uma mudança da posição brasileira, o que incomodou o Uruguai.
Os bloqueios das pontes que unem o Uruguai e a Argentina, em protestos de manifestantes argentinos contrários à construção das fábricas de celulose, têm sido denunciados como violações do princípio da livre circulação, exposto nos tratados do Mercosul.
O Uruguai calcula suas perdas no conflito em US$ 400 milhões.
Assim, foi com naturalidade que o país recebeu as declarações de Vázquez. Ele disse ao Canal 10 que as relações no Mercosul "são permanentes fontes de problemas" e que o país tem o "leque de oportunidades representado pelo resto do mundo".
Segundo Vázquez, o modelo para o Uruguai no futuro "é o do Chile, um país moderno e aberto ao mundo".
O presidente uruguaio elogiou o Tratado de Livre-Comércio assinado com o México em 2004. Agora, ele pretende chegar a um bom acordo também com os Estados Unidos. Na quinta-feira (5), ele vai se reunir com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush e espera conseguir "os melhores resultados possíveis".
Vázquez revelou sua intenção de assinar acordos de livre-comércio com qualquer país que se interessar. Depois de um tratado comercial com a União Européia, os próximos alvos seriam países árabes, como o Marrocos e os Emirados Árabes Unidos.
Além disso, para 2007 ele prepara uma viagem pela Ásia, onde, disse que "há um enorme mercado para os produtos uruguaios".
Especial
segunda-feira, maio 01, 2006
O gasoduto de US$ 20 bi - Isto É
Conciliador: o “encrenqueiro” Chávez fala em união.
O projeto de uma comunidade sul-americana de nações vem se esvaindo antes mesmo de se tornar realidade – e por obra de presidentes supostamente interessados em promovê-la. Os sintomas mais recentes são a campanha de Evo Morales contra empresas brasileiras na Bolívia e a rusga entre Tabaré Vazquez (Uruguai) e Néstor Kirchner (Argentina) por conta da instalação de duas multinacionais produtoras de celulose no Uruguai. Ironicamente, a idéia de integração regional só recupera fôlego nas mãos do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tido por muitos como um grande encrenqueiro. Numa reunião na semana passada em São Paulo entre ele, o presidente Lula e Kirchner, o venezuelano obteve a ratificação do Brasil e da Argentina para seu projeto de construir, até 2017, um supergasoduto de quase dez mil quilômetros que transportaria gás da Venezuela para o Brasil, o Uruguai e a Argentina. A obra, que poderá acabar com o gargalo energético da região, custará cerca de US$ 20 bilhões, a serem financiados pela PDVSA, Petrobras e por investidores privados. De quebra, Chávez – em sintonia com o Brasil – estendeu o convite à Bolívia, que é contra esse gasoduto do Cone Sul. “A incorporação da Bolívia é fundamental. Juntas, as reservas da Venezuela e da Bolívia (as duas maiores da América do Sul) tornam o projeto sustentável”, disse Chávez.
“O investimento se pagará em pouco tempo. Acho que vão sobrar recursos”, brincou ele. Chávez garantiu que o gás sairá barato para os consumidores sul-americanos, mas vendeu seu peixe na embalagem de integração regional, não se esquecendo de alfinetar os EUA. “A Venezuela está mais interessada no desenvolvimento da América do Sul”, disse. “Se levássemos em conta apenas o interesse financeiro, não estaríamos aqui em São Paulo, mas em Washington. Se a questão fosse apenas a ganância econômica, estaríamos fazendo acordo com os EUA”, disparou Chávez, o único dos “três mosqueteiros” (definição do venezuelano para a trinca formada por ele, Lula e Kirchner) que se dignou a falar com a imprensa.
Bolívia expulsa a EBX Isto É
O que está por trás da decisão de Morales de retirar a empresa brasileira do país
Máquinas paradas: o empresário Eike Batista (à esq.) retirou sua
empresa da Bolívia depois das ameaças de confisco de Evo Morales
Com cinco ministros do presidente da Bolívia, Evo Morales, à sua volta, o empresário brasileiro Eike Batista pensou no pior. “Achei que ia sair de lá preso”, disse ele, em segurança no Rio de Janeiro, a respeito da reunião travada dez dias atrás em
La Paz. Dono da EBX Siderurgica de Bolivia, empreendimento no qual já investiu
US$ 60 milhões, Eike foi explicar seus planos ao novo governo para operar a companhia sem causar desmatamento na floresta boliviana. Não deu certo. Na
terça-feira 25, o empresário anunciou que acabara de encerrar suas operações no país, amargando um prejuízo de, no mínimo, US$ 20 milhões. Motivo: declarações
do presidente Morales de que a EBX poderia ter todos os seus ativos confiscados, caso não deixasse o país imediatamente. Morales alegou falta de licença ambiental e, nacionalista, lembrou uma antiga lei que impede empresas estrangeiras de se instalarem na área de fronteira do país. Mesmo com a saída forçada, o confisco
não está descartado.
Instalada desde o ano passado na cidade de Puerto Quijarro, a 50 quilômetros da fronteira com o Brasil, a EBX iria colocar em operação nos próximos dias o primeiro de seus quatro altos-fornos. Dois já haviam sido construídos – e a questão, agora, é saber se haverá tempo de transferi-los para um novo endereço no Brasil ou no Paraguai antes que Morales e seus ministros resolvam endurecer ainda mais. Eike também desistiu de construir duas termelétricas em parceria com uma cooperativa boliviana, projeto orçado em US$ 180 milhões. “Não dá para confiar no governo boliviano e construir a usina sem a certeza de ter o gás”, descartou ele.
A EBX iria gastar US$ 30 milhões em proteção ambiental. A madeira que alimentaria os altos-fornos estaria no porcentual da vegetação que, pela lei boliviana, pode virar lavoura. Em vez de queimar a mata, os proprietários de terras venderiam a madeira à empresa. Durante a construção dos altos-fornos, a companhia empregou cerca de 900 bolivianos. Na etapa seguinte, de funcionamento, havia previsão de compra de madeiras de mais de cinco mil pequenos proprietários. Por isso, a presença da empresa na cidade obteve a simpatia de grande parte da população local, seduzida pelos empregos. Em uma manifestação de apoio à permanência da EBX, moradores seqüestraram por 13 horas três ministros de Morales. Toda a confusão ocorre às vésperas de Eike estrear no mercado de ações com a abertura do capital da MMX, empresa de sua holding. Irritado, o empresário reconhece que a Bolívia tem razões de sobra para enxergar os estrangeiros com a desconfiança de um país que amarga 500 anos de exploração predatória, mas não veste a carapuça. “Lamento que eles tenham sido espoliados, mas eu não posso pagar o preço de 500 anos de história. Nunca tirei nada do país. Nem comecei”, lembrou Eike.